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Condenados a opinar?

Inevitável não tratar de um assunto, dos mais citados, nos últimos dias, em Alagoas e no Brasil, porque também me sinto diretamente atingida por ser professora da rede.

O projeto “batizado” de Escola Livre afirma que os professores da rede estadual de Alagoas serão obrigados a manter a ”neutralidade” em sala de aula, disciplinando-os em seus comportamentos para impedir, segundo o autor do projeto de lei, a doutrinação política, religiosa e ideológica dos alunos. Por 18 votos a oito, os deputados decidiram que os educadores estão impedidos de ”doutrinar” e ”induzir” alunos em assuntos políticos, religiosos e ideológicos. E quem não respeitar a decisão poderá até ser demitido.

Do que analisamos é que hoje em dia ninguém pode opinar. Chegamos a um momento histórico que sempre que for necessário manifestar uma opinião, não sabermos necessariamente a quem vamos ofender quando o fizermos, mas é certo que isto sempre ocorrerá – mesmo que implicitamente.

Nesse sentido, podemos analisar que, de uma forma geral, o indivíduo passou a valorizar mais a opinião alheia pois ninguém tem tempo para criar e quase nunca para existir. O que acontece, no mundo atual, é que as coisas tomaram uma proporção na qual se dita todos os dias o que você deve fazer, o que você deve comer e principalmente o que você deve falar. E se pelo projeto “escola livre” eu não posso opinar, mas vou fazê-lo mesmo assim porque me sinto sufocada com esse excesso de “não pode”, não fale”, não faça”.

Pois bem, é fundamental que todos possamos manifestar nossos pensamentos, conviver em meio à diversidade de opiniões e de posicionamentos políticos. São pressupostos para a formação de pessoas reflexivas com sentido de história, de tempo e de espaço, do local e do global, do racional e afetivo. Por isso, são construções e não algo dado naturalmente.

Aqui ratifico a importância da resistência do sujeito aos normativos vigentes no seu contexto histórico, econômico e social, a partir do desenvolvimento da análise e da crítica. As metodologias tradicionais de ensino configuram-se, habitualmente, como estratégias de manutenção do status quo, marcadas pelo conformismo e pela formação instrumentalista. Mais que isso, tornou-se mecanismo dos “poderes” a desautorização de discurso outro e suspensão de debates.

Contudo, se o mundo está em constante transformação, não podemos tomar algo como uma verdade indiscutível, assim como também acontece no direito, onde as leis estão sempre se moldando a uma sociedade que se encontra em constante transformação. Urge irmos quebrando paradigmas impostos por uma sociedade burguesa, e de alguma maneira abalar essa estrutura de dominação de nossa sociedade capitalista.

Podemos concluir, trazendo as contribuições de Karnal: “as forças obscuras estão com medo dos professores. Talvez seja a melhor notícia. Temos um poder que não suspeitávamos. Eles sabem que somos inimigos do mundo reacionário deles, […]. Acabamos de ser homenageados de forma indireta”.

E aos deputados e defensores do Projeto, cabe manifestar aqui a opinião de que resistiremos a essa onda e assumiremos sempre uma postura crítica, e teremos coragem e força para comentários outros que possam vir. 


 

 

Ma. Cristiane Souza

Psicóloga/ Leader Coach / Doutoranda em Linguística (UFAL)

Sócia Diretora Ânima Consultoras Associadas

Consultora Credenciada SEBRAE/MAC

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