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Artigo: O mito Marilyn Monroe (1926 – 1962) por Fernando Moura Peixoto

A dialética da estrela: no cinema, ela encarna uma vida privada. Na vida privada, tem que encarnar uma vida de cinema. Através de todos os papéis que desempenha nos filmes, a estrela representa seu próprio papel; através de seu próprio papel, desempenha todos os papéis que faz no cinema.” – EDGAR MORIN (1921 -)


 

Nunca houve uma mulher como ela. As ‘ritas’ que me perdoem – e as ‘amélias’ também -, mas a Marilyn é que era a mulher de verdade. Marilyn tinha a maior vaidade. E muitos bons motivos para isso. Pois, decorridos 90 anos de seu nascimento e 54 da sua morte, permanece como o maior símbolo sexual de toda a história do cinema – uma personalidade emblemática, glamorosa, um ícone de seu tempo, como se diz atualmente.


 

NORMA JEAN


 

Marilyn Monroe veio ao mundo às nove e meia da manhã do dia primeiro de junho de 1926, no Hospital Geral das Clínicas de Los Angeles, com o nome de Norma Jeane Mortenson. Sua mãe, de 24 anos, que no hospital registrara-se Gladys Monroe Mortenson (1902 – 1984), nascera no México, em Porfirio Díaz, e afirmava descender da família do quinto presidente norte-americano James Monroe (1758 – 1831), que proclamou em 1823 a Doutrina Monroe – “América para os americanos”.


 

Aos 15 anos ela desposara Jasper Newton “Jap” ”Jack” Baker (1886 – 1951), empresário, de quem teve dois filhos. Nos idos de 1920, o casal mudou para Los Angeles e logo se separou. Gladys, cujos pais e irmãos foram diagnosticados esquizofrênicos-paranoides, trabalhava como selecionadora de negativos na ‘Consolidated Films Industries’. Sofrendo de labilidade emocional e incapaz de cuidar da pequena Norma, passaria alternadamente quase toda a sua vida internada.


 

De origem norueguesa, Martin Edward “Ed” Mortensen (1897 – 1981), padeiro e gasista, teria sido o genitor de Marilyn – assim consta na ficha hospitalar. Norma Jeane apregoava que ele morrera em um desastre de motocicleta um dia antes do nascimento dela. Em dúvida quanto à identidade paterna, ela aceitou como pai Charles Stanley Gifford (1898 – 1965), um colega e amante temporário da mãe. De triste infância, a garota viveu em onze lares provisórios (entre eles os Bolander e McKeeGoddard) e um orfanato – o ‘Los Angeles Orphans Home’“ninguém nunca disse que eu era bonita quando pequena; toda menina deveria ser chamada de bonita, mesmo se ela não seja”.


 

A FOTOGENIA DESVELADA


 

Aos dezesseis anos, em 19 de junho de 1942, para escapar de um retorno ao orfanato, casou-se – pela primeira vez – com James Dougherty (1921 – 2005), de vinte anos, filho de um vizinho, a quem namorava há apenas um semestre. A felicidade conjugal duraria 24 meses, quando ele entrou para a Marinha, que o transferiu para o Pacífico Sul – “Jim e eu raramente conversávamos; não que estivéssemos brigados, é porque não tínhamos nada a dizer um ao outro”.


 

Em 29 de junho de 1945, Norma Jean – ainda de cabelos castanhos, avermelhados e crespos – teve a sensualidade revelada pelo fotógrafo profissional David Conover (1919 – 1983) na fábrica ‘Radioplane Corporation’, em El Segundo, na Califórnia, onde era uma simples operária na produção de ‘drones alvo’ para treinamento militar – a Segunda Guerra chegava ao fim. Estampadas em revistas internas do Exército e enviadas a agências de modelos em Los Angeles, as fotos despertaram o interesse de Hollywood.


 

Então com dezenove anos, começou a frequentar o Sunset Studio, tornando-se ‘pin-up girl’ e depois, modelo profissional, posando por dez dólares a hora (duas horas diárias) durante quatro anos. Ali fez um calendário de nu artístico produzido por Earl Moran (1893 – 1984), George Patty (1896 – 1982) e Alberto Vargas (1894 – 1975).


 

O INÍCIO NO CINEMA


 

Norma Jeane iniciaria a atribulada carreira cinematográfica em 1947, atuando em pontas, já legalmente loura, da cabeça aos pés – “se é para ser loira em cima, também é preciso ser loira embaixo”. O nome artístico ‘Marilyn Monroe’ havia sido escolha de Ben Lyon (1901 – 1979), ator e descobridor de estrelas da Twentieth Century FoxJean Harlow (1911 – 1937), Clara Bow (1905 – 1965) e Betty Grable (1916 – 1973) -, embora ela preferisse ‘Jean Monroe’ (em voga na época, ‘Marilyn’, uma variante de ‘Mary’, significa “alegre”, “popular”) – "eu sabia que pertencia ao público e ao mundo, não pelo fato de ser talentosa ou até mesmo bonita, mas porque eu nunca pertenci a nada ou a ninguém”.


 

Em 1952, em Tijuana, no México, um sigiloso e curtíssimo casamento – menos de uma semana – com o remediado escritor Robert Slatzer (1927 – 2005), desmanchado por ordem do todo poderoso Darryl F. Zanuck (1902 – 1979), chefão da Fox, que investira e acreditava piamente no futuro da moça.


 

A ASCENSÃO DO MITO


 

O sucesso chegaria a partir de 1953, depois da publicação, no primeiro número da revista ‘Playboy’ – em que Marilyn foi capa e a “Sweethart of The Month” – de um pôster com uma foto nua, parte de um ensaio fotográfico feito por Tom Kelley (1919 – 1984) para o calendário ‘Golden Dreams’“o corpo é para ser visto, não para ser coberto”. Todos os estúdios passaram a desejá-la em seus filmes. A deslumbrante Marilyn tinha 1,67m de altura, 94 cm de busto, 61 cm de cintura e 89 cm de quadris.


 

Promovida a símbolo sexual americano e mundial, seguiram-se nove anos de fama e frustrações. Geminiana e multifacetada, nas telas a atriz extrovertia as emoções mostrando um grande talento. Na vida real avolumavam-se os distúrbios psíquicos e os problemas afetivos – “não sei por que as pessoas não são mais generosas umas com as outras”.


 

Mais dois matrimônios desfeitos – um com o astro do beisebol Joseph Paul “Joe” DiMaggio (1914 – 1999), em 1954, e outro com o dramaturgo Arthur Miller (1915 – 2005), em 1956 – e duas gestações perdidas. Marilyn sofria de endometriose, disfunção menstrual causada pelo aumento do tecido endometrial fora do útero, que provoca sangramento, inflamação, dor pélvica e infertilidade, acarretando na mulher efeitos sociais e psicológicos danosos“não me falta homem, o que me falta é amor”.


 

Insegura, instável e imprevisível, abusava dos tranquilizantes e entregava-se à bebida. Eram notórios os atrasos da artista às filmagens – “eu já estive em vários calendários, mas nunca consegui sair de casa na hora certa”.


 

Marilyn estudou literatura e apreciação de arte na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Cursou o ‘Actors Studio’, de Lee Strasberg (1901 – 1982) e a mulher Paula Strasberg (1909 – 1966), em Nova York. Fez análise com Anna Freud (1895 – 1982), em Londres. E teve sua própria produtora cinematográfica.

 

Em toda a carreira de quase trinta fitas, atuou sob a direção de respeitáveis nomes como Joseph Leo Mankiewicz (1909 – 1993), Howard Hawks (1896 – 1977), Fritz Lang (1890 – 1976), Billy Wilder (1906 – 2002), Joshua Logan (1908 – 1988), George Cukor (1899 – 1983), John Huston (1906 – 1987), Jean Negulesco (1900 – 1993), Henry Hathaway (1898 – 1985), Otto Preminger (1905 – 1986) e Laurence Olivier (1907 – 1989).


 

Por trás da aparente fragilidade do estereótipo da “loura fútil” existia uma morena perspicaz que sabia utilizar a mídia e aparecer bem mesmo nos piores momentos. Costumava ler obras de autores célebres, como Flaubert, Joyce, Dostoiesvki, Wolfe, Twain, Odets, O’Casey, Mann, Hemingway, Salinger e DH Lawrence“Arthur Miller não teria casado comigo se eu fosse apenas uma loira estúpida”.


 

Não à toa, o renomado ‘Dicionário Seghers do Cinema’ (Éditions Seghers, Paris, 1962), publicou sobre ela: “Sua beleza, sua sensualidade sem mistério e uma esplendorosa vitalidade asseguraram-lhe este prestígio que a magia da tela reserva à feminilidade. Mas a grande popularidade se deve também ao real talento de Marilyn, tanto para a comédia como para o drama, e à inteligência que sempre conduziu a escolha de seus papéis”.


 

MORTE ENVOLTA EM MISTÉRIO


 

A morte prematura de Marilyn Monroe – aos 36 anos – ocorreu presumivelmente na madrugada de domingo, 5 de agosto de 1962, em sua casa – uma aconchegante ‘hacienda’ com piscina – de Brentwood, elegante subúrbio de Los Angeles.


 

O cadáver, oficialmente encontrado pela governanta Eunice Murray (1902 – 1994), deitado de bruços no leito, tinha a mão crispada sobre o telefone. No quarto acharam-se vidros vazios de sete drogas diferentes. A autópsia revelou ausência de álcool, um índice de 4,5 miligramas de barbitúrico em cada 100 cm3 do sangue e um veneno de ação rápida no estômago.


 

A boca e o aparelho digestivo apresentavam queimaduras. Aparentemente ela engolira cerca de 50 cápsulas do sonífero Nembutal, além de gotas narcotizantes. No entanto, o legista Thomas Noguchi (1927-) não conseguiu examinar as amostras da parte inferior dos intestinos, uma vez que tinham sido inexplicavelmente destruídas.


 

Nas horas precedentes, Marilyn, deprimida e angustiada, ligou para diversas pessoas. O psiquiatra Ralph Greenson (1911 – 1979) recomendou-lhe, como de hábito, um passeio de automóvel pela praia – “você sabe de quem sempre dependi? Não de estranhos, não de amigos. Do telefone! Esse é o meu melhor amigo. Adoro ligar para as pessoas, especialmente tarde da noite quando não consigo dormir”.


 

E recebeu dois telefonemas. Um, do filho de Joe DiMaggio, Joe Jr., comunicando o próximo casamento dele. E outro, de alguém muito importante. Provavelmente do procurador-geral da República, Robert Kennedy (1925 – 1968), irmão do presidente dos Estados Unidos, John Kennedy (1917 – 1963), com os quais ela mantivera secretamente – nem tanto – ardorosos e recentes romances – “o sexo faz parte da natureza, eu só sigo a natureza”. A diva platinada alimentava sérias pretensões em se tornar primeira-dama estadunidense – “eu tenho fantasias demais para ser uma dona de casa”.


 

A polícia recusou-se a revelar o nome do veneno descoberto no corpo de Marilyn e apreendeu o registro das chamadas telefônicas na noite fatídica – “matar-se é uma decisão pessoal, não creio que seja pecado ou crime, é seu direito se você quiser, embora não leve a lugar algum”.


 

Simples acidente – produto de uma superdose -, suicídio ou um assassinato, em trama diabólica – já havia sido investigada por suspeição de atividades comunistas – que envolveria a Máfia, a CIA e o FBI? Decorridos 54 anos, o mistério e o mito MM permanecem. Dezenas de livros foram escritos sobre Marilyn, e diariamente na internet surgem novas imagens em vídeos e detalhadas informações em canais especializados na vida da “estrela solitária”“eu me renovo quando fico sozinha”.


 

O dinheiro não lhe interessava; só queria “ser maravilhosa” – conseguiu. Para uma pessoa extraordinária como Marilyn Monroe não pode haver “CURSUM PERFICIO”. Sua jornada não terminou aqui. O culto à deusa loura do cinema vai continuar. Para sempre –"mulheres comportadas raramente fizeram história”.


 

Quando morre o passado, há luto, mas quando morre o futuro, nossas imaginações são obrigadas a prosseguir.”GLORIA STEINEM (1934 -)


 

FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C)


 


 


 

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