Com set polarizado, filme quer mostrar Plano Real "sem ideologias"

O ano é 2003. Às vésperas da CPI do Banestado, que investigava a evasão de divisas do Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso, uma jornalista questiona o economista Gustavo Franco. “Se condenado, o senhor pode sair do Congresso algemado. Isso não te deixa nervoso?”. Com cabelo penteado para trás, óculos de aro grosso, o ex-presidente do Banco Central tem o olhar vago e pensativo.

Corta.

A entrevista não aconteceu nos corredores de Brasília, mas em um quarto no andar presidencial do Hotel Transamérica, em São Paulo, na semana passada, onde “3.000 Dias no Bunker”, baseado no livro de Guilherme Fiúza sobre a criação do Plano Real, está sendo filmado.

Dirigido por Rodrigo Bittencourt (da comédia “Totalmente Inocentes”, de 2012), o filme remonta em flashbacks, durante a entrevista fictícia, a história do grupo de economistas que se trancam por meses em busca da nova moeda.

O ator Emílio Orciollo Netto interpreta Franco com unhas, dentes e gel no cabelo. Personagem central da trama, ele vê suas ações como presidente do Banco Central questionadas na CPI, no alvorecer do governo Lula. “Ele é um cara obstinado, inteligente, com opiniões contundentes, que impressionam para ambos os lados. É um grande personagem, importante de se fazer”, ressalta o ator.

Do outro lado, Cássia Kis é a jornalista Valeria Vilela. “Ela é quase uma jornalista petista, que o coloca na parede”, explica. “O que é engraçado, porque eu quero que o PT morra”, diz, sem rodeios.

Lá fora, além da linha de trem ao lado do Rio Pinheiros, cujo barulho faz a equipe parar as filmagens de 15 em 15 minutos, o Brasil real se convulsiona em uma crise política tão ruidosa quanto em 1994, quando o Plano Real foi colocado em prática para superar inflações que chegavam aos 46%.

“A primeira motivação para fazer o filme foi contar uma história importante para o país, para gerar o debate e para que o tema econômico cresça em importância”, conta Ricardo Fadel Rihan, que produz o filme ao lado de Marco Audrá.

Antigo membro de um grupo de jovens empreendedores da Fiesp, Ricardo conta que comprou os direitos do livro em 2013. Ninguém poderia imaginar, nas vésperas da eleição, o que estaria por vir, mas ele sentia: “O país estava em um rumo equivocado, os jovens estavam desengajados”.

Antes de qualquer coisa, ele garante: Não se trata de um filme “tucano”. “Estamos fazendo um filme absolutamente apartidário. Você vê aqui no elenco, muitos são contra o impeachment, outros são a favor”, conta. “Eu me considero um liberal de esquerda”.

Com um tom mais ameno, a atriz Mariana Lima comemorava no set, com os olhos no celular, o afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara. “Agora caiu”, comentou.

“Estou bem atuante nesse sentido”, ela conta. “Foi muito chocante o espetáculo do Congresso [na votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff], a gente não sabe muito bem as coisas, somos aculturados, acostumados a digerir o que a mídia nos dá”.

No papel de Ana Paula, assessora de Gustavo Franco, Mariana chegou a se posicionar contra o impeachment, mas pondera: “Tenho profundas críticas ao PSDB e ao PT. Não quero exaltar o PSDB com esse filme, mas algum juízo sempre tem. À medida que você faz um filme sobre o Plano, de dentro do bunker do Plano, você assume que aquelas pessoas detêm de algum modo a verdade”.

Para ela, isso não chega a ser um empecilho. “Eu tenho que poder fazer um filme sobre o PSDB, sem ser peessedebista. O roteiro se coloca num lugar neutro, inclusive apontando os defeitos das pessoas que estavam lá”.

Stella Carvalho/Divulgação

Fernando Henrique Cardoso visita o set de “3.000 Dias no Bunker” e posa com Norival Rizzo, que vive o ex-presidente no filme

Visita de FHC

Foi neste clima de polarização que a equipe recebeu a visita do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso há algumas semanas. Ao pisar no set, teve quem se antecipasse e dissesse que tinha votado em Marina Silva.

“As pessoas podem não gostar do Fernando Henrique, mas não gostar do Plano Real, é difícil”, observa Norival Nizzo, que vive o ex-presidente. Ele se diz um ex-petista. “Eu não sou ator, ator são esses caras”.

Em busca dessa neutralidade, Ricardo afirmou que foi captar os R$ 8 milhões, autorizado pela Ancine, em empresas privadas. “Não quis dinheiro de nenhum estatal, nem de empreiteiras.”

Ele espera que no 1° semestre de 2017, quando o filme for lançado, com distribuição da Paris Filmes, o público continue “mais interessado em política do que em futebol”.

“É uma homenagem a uma grande realização brasileira, e o cinema sempre focou mais nas nossas tragédias, favela, sertão”, explica. “Eu defendo thriller político, não ideológico. Queremos inaugurar esse novo gênero”.
 

Fonte: Bol.com.br

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