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Cidade iemenita volta a respirar após um ano sob o jugo da Al Qaeda

Moradores de Mukalla respiram mais tranquilos desde a fuga dos jihadistas da Al Qaeda, que durante um ano impuseram uma versão estrita do Islã nesta cidade do sudeste do Iêmen.

A presença jihadista deixou uma marca nesta cidade portuária de 200.000 habitantes, capital da província desértica de Hadramut.

Mas, desde 24 de abril, não se veem combatentes da Al Qaeda. Uma operação do exército iemenita, apoiado pelas forças especiais dos Emirados Árabes Unidos, os obrigou a fugir.

“Vivíamos sob o terror de que os combatentes da Al-Qaeda nos detivessem ou nos forçassem a nos incorporarmos às suas fileiras”, contou Mujahid al Qaiqi, de 22 anos, que mora no bairro de Dis (centro).

As forças de segurança ocupam agora o seu lugar e revistam minuciosamente os veículos por medo de “infiltrações”. A cidade parece outra.

A Al Qaeda, muito arraigada no sul do Iêmen há mais de 20 anos, apoderou-se de Mukalla em abril de 2015, aproveitando o caos gerado pelo conflito entre os rebeldes xiitas huthis e as forças partidárias do presidente Abd Rabbo Mansur Hadi.

“Fomos testemunhas de um corte drástico das liberdades”, lembra Lamis al Hamidi.

Nem música, nem cinema

Os jihadistas contavam com uma polícia religiosa que se encarregada de proibir que houvesse mulheres e homens juntos em locais públicos e perseguiam os dissidentes, explica Hamidi. Em um painel ainda se lê: “Mulheres fiéis, cubram seus corpos puros da agressão de olhos indiscretos”.

Os agentes da Al-Qaeda prendiam sistematicamente qualquer casal para verificar o parentesco entre eles, afirma outro morador, Saleh Naser.

Segundo testemunhas, em 4 de janeiro, por exemplo, apedrejaram uma mulher acusada de adultério diante de dezenas de pessoas.

Membros de Al Qaeda “chegaram inclusive a proibir canto e dança nos casamentos”, afirma Alauia Sakaf nesta cidade com forte tradição musical.

“Um bom dia desembarcaram em na minha loja e me exigiram que apagasse todas as gravações de música e cinema”, diz Isa Ghaleb, proprietário de uma loja de discos. “Em seu lugar, propuseram vídeos da Al Qaeda sobre suas operações em Afeganistão, Iraque e Síria”.

Os jihadistas também destruíram tumbas e mausoléus alegando que o Islã proíbe a idolatria.

Serviços públicos garantidos

Apesar das restrições às liberdades, a Al Qaeda zelou pelo funcionamento dos serviços públicos, contam testemunhas.

“Os membros da Al Qaeda se encarregaram de garantir os serviços públicos como água e eletricidade e o conseguiram”, admite Abdel Jabar Bajbir, um estudante residente em Shahr, cidade situada a 60 km de Mukalla e que também estava sob o controle dos jihadistas.

Em um comunicado de 25 de abril, o grupo extremista sunita justificava sua retirada de Mukalla e afirmava ter “preservado a cidade dos huthis”, aos quais considera hereges por serem xiitas.

A Al Qaeda dizia que sua retirada era tática para “não provocar destruições” nesta cidade bombardeada pela coalizão árabe que intervém no Iêmen sob comando saudita, em apoio ao governo.

E assegurava que “a segurança” em Mukalla “permitiu à economia se desenvolver e ao comércio, prosperar”, argumentos sensíveis para os iemenitas nestes tempos de guerra.

Alguns moradores de Mukalla dizem temer que a volta do governo traga junto uma deterioração dos serviços públicos.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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