Últimas

Em tempos de guerra, Damasco preserva tênue ar de normalidade

  • Declan Walsh/The New York Times

    Adnan Gimaah, dono de uma loja de doces, com uma cliente, em Damasco, na Síria

    Adnan Gimaah, dono de uma loja de doces, com uma cliente, em Damasco, na Síria

Adnan Gimaah talvez fosse o mais amargo fornecedor de doces no velho bazar de Damasco.

Se um cliente questionasse a qualidade de seus produtos, ele bufava com impaciência. Se discutisse demais, ele o convidava a sair. Sua ideia de conversa era resmungar sobre a conta de telefone que sua mulher aumentava com as ligações noturnas ao filho saudoso, refugiado na Alemanha.

“Está me custando uma fortuna.”

Mas era impossível não ver o humor que havia por baixo de suas maneiras bruscas, e os clientes pareciam gostar disso. Combinava com o humor da cidade: uma capital cansada, com um ar cada vez mais irrespirável, apanhada em um período de guerra interminável.

Damasco está protegida da violência e do turbilhão que dominam a Síria, mas cheia de pessoas que os sofreram –os deslocados, os desprovidos, os que tentam fugir–, e assim tudo, incluindo os doces, é envolvido por uma camada de ceticismo.

“O que você quer dizer, o que tem nisso?”, Gimaah atirou a uma mulher idosa que se sentou em um sofá ao fundo da loja e mastigava uma “mlabbas”, uma amêndoa revestida de açúcar. “Você não a está comendo?”

O nome da mulher era Najieh Dahir, e ela vinha de Deir Ezzor, uma cidade sitiada no extremo leste do país. Ao fugir para Damasco, foi obrigada a deixar sua filha, que estava presa em um bairro controlado pelo Estado Islâmico, vivendo com medo.

“Um passo errado e eles cortam sua mão”, disse a mãe, como algo corriqueiro. “Ou podem levá-la como escrava.”

Ela também havia deixado para trás seu marido, mas estava menos incomodada com isso. “Ele não serve mais para mim”, disse ela com impaciência. “Não mandou nenhum dinheiro. Espero que caia uma bomba nele.”

Gimaah, que pareceu apreciar o humor negro, permitiu-se um pequeno sorriso. Dahir pediu 2 kg de mlabbas e foi depressa para casa.

Uma foto do presidente sírio, Bashar al Assad, estava pendurada sobre uma passagem próxima. Assad é uma presença constante no Estado combalido que ele governa, vigiando dos retratos salas de imigração, as ruas lotadas e as bases do Exército desoladas. Ele aparece com visuais diferentes: o estadista de terno elegante, o comandante militar ao vento, de uniforme e óculos escuros, ou o líder destemido posando com um urso.

Mas, conforme a guerra se arrasta para o sexto ano, Assad se uniu nas fotos aos líderes estrangeiros que tiveram um papel crucial para mantê-lo no poder: Hassan Nasrallah, do Hizbollah, a milícia xiita libanesa; e o presidente Vladimir Putin, da Rússia, cujos aviões de guerra fizeram ataques devastadores contra áreas controladas pela oposição. Estes incluíram, como muitos acreditam, o bombardeio na semana passada de um hospital em Alepo que matou pelo menos 55 civis.

Assad governa de um palácio sobre um monte que domina Damasco –cidade que, apesar das constantes lutas em alguns subúrbios detidos por rebeldes, conseguiu preservar um tênue ar de normalidade em suas áreas centrais.

Casamentos elegantes passam pelas ruas nos fins de semana; os ricos se reúnem para refeições e para fumar narguilé em um complexo chique de restaurantes e bares ao lado do hotel Four Seasons.

A ópera oferece ocasionalmente produções musicais, e estúdios de TV estão filmando séries dramáticas, que gozam de grande audiência no mundo árabe. Há poucos sinais dos russos que tiveram um papel militar tão decisivo nos últimos seis meses.

Mas na maior parte a Síria, que já foi um país de renda média, só tem uma pequena minoria que ainda pode pagar pela vida boa. A crise fez muitos jovens fugirem para o exterior, em busca de trabalho ou para evitar o recrutamento militar. Mais da metade da população anterior à guerra foi deslocada.

Declan Walsh/The New York Times

Alguns dos que ficaram venderam seu ouro –um último recurso tradicional– para cobrir as despesas diárias. “Tudo está mudando. Podemos sentir isso”, disse Waddah Abd Rabbo, editor-chefe do jornal privado “Al Watan”. “As pessoas estão cansadas. E o Estado está tão pressionado que é quase um milagre que ainda funcione.”

Em toda a cidade, cartazes desgastados da última eleição parlamentar cobrem as paredes. Poucas pessoas, porém, se sentem à vontade para falar abertamente sobre política, sobretudo com estrangeiros, que são acompanhados por uma autoridade do Ministério da Informação.

Há pouco entusiasmo pelas hesitantes negociações de paz em Genebra, que para muitos sírios parecem no máximo uma abstração, ou um cínico exercício de manobra. Mas a frustração com as dificuldades causadas pela guerra nunca está longe da superfície, e fatos improváveis podem ser absorvidos pela política paranoica da guerra.

Depois que um incêndio varreu uma parte da cidade velha na semana passada, queimando mais de cem lojas e empresas, logo circularam rumores na internet de que o Irã, outro aliado próximo de Assad, fora de certa forma responsável. A explicação oficial foi mais prosaica: defeito na fiação elétrica. Os afetados pelo fogo receberam isso como mais um golpe.

No dia seguinte, Anas Kanoos abriu caminho entre os restos fumegantes de sua loja de brinquedos, tentando resgatar o que fosse possível. Parecia inútil: as paredes ainda emitiam calor; em um canto do prédio, um bombeiro molhava com uma mangueira a última pilha fumegante.

Kanoos estava arrasado: o comércio, que consistia em duas lojas, estava em sua família desde seu avô. Eles já tinham perdido uma loja, no subúrbio de Damasco, com as lutas durante a guerra.

Ele chutou uma pilha de chinelos para crianças derretidos. Depois pegou o telefone e começou a fazer ligações. Era hora de planejar a reconstrução. “O que mais podemos fazer?”, disse ele.

Alguns sírios, tentando enxergar além da angústia de seu país, estão preferindo considerar os eventos no sentido mais amplo da história. A Grande Mesquita de Damasco, um lugar magnífico reverenciado como um dos mais sagrados do islã, antes atraía uma torrente de peregrinos.

Hoje o tráfego secou, mas a mesquita em si continua intocada –diferentemente da Mesquita Umayyad em Aleppo, que foi destruída no combates.

Em uma tarde recente, bandos de andorinhas ruidosas subiam e desciam em sincronia sobre o antigo adro da mesquita. Lá dentro, o zelador, Salim al-Rifai, 85, cuidava de um pequeno santuário que, segundo a lenda, contém a cabeça de são João Batista.

A mudança na Síria nos últimos cinco anos foi “a diferença entre céu e terra”, disse al-Rifai, manipulando suas contas enquanto falava. Mas nem as piores calamidades duram para sempre, acrescentou. “Isto também passará.”

Primeiro, porém, seus conterrâneos precisam mudar. “Precisamos acreditar em Deus e fazer o que ele nos pede”, disse. “E precisamos ajudar uns aos outros a ser humanos de novo.”

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Fonte: Bol.com.br

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *