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Estupro: o único culpado é o estuprador

Segundo registros do Sisan 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima. Foto: Roberto Ramos/DP (Arquivo)
Segundo registros do Sisan 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima. Foto: Roberto Ramos/DP (Arquivo)

Se tivesse ficado em casa não tinha acontecido isso. Com essa roupa indecente? Tava pedindo. Andou na rua escura porque quis. Onde já se viu mulher direita pegar táxi sozinha de madrugada? Confiou no amigo porque é burra. Provocou, instigou, mereceu. Para cada episódio de estupro publicado pela imprensa, centenas de comentários e dedos em riste vão tentar culpabilizar a vítima e minimizar a responsabilidade do agressor. É do senso comum jogar sobre as mulheres e meninas – que correspondem a 89% das vítimas de estupros no Brasil – o peso da culpa, a responsabilidade pela violência sofrida.

Entenda o que é cultura do estupro.

Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2014, revelou que 26% dos entrevistados concordavam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. À mesma pesquisa, 58,5% disseram concordar que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Na contramão desse pensamento – parte fundamental da chamada cultura do estupro – estatísticas mostram justamente o contrário. Segundo registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sisan), 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima. Crianças e adolescentes são os principais alvos e somam 70% dos casos. Entre as crianças, 24,1% dos agressores são os próprios pais ou padrastos. A maioria dos abusos acontece em casa, no trabalho ou a caminho, nos colégios, nas igrejas.

Professora e integrante do Fórum de Mulheres de Pernambuco, Silvia Dantas resume a situação explicando que, dentro da cultura do estupro, “a vítima é suspeita”. Ela explica que é preciso desmistificar a ideia de que as mulheres são, em qualquer instância, responsáveis pelos estupros porque se expuseram a esse risco de alguma maneira. “Por que as evangélicas são estupradas? Mesmo usando roupas mais longas, por exemplo, elas são. Por que um homem tem o direito de sair à noite sem ser molestado e quando uma mulher sai está querendo ser estuprada?”, questiona. “Um dia desses vi um homem só de sunga em uma praça. Sem bermuda, sandália ou toalha, só a sunga. Ninguém mexeu com ele, ninguém disse nada. Mas se fosse uma mulher de biquíni seria totalmente diferente disso.”

Integrante do comitê da Marcha das Mulheres Negras, Piedade Marques defende que os assédios mais comuns no cotidiano das mulheres ajudam a reforçar a cultura do estupro, como o simples direito de não ser alvo de comentários ao passar uma rua. “A ideia de que essas coisas comuns, como uma cantada, não são assédio, é frescura, termina colocando a vítima no lugar do sujeito. Há uma troca de valores, de lugares”, analisa.

Marques frisa ainda que, ao contrário do que insiste em pregar o senso comum “a vítima do estupro é vítima de quem confia”. “É mais fácil eu estar preparada para qualquer coisa na rua, com alguém que não conheço, do que com meu irmão, que está comigo todo dia.”

"Eles [homens] deveriam refletir a cada momento em que aspecto pode estar sendo opressor%u201D, diz Silvia Dantas. Foto: Tatiana Nascimento/DP (Arquivo)
“Eles [homens] deveriam refletir a cada momento em que aspecto pode estar sendo opressor%u201D, diz Silvia Dantas. Foto: Tatiana Nascimento/DP (Arquivo)

Para Silvia Dantas, um exemplo atual de como a cultura do estupro é relativizada é o encontro do ministro interido da Educação, Mendonça Filho, com o ator Alexandre Frota nesta semana. “O estupro coletivo do Rio de Janeiro veio à tona no mesmo dia que o ministro da Educação tem uma agenda com um cara que disse na TV que estuprou uma mãe de santo. É um contrassenso, é revoltante.”

“Todo homem é um estuprador em potencial”

A afirmação tem causado incômodo nos homens e gerado polêmica nas redes sociais. As reclamações diante da generalização partem tanto de homens claramente misóginos quanto daqueles que se portam como sensíveis às questões feministas.

Para ilustrar a afirmativa a partir de outra perspectiva, Piedade Marques usa o exemplo do racismo e afirma “você só tem condições de pensar o que você é quando parar para pensar para além da autodefesa”. “As pessoas se ofendem, mas não param para pensar sobre. É mais fácil ficar indignado do que desconstruir”, opina. “É como dizer que nós todos somos racistas, porque somos educados a isso desde criança. Mesmo quem diz que não é racista acha que uma pessoa negra que passa na rua pode ser assaltante. É uma potência”, completou Silvia Dantas.

Ela explica que os homens são educados para serem agressivos, competir com as mulheres em um cenário desigual e diz que essa desigualdade potencializa a violência. “Isso não significa que todo homem vai ser um estuprador, mas é uma potência por toda estrutura da sociedade. E em vez de se chocar, eles deveriam refletir a cada momento em que aspecto pode estar sendo opressor”, coloca.

“As vezes a agressão não precisa ser física. Muitas mulheres transam sem querer transar, por exemplo, só porque o namorado ou marido quer o sexo e isso é uma agressão, é estupro. Há uma pressão psicológica para que ela transe porque ele, simplesmente, está precisando de sexo. Isso passa por uma suposta ideia de afeto e de que as mulheres têm que servir ao homem, aos prazeres do homem”, ilustra Dantas.

Sexta edição da Marcha das Vadias do Recife  é neste sábado, às 13h, na Praça do Derby. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil (Arquivo)
Sexta edição da Marcha das Vadias do Recife é neste sábado, às 13h, na Praça do Derby. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil (Arquivo)

Marcha das Vadias contra a violência

Neste sábado milhares de mulheres se reúnem na Praça do Derby para a sexta edição da Marcha das Vadias no Recife. A violência entra em pauta e o coletivo que organiza o evento convoca as mulheres para um ato de resistência “em defesa da autonomia dos corpos afeminados e a não culpabilização das mulheres cis e trans nos casos de violência.”

“Estas lutas seguem sendo o que nos mobiliza e nos motiva a ocupar as ruas, bem como, a reivindicação dos nossos direitos já conquistados e os que ainda nos faltam conquistar a todas as mulheres, negras, brancas e indígenas, travestis, trans e transgêneros, lésbicas, bissexuais e heterossexuais”, diz o convite do evento no Facebook.

A Marcha das Vadias do Recife começa a se concentrar às 13h, no coreto da Praça do Derby.


Fonte: Diário de Pernambuco

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