Manter filho no kart custa mais do que mensalidade em faculdade de Medicina

O kart é a maneira mais barata de correr com o corpo a poucos centímetros do asfalto em velocidades acima de 100km/h. Mas não é acessível a qualquer bolso: são necessários R$ 7 mil por mês para competir alugando uma vaga em uma equipe. E estamos falando de um carro para uma criança de 8 anos. Quando nos referimos à categoria graduados, a mais competitiva e que conta com um grid de adolescentes, o preço chega a R$ 20 mil. Por corrida.

É que velocidade exige peças de alta performance, o que leva a baixa durabilidade. E no automobilismo, não adianta: para andar na frente é preciso equipamento de ponta. Ter braço pode até amenizar, mas não elimina a diferença de desempenho do carro. O espanhol Fernando Alonso que o diga.

Por isso que além de pilotagem, a categoria de base do automobilismo ensina que o esporte é caro. Se quiser ter um monoposto próprio, o conjunto chassi e motor de um kart sai por R$ 20 mil. Juntando os equipamentos que o jovem piloto veste (macacão, luva, sapatilha e capacete) se tem mais um gasto em torno de R$ 7 mil. Ou seja, R$ 27 mil gastos para começar, e ainda existe o risco de tudo isso ficar encostado se a criança não tomar gosto por acelerar.

A solução encontrada por muitos pais é alugar uma vaga em uma equipe. Porém, mesmo assim os valores são bem salgados. Eduardo Pascual Berzal, o Dudu Tchê, presta este serviço em São Paulo e cobra R$ 5 mil mensais. O valor inclui instrução, o kart, a taxa para usar a pista, mecânicos e dois treinos semanais. Caso a criança corra no Campeonato Paulista, o mais forte do Brasil, os pais precisam desembolsar mais R$ 2 mil por prova com inscrição, aluguel de motor e pneus. A competição tem 10 etapas.

Ou seja, treinar todos os meses do ano e disputar o campeonato consome R$ 80 mil por ano. Acrescentando macacão, capacete, sapatilhas, luvas e viagens, são cerca de R$ 100 mil. E ressaltando que trata-se da categoria para crianças de 8 a 10 anos. O valor é maior do que os R$ 60,6 mil por 12 mensalidades de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa São Paulo, primeira colocada neste curso entre as instituições privadas, conforme o Ranking Universitário Folha. Também é superior aos R$ 15 mil necessários para bancar um mês de intercâmbio no Canadá a um adolescente de 16 anos.

E conforme o piloto cresce, a conta do kart aumenta, consequência do equilíbrio das disputas. Mineiro de Uberlândia, Carlos Amorim, 47 anos, diz que numa prova de sua categoria, a super sênior, a diferença na classificação entre o segundo colocado e o nono foi menos de um décimo.

Quando o piloto escuta que um eixo novo ou carburador maior melhora o desempenho o investimento se torna crucial. Todos os outros no grid terão o equipamento e deixar a inovação de lado significa ocupar as últimas posições da corrida.

Mas ter um carro de ponta não basta, precisa de muito treino para brigar por vitórias. Carlos conta que o ângulo de fixação do banco muda em alguns centímetros o centro de gravidade do kart. Parece preciosismo, mas é a diferença entre disputar o pódio ou ser retardatário.

Só que descobrir o local ideal do banco exige muitos testes. É por motivos como este que o mineiro treina duas ou três vezes por mês no kartódromo de Interlagos. Esta brincadeira consome R$ 2 mil por mês.

Na conta não estão incluídos os gastos com hotel e passagem aérea porque Carlos é médico e as viagens coincidem com compromissos na USP (Universidade de São Paulo). Também não constam um chassi mantido em São Paulo e outro em Uberlândia e três motores. Somando os preços destes equipamentos, chegamos a R$ 47 mil. E tudo é atualizado anualmente.

Sete vezes campeão brasileiro de kart, André Nicastro não aprova os custos da categoria. A declaração não tem relação com o próprio bolso, porque ele corre por uma fábrica, mas reclama que o número de pilotos no grid vem diminuindo. Acrescenta que os valores inviabilizam a entrada de pessoas com baixa renda e limitam o descobrimento de talentos.

Custos das categoria acima do kart se fazem em milhões

Dudu Tchê declarou que uma temporada na categoria graduados consome R$ 200 mil por ano. Ele ressalta que patrocínio é raro e, quando ocorre, está ligado aos negócios do pai do piloto. Como um empresário possuir uma frota de carretas e pedir R$ 10 mil para o dono do posto em que abastece. Mas os custos são muito maiores do que a verba que entra.

Para se ter uma ideia de valores, semana passada Dudu esteve em Florianópolis para treinar um piloto da graduados. O pai do garoto gastou R$ 4,7 mil por três dias de testes. E o kart é somente a categoria de base do automobilismo, o que vem adiante faz com que o garoto entre na fase em que precisa ser piloto e empresário.

A Confederação Brasileira de Automobilismo também não está contente com os valores, mas justifica que esporte a motor depende do carro. O presidente da Comissão Nacional de Kart, Rubens Gatti, afirma que a entidade fez o possível para diminuir os custos limitando a quantidade de equipamentos usados nas provas. Mas ele pondera que o custo alto faz parte da modalidade.

E se no kart a conta é salgada, dar o passo seguinte significa entrar na Fórmula 3 e abrir ainda mais a carteira. O custo da categoria em que garotos a partir dos 15 anos competem chega ao milhão. José Roberto Junior, engenheiro da Cesario F3, diz que uma vaga na categoria light sai por R$ 600 mil pelas oito etapas e 10 treinos anuais. Correr na categoria A custa R$ 1 milhão. Sair do Brasil é mais salgado ainda, coisa de 800 mil euros (R$ 3,1 milhões) por ano. Haja dinheiro.

Fonte: Bol.com.br

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