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Dia das mães: unidas pelo amor e pela coragem

Viver a maternidade, para Iris, tem sido uma experiência de redenção com a criança e consigo mesma. Foto: Rafael Martins/Esp.DP
Viver a maternidade, para Iris, tem sido uma experiência de redenção com a criança e consigo mesma. Foto: Rafael Martins/Esp.DP

Maternidade do planejamento, do destino ou do acaso. Das expectativas e frustrações. Da realidade. O surto de síndrome congênita do zika vírus, cujo sintoma mais divulgado é a microcefalia, mudou a relação das mulheres brasileiras com a gravidez. Sonhos de famílias foram adiados, outros foram convertidos nos mais diversos sentimentos. Ser mãe para 339 mulheres pernambucanas tem sido sinônimo de valentia. Mulheres e meninas lançadas pela vida ao desafio de cuidar de bebês cujas características ainda são alvo de estudo médico. Cujo futuro depende do amadurecimento da sociedade e o presente tem se feito acolhedor pela união.

Ser mãe é a principal – e às vezes única – função das mulheres cujos filhos têm microcefalia e outras manifestações associadas. Elas são majoritariamente jovens, 56% delas têm entre 18 e 29 anos. Um terço teve os filhos após cruzar a faixa dos 30 anos. Em comum, além da condição dos rebentos, têm a pobreza como determinante social. Dentre aquelas inseridas no CADúnico, cadastro nacional que identifica famílias de baixa renda, 99% recebem menos de meio salário mínimo por mês. E mais de seis em cada 10 estão na linha da extrema pobreza.

Crédito: editoria de arte/DP
Crédito: editoria de arte/DP

Sem dinheiro, sem certezas diagnósticas, sem ter muitas vezes apoio do companheiro e pai das criança e até sem políticas públicas integrais para os filhos com necessidades especiais, elas abandonaram a rotina do passado antes do parto. O cotidiano é de médicos, remédios, hospitais, luta. Nesse meio, os sentimentos ficam no fogo cruzado. “Elas correm muito com essas crianças e não têm tempo de cuidar de si e nem dos outros filhos. É frequente trazerem essa angústia”, explica a psiquiatra do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) Kátia Petribú, que abriu ambulatório para atender essas mulheres, mas percebe que a demanda ainda é pequena diante da dificuldade delas em conseguir tempo para agendar consultas para si próprias.

É comum a 83% das mulheres sofrer de alterações de humor após o nascimento de um filho. Uma tristeza leve, um sentimento de incapacidade. Aquelas que enfrentam circunstâncias não esperadas durante a gestação têm maior propensão a desenvolver doenças mentais. Dentre aquelas que têm filhos especiais, 63% chegam a essa situação. O contraditório é porque as crianças geradas nesse contexto são as que mais precisam do apoio materno.

Crédito: editoria de arte/DP
Crédito: editoria de arte/DP

“As expectativas sociais pesam sobre essa mulher. Elas precisam de critérios de realidade, saber quais as reais limitações e o que não é limitante, por isso é importante o acompanhamento de um profissional. Elas também precisam de apoio interpessoal”, explica a diretora da Associação Psiquiátrica da Bahia e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, Sandra Peu.

Esse apoio, em Pernambuco, também vem da união entre essas mulheres. Por meio da União de Mães de Anjo (Uma), grupo que começou no whatsapp e virou associação com o apoio das veteranas nessa batalha das Aliança de Mães e Famílias Raras (Amar). São mais de 290 mulheres que trocam mensagens de carinho, dúvidas sobre a criação dos filhos e buscam direitos.

Iris, conquistada por um sorriso da filha
Os sonhos pulsavam no coração adolescente quando Iris Santos se enamorou do vizinho. Terminar os estudos, viajar, casar e ter filhos. Exatamente nessa ordem. Ela, aos 15 anos, e ele, aos 19, subverteram o caminho pela urgência da paixão juvenil. Com dois meses de relacionamento, Iris estava grávida. A novidade não foi bem aceita por parte da família e confundiu a cabeça da menina. Ainda mais após o nascimento da criança, com síndrome congênita do zika. Rejeitar foi a primeira reação. Viver a maternidade, para Iris, tem sido uma experiência de redenção com a criança e consigo mesma.

As circunstância nunca foram fáceis para Iris e Alicia. A bebê nasceu em um parto de alto risco, em seguida passou 15 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde teve uma parada cardíaca. Um total de dois meses e cinco dias dentro de um hospital. Afundada em questionamentos de o “porquê ela e eu? Iris chegou a perder 10kg em apenas uma semana. “Questionava a tudo e a todos. Pensava que ela nunca ia me chamar de mãe”, explica. No princípio, ser mãe parecia um terreno de solidão.

O horizonte começou a se colorir de um jeito inusitado. A sogra de Iris, Jaqueline Martins, 40, conheceu através do trabalho a mãe de um bebê com a síndrome. Contou a história da neta, pediu para entrar no grupo do whatsapp criado pelas mulheres. Despretenciosamente, buscou informações para a nora e deixava o telefone ao lado, para Iris acompanhar as atualizações. A menina recebeu por duas vezes visitas de outras mulheres em casa e deixou, aos poucos, de se sentir a exceção.

Começou a pegar a filha no colo com mais frequência, acalmar diante do choro e sair com a criança para as praças do bairro. O dia determinante para a relação maternal chegou aos cinco meses do nascimento, na sala de casa. Em uma sessão de selfies, Alicia deu o primeiro sorriso. “Antes disso, quando eu não aceitava, ela nunca sorriu. Era como se sentisse”, lembra Iris. O choque inicial foi substituído pela esperança. De ver a filha crescer, de superar os preconceitos.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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