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Crescem iniciativas de resgate à importância das mulheres na psicanálise

“É necessário se espantar, se indignar e se contagiar. Só assim é possível mudar a realidade”, defendeu Nise da Silveira em uma de suas últimas entrevistas, realizada em 1991, oito anos antes de sua morte, quando a médica psiquiatra tinha 89 anos. Ela levou o lema a sério. Muito antes das críticas ao tratamento dado aos pacientes de saúde mental nos anos 1960 e da reforma psiquiátrica proposta na década seguinte pelo italiano Franco Basaglia, um método inovador e humanizado, baseado na arteterapia, foi implementado por Nise no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, sendo até hoje referência para profissionais da área.

A abordagem revolucionária da brasileira é o tema principal do filme Nise — O coração da loucura, estrelado por Glória Pires, em cartaz na cidade. No entanto, muito mais do que simplesmente apresentar ao público o trabalho da brasileira, a película de Roberto Berliner se insere em um movimento no qual se busca resgatar a importância que as mulheres tiveram no estudo e nas propostas de tratamento do sofrimento mental. Hoje, pesquisadores se esforçam para lançar luz sobre o trabalho dessas pioneiras, que, como Nise, foram fundamentais para a área, especialmente a partir da criação da psicanálise, por Sigmund Freud, na virada do século 19 para o 20.

“As mulheres tiveram um papel fundamental na construção e na fundação da psicanálise. Naquela época, elas tinham dificuldade de frequentar as universidades, as ciências eram dominadas pelos homens. Elas viram um ambiente favorável na psicanálise, que, no primeiro momento, não dependia muito de diplomas. Muitas dessas pioneiras eram pacientes e parentes dos primeiros psicanalistas”, conta o psicólogo Marcus Vinícius Neto Silva.

O especialista é um exemplo desse esforço de resgate das autoras que ajudaram a pensar a saúde mental. No  ano passado, ele e a colega Érica Silva Espírito Santo criaram na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) o grupo de estudo Pioneiras da Psicanálise, que conta atualmente com 10 membros, todos alunos de graduação, mestrado ou doutorado da instituição. O objetivo é justamente pesquisar a vida e a obra dessas mulheres, refletindo sobre o impacto de suas produções teóricas e o alcance de suas proposições.

Exceção

Na trajetória de Nise também é possível observar como as portas da ciência se abriam com muito mais facilidade para os homens. A alagoana de Maceió foi a única mulher entre os 137 alunos que se formaram em 1927 na Faculdade de Medicina da Bahia. Após a conclusão do curso, ela se mudou para o Rio de Janeiro e iniciou a residência médica no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha, o primeiro do Brasil. Em 1934, tornou-se médica psiquiátrica do Ministério da Saúde e continuou a morar na capital fluminense.

Durante a Intentona Comunista, movimento que buscava derrubar o governo de Getúlio Vargas, Nise foi denunciada por uma enfermeira que havia visto livros marxistas em seu quarto. Ela ficou presa por um ano e meio e só pôde voltar a trabalhar em 1944. Quando retornou, encontrou métodos como o eletrochoque e a lobotomia estabelecidos nos hospitais psiquiátricos, práticas às quais se opôs.

Foi sua recusa em adotar as medidas de extrema violência que a levou à terapia ocupacional e, depois, à arteterapia. Nise percebeu que o trabalho com a pintura e a modelagem promovia uma mudança no estado de esquizofrênicos e serviam como forma de o terapeuta acessar as emoções e os conteúdos internos dos pacientes. Essa abordagem a fez entrar em contato com Carl Gustav Jung, discípulo de Freud que havia rompido com o pai da psicanálise algumas décadas antes e trabalhava, então, em sua psicologia analítica.

“Entre as formas mais recorrentes apresentadas pelos internos estavam as circulares, que são, por excelência, uma imagem da unidade. Como pessoas partidas — esquizo significa cisão —, que perderam a unidade, podiam reproduzir tão frequentemente o símbolo da unidade? Ela mandou uma carta para Jung com as pinturas desses pacientes perguntando a ele se aquelas imagens poderiam ser consideradas mandalas e o porquê de aparecerem tantas vezes”, conta Luiz Carlos Mello, biógrafo da médica e diretor do Museu de Imagens do Inconsciente, criado nos anos 1950 para exibir os trabalhos artísticos dos internos.

A resposta do suíço chegou em menos de um mês. “Ele respondeu que, realmente, eram mandalas (círculo, em sânscrito), que nas religiões orientais são utilizadas como forma de meditação e que as imagens expressariam o potencial de cura da psique”, prossegue Mello. “A psicologia junguiana entra no Brasil a partir dessas imagens feitas nos ateliês dela.”

Produtoras

Jung ficou tão interessado no trabalho de Nise que a convidou para visitar seu instituto e fazer uma exposição em Zurique durante o Segundo Congresso Mundial de Psiquiatria, em 1957. “O fundamental aí é perceber que, enquanto Jung estudava suíços e alemães, pessoas com alto nível de educação e cultura, a doutora Nise estudava pessoas internadas em hospitais públicos no terceiro mundo. E as imagens que surgiam lá eram as mesmas que surgiam aqui”, observa Mello, autor do livro Nise da Silveira: Caminhos de uma psiquiatria rebelde. Muito mais que uma aprendiz de Jung, portanto, Nise foi uma real colaboradora.

Segundo Marcus Vinícius Silva, a participação de várias mulheres no início da psicanálise também não se restringiu a um mero aprendizado, mas de real produção da nascente teoria. O exemplo mais conhecido é o de Melanie Klein, uma das fundadoras do estudo da psicologia infantil. Contudo, muitas outras que fizeram pesquisas relevantes acabaram não tendo o mesmo reconhecimento.

Em um artigo escrito com Érica Espírito Santo, o psicólogo resgata algumas dessas autoras (leia o quadro) e investiga os motivos que contribuíram para que a produção delas acabasse esquecida. “Um dos fatores que motivaram essa investigação foi a impressão de que, no campo da psicanálise, essas autoras acabam ocupando um lugar secundário em relação aos grandes nomes do movimento psicanalítico. O que se confirma em alguns casos, mas não em outros. As razões que as levam a serem colocadas em segundo plano podem ter alguma relação com o gênero, mas a confirmação dessa hipótese exigiria uma pesquisa ainda mais minuciosa”, escrevem no trabalho A história das primeiras mulheres psicanalistas do início do século XX, publicado na revista história, histórias, do Programa de Pós-graduação em História da UnB.

Os autores observam, contudo, que, apesar de a psicanálise ter aberto espaço à participação feminina, elas enfrentaram resistências. “Estranhamente, (elas) tiveram que lutar também aí para que suas vozes fossem ouvidas. A intensa resistência de Freud e seus discípulos às teorizações dessas pioneiras foi vencida lentamente, e as mulheres foram ocupando gradativamente lugares cada vez mais importantes na construção da teoria e prática psicanalíticas”, afirmam.

Reconhecimento

Passado mais de um século do início da psicanálise e da inauguração de uma forma mais compreensiva de abordar o sofrimento mental, a participação das mulheres nessa história volta a ganhar importância. Atualmente, está em cartaz no Museu Sigmund Freud, em Viena, uma exposição dedicada a mostrar a enorme influência que psicanalistas como Helene Deustsch, Anna Freud e Lou Andreas-Salomé tiveram sobre a obra freudiana.

Intitulada So this is the strong sex (Então este é o sexo forte) — uma frase usada certa vez por Emma Eckstein, uma das primeiras pacientes de Freud e também psicanalista, para ironizar a ideia da superioridade masculina —, a mostra fica em cartaz até 12 de junho. “É maravilhoso notar que o trabalho dessas mulheres pioneiras vem sendo resgatado mundialmente”, comemora Marcus Vinícius Silva.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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