Livros enxergam o que há de animal em clássicos da literatura

Arte: Silvino/DP
Arte: Silvino/DP

Se tensionado um fio condutor entre as obras de Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Carlos Drummond de Andrade e Franz Kafka, as fronteiras entre humano e não-humano vibrarão em todas elas. Foi o que constatou a escritora e pesquisadora mineira Maria Esther Maciel, responsável por desvendar a questão animal em obras dos séculos 20 e 21 no recém-lançado Literatura e animalidade (Civilização Brasileira, R$ 34,90).

“Foi pela negação da animalidade que se forjou uma definição de humano ao longo dos séculos no mundo ocidental, não obstante a espécie humana seja, somo se sabe, fundamentalmente animal”, declara a autora.
Para chegar à essência da relação com a barata de A paixão segundo G.H. (1964), de Lispector, e aos bois do conto Conversa de bois (1946), de Guimarães Rosa, por exemplo, a pesquisadora toma A metamorfose (1915), clássico de Franz Kafka, como ponto de partida para nova abordagem da animalidade, concebida no início do século 20.

Daquela fase em diante, segundo Maria Esther, o vínculo entre humano e não-humano foi estreitado na literatura. “O personagem se transforma em inseto, mas não deixa de se manter humano. E é essa situação absurda que torna tudo um grande pesadelo. Mas é também ela que revela a dimensão animal do humano”, explica a pesquisadora. “É esse paradoxo que atravessa muitas obras literárias posteriores a Kafka”, completa. Antes disso, os bestiários (textos descritivos sobre animais, populares na Idade Média), misturavam espécieis reais e fantásticas, atrelando sua existência à ferocidade, luxúria, ao perigo.

Nas produções brasileiras, a pesquisa revela ser mais comum o tratamento dos bichos como seres dotados de inteligência e sensibilidade, entre selvagens e domésticos. Os contos O búfalo (Clarice Lispector), Ideias de canário (Machado de Assis), Conto Alexandrino (Machado de Assis), Da utilidade dos animais (Carlos Drummond de Andrade) exemplificam a abordagem nacional. Num panorama global, se alguns autores cercam de motivação afetiva as figuras animais, outros usam a literatura como bandeira de preservação ecológica, tendência recente no campo literário. “Cada vez mais autores estão escrevendo sobre o impacto da proliferação de fazendas industriais, de grandes catástrofes ambientais, da extinção de espécies raras. E, ainda, sobre os matadouros e o veganismo ativista”, conta Maria.

Entre as revelações do estudo, desponta o engajamento da poesia contemporânea em torno da animalidade: o poeta mexicano Arreola, o carioca Eucanaã Ferraz e a amazonense Astrid Cabral, autora de Jaula, são expoentes do gênero. Pioneiro, Eucanaã assina série de poemas sobre um boi em matadouro – “poesia de altíssimo nível ético”, classifica Esther, que descobriu, ainda, o primeiro romance vegano do país, assinado pela paulista Regina Rheda. “Essa estranheza com os animais, que nos fascinam, nos assombram, desafiam a razão, é o que desperta o lado animal em nós”.

Entrevista >> Maria Esther Maciel, pesquisadora

 (Ricardo Maciel/Divulgação)

Como despertou o interesse por essa linha de pesquisa?
Sempre tive uma relação muito afetiva com os animais. A oportunidade surgiu em 2008, quando eu estava desenvolvendo uma outra pesquisa sobre enciclopédias do mundo antigo e me deparei com alguns livros sobre história dos animais, que remetiam aos bestiários da Idade Média. Desenvolvi, em certo momento, estudo sobre as zoocoleções. Como esses autores reinventaram os bestiários antigos, já dando novo significado aos animais. Me debrucei sobre fábulas, fantasias, romances e poemas atuais.

O filósofo contemporâneo Dominique Lecourt participa do livro. Como se deu a parceria?
Eu conheci o Dominique num congresso na Austrália sobre o campo dos animais. Mantivemos contato, uma interlocução sobre esse tema. Ele chegou a co-orientar um aluno meu, da França, e participou de eventos no Brasil organizados por mim. Depois, fiz um estágio com ele nessa área, passei temporada na França, estudando. Foi quando fiz a entrevista, em 2013.

+ exemplos

A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector (Rocco, R$ 31)
Mulher identificada como G.H. demite a empregada doméstica e, ao limpar o quarto, esmaga barata e prova o seu interior branco. O contato com o inseto lhe desperta espanto.

História dos animais, de Aristóteles (Imprensa Nacional, R$ 116,70)
Tratado zoológico, sujeito a métodos empíricos de análise sobre os animais e elementos da natureza. Explora as partes dos corpos animais, funções e analisa a “causa formal”.

Fábulas de Esopo, de Rusell Ash (Companhia das Letrinhas, R$ 47,90)
Sobre animais personificados, com lições morais – em geral, de fácil compreensão entre crianças. São conhecidas: A raposa e as uvas, A cigarra e a formiga e O lobo e o cordeiro.

O livro dos lobos, de Rubens Figueiredo (Companhia das Letras, R$ 37,90)
Os contos, sem local ou tempo, têm atmosfera fantástica de enigmas íntimos. Destaca-se a história do garoto órfão que se aproxima de um casal de lobos e assimila seus costumes.

A hora entre o cão e o lobo (Dog boy), de Eva Hornung (Argumento, R$ 47,90)
Um menino, abandonado à própria sorte no inverno russo cresce amparado por matilha de cães e vira selvagem. Aborda adaptação humana, instintos animais, marginalidade social.

Os livros da selva: Contos de Mowgli e outras histórias (Zahar, R$ 51,90)
Sete contos do britânico Rudyard Kipling retratam animais como protagonistas, como o menino-lobo Mogli. O pano de fundo é o código de conduta e os valores morais.

Humana festa, de Regina Rheda (Record, R$ 30,65)
O enredo gira em torno do romance entre defensora dos direitos dos animais e o filho de um poderoso fazendeiro. A história defende o veganismo e condena a hegemonia humana sobre os animais.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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