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Crise econômica: o que não fazer

Por Tiago Cavalcanti (*) 

Tiago Cavalcanti é Professor de economia da Universidade de Cambride e FGV-SP. Foto: Paulo Paiva/DP
Tiago Cavalcanti é Professor de economia da Universidade de Cambride e FGV-SP. Foto: Paulo Paiva/DP

Vários economistas tentaram estimar o tamanho do “multiplicador keynesiano”. A evidência empírica mostra que para situações onde a taxa de juros é muito baixa o multiplicador é maior que 1 e assim faz sentido usar a política keynesiana para enfrentar situações de crise. Contudo, em um ambiente na qual a taxa de juros é elevada esse multiplicador não só é menor que 1, como pode até ser negativo.

Em 1936, John Maynard Keynes publicou sua obra prima: Teoria Geral do Emprego, Juro e Moeda. Escrito durante o período da Grande Depressão de 1929, com taxas de desemprego na ordem de 25%, deflação e taxa de juros próxima à zero, Keynes argumentava que os governos deveriam aumentar seus os gastos com objetivo de aumentar a demanda efetiva,  sustentando a renda e o emprego. No cerne deste argumento está a ideia do multiplicador dos gastos governamentais. Quando o governo aumenta os gastos, ele contrata empresas para prover serviços ou construir obras públicas. As empresas então contratam trabalhadores, que recebem salários e com isso demandam outros bens e serviços e assim os gastos são multiplicados.

Peça fundamental ao argumento de Keynes é que em um período de crise profunda o multiplicador dos gastos é maior que 1. O que implica que para cada real de aumento dos gastos do governo a renda da economia aumenta em mais que um. Neste caso, a razão dívida pública sobre o PIB tende a cair, já que se o governo precisa tomar emprestado a juros próximo de zero para financiar os gastos, e o aumento da renda vai ser maior do que a dívida extra gerada. Essa é uma situação em o governo não só consegue manter a renda e o emprego, como também a dívida como proporção da renda cai, o que melhora a capacidade dos países de honrarem seus compromissos fiscais.

Ao longo dos anos vários economistas tentaram estimar o tamanho do “multiplicador keynesiano”. A evidência empírica mostra que para situações onde a taxa de juros é muito baixa, caso Europeu e Americano, o multiplicador é maior que 1 e assim faz sentido usar a política keynesiana para enfrentar situações de crise. Contudo, em um ambiente na qual a taxa de juros é elevada esse multiplicador não só é menor que 1, como em alguns casos pode até ser negativo. Na situação atual do Brasil é difícil argumentar que a saída para a crise econômica passa por uma expansão dos gastos governamentais. Com inflação elevada, taxa de juros nominal acima de 14% ao ano, déficit nominal de 10% e incerteza no ambiente econômico é preciso que o retorno dos gastos do governo seja elevadíssimo para o multiplicador ser maior que 1. O que não parece ser o caso, dado a ineficiência do nosso setor público.

Homem culto, Keynes foi professor de economia em Cambridge, consultor econômico, um dos idealizadores do FMI e do Banco Mundial e membro do grupo Bloomsbury de intelectuais com visões bem libertária da sociedade. Bertrand Russell, filósofo inglês, afirmou que Keynes foi a pessoa mais inteligente que ele conheceu.  Alguns economistas argumentam que Keynes morreu muito cedo aos 62 anos em 1946 já que vários economistas sugerem sua teria como remédio para qualquer crise econômica sem pensar nas suas especificidades, como era o caso da Grande Depressão. Me assusta quando economistas no Brasil sugerem a expansão dos gastos para saída da crise atual.

(*) Professor de economia da Universidade de Cambride e FGV-SP

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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