Eduardo Cunha: vergonha de assumir o número 171 na porta de casa

Deputado afastado trocou número de imóvel para não ser relacionado a estelionato

 

No cartório do 2º Registro de Imóveis do Rio de Janeiro, o número oficial da casa de seis suítes da Rua Sergio Porto, no alto da Gávea, Zona Sul da cidade, é 171. Porém, durante os nove anos que ocupou o imóvel, um inquilino não quis associar o número da residência ao artigo do Código Penal pelo qual são conhecidos os estelionatários. Preferiu dar ao lugar uma numeração fantasia ? 173. À revelia da prefeitura, fixou na porta uma plaquinha que encobria a original. A dona da casa, a advogada aposentada Regina Gonzalez Pinheiro Machado, de 78 anos, disse que o morador, que viveu ali de 1998 a 2006, jamais pediu o seu consentimento para apagar o número 171. Ao mudar-se dali para a Barra "sem nunca ter devolvido as chaves", garante a proprietária, Eduardo Cunha, afastado da presidência da Câmara na quinta-feira, levou também a plaquinha com o número 173. Hoje, de vestígio do antigo inquilino, só restaram as marcas do número falso. Mas, na memória de Cunha, o endereço não deve ser de boas lembranças. Foi ali, na casa com piscina, pomar e garagem para oito carros que o político enfrentou o primeiro de uma coleção de escândalos: a denúncia de favorecimento da obscura construtora Grande Piso na construção de unidades habitacionais populares, quando presidia a Cehab.

? Ele vivia sempre assustado e cercado de seguranças ? recorda-se um antigo vigilante da rua, que se identificou como "Zé".

 

Registro de ocorrência: endereço errado

FOTO: EDITORIA

 

Em Brasília, Cunha foi reeleito três vezes. A trajetória do deputado ganhou ímpeto quando, em fevereiro de 2015, conseguiu derrotar o Palácio do Planalto na disputa pela presidência da Câmara, logo no primeiro turno da eleição. Tornou-se um dos homens mais poderosos ? e perigosos, segundo seus adversários ? da República. E também aparentemente rancoroso. Depois que a relação com a presidente Dilma Rousseff azedou por o Planato ter lançado candidato à presidência da Casa, ele reagiu com pautas-bomba, com potencial de causar verdadeiros rombos nas contas públicas. Depois, como última cartada, acolheu o pedido do impeachment da presidente Dilma ? logo que os deputados do PT no Conselho de Ética decidiram votar a favor da abertura do processo de cassação do seu mandato.

Cunha responde a processo no Conselho de Ética da Câmara por ocultar contas na Suíça. Ele é acusado também de ter recebido R$ 5 milhões de propina da Petrobras. Tornou-se réu de um processo que apura sua participação na Lava-Jato em março deste ano. Mas, antes disso, pouco após o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, abrir inquérito contra 47 parlamentares no âmbito da Lava-Jato, ano passado, compareceu voluntariamente à CPI da Petrobras e negou que tivesse contas no exterior. Debochou das investigações e fez uma espécie de palanque contra o governo e contra Janot. Para adversários, sua forma de confrontar o Executivo e o MP sempre teve como pano de fundo a tentativa de tirar o foco de si mesmo devido ao acúmulo de denúncias de corrupção no âmbito da Lava-Jato.

À medida que o cerco contra ele se apertava, Cunha subia o tom contra seus antagonistas. Renunciar ao cargo foi uma opção que nunca esteve em seu horizonte. Mesmo nos momentos de pressão máxima, quando sua mulher, Cláudia Cruz, e sua filha Danielle Cunha foram denunciadas, o peemedebista não esboçou qualquer sinal de que abriria mão do poder conquistado.

Sua personalidade "inquebrantável" é vista com assombro pelos colegas. Nem nos momentos mais críticos, Cunha admitiu ter cometido qualquer um dos atos denunciados pelo MP, nem mesmo quando sua própria assinatura comprovou a existência de contas secretas no exterior. 

? Eu não conheci na política, nem fora dela, uma figura mais perniciosa do que Cunha. Ao tempo que é perigoso, ele não é uma pessoa normal, está acima da média de inteligência, tem conhecimento e é desinibido, capaz de tudo. As ações dele sempre são voltadas para coisas irregulares, para a imoralidade. Por ele ser uma pessoa bem acima da média na Câmara, seu desembaraço e impetuosidade contribuíram para o processo de impeachment ? afirma o deputado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE).

Controverso, Cunha conseguiu manter aliados até o último dia na Câmara. Sua sagacidade política, o domínio dos temas que são analisados na Casa e o hábito de honrar compromissos firmados com os deputados são fatores destacados por aqueles que relevaram a pilha de evidências contra o peemedebista para permanecerem ao seu lado:

? Eduardo é um político extremamente inteligente, não só pessoas que gostam dele acham isso, mas os adversários mais ferrenhos reconhecem nele um regimentalista, um homem que domina matérias como poucos e que cumpre compromissos no exercício do mandato. O que acerta com partidos, os espaços, ele cumpre. Essas são as qualidades, e por isso ele ainda tem força ? afirma o deputado Maurício Quintella (PR-AL).

 

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