Marisa Monte resgata memórias e parcerias em Coleção

Apesar de não virar show, "Coleção" marca os 30 anos de carreira de Marisa Monte. Foto: Leo Aversa / Divulgação
Apesar de não virar show, “Coleção” marca os 30 anos de carreira de Marisa Monte. Foto: Leo Aversa / Divulgação

Aos vinte e poucos anos, Marisa Monte trilhou, sob tutela de Arnaldo Antunes – na época ainda integrante dos Titãs – os primeiros passos da trajetória artística. “Quando comecei, ele me ajudou muito a encontrar minha linguagem”, lembra. Desde então, ao longo dos 30 anos de carreira, a carioca descobriu novos caminhos e, em cada um deles, cultivou novas parcerias. Ao se deparar, por questões contratuais, com o desafio de fazer uma coletânea, decidiu manter distância do padrão. A tradicional compilação de sucessos, tão comum na discografia de artistas consagrados, deu lugar a um resgate de trabalhos realizados entre amigos. 

Confira o roteiro de shows do Divirta-se

Através de canções como Nu com a minha música, Cama, É doce morrer no mar, Carinhoso, Alta noite, A primeira pedra e Esqueça, Marisa Monte resgatou, em Coleção, lembranças e experiências musicais bem-sucedidas. Julieta Venegas, Carminho e Paulinho da Viola dividem, entre as faixas do álbum, espaço com Arnaldo Antunes, Argemiro da Portela e outros tantos nomes que já partilharam projetos paralelos com a carioca. “A música sempre promove intercâmbio. Minha voz serviu de norte para o trabalho geral, uniu as linguagens de cada um”, destaca a cantora. 

Para a capa do disco, Marisa Monte também recorreu a uma parceria. Da amizade iniciada em 2007 com o pintor italiano Francesco Clemente, ela buscou a arte que simboliza o trabalho. Produzido em 2010, o retrato faz parte do que poderia compor uma exposição. Das tardes em que visitou o estúdio do artista, em Nova Iorque, a cantora passou algumas delas sentada em uma cadeira para que o amigo a desenhasse.  

Entrevista// Marisa Monte, cantora

Como surgiu a ideia do disco? 

Esse disco estava previsto para o fim do meu contrato com a Universal Music. Teoricamente, eu não tinha coletâneas, então eu previa isso para o fim do meu contrato com a gravadora. Com a coisa do digital, perdeu o sentido fazer um Best off, até porque todo mundo pode fazer sua própria coletânea. Decidi fazer o trabalho com músicas que marcam meus 30 anos de carreira. Quis fazer uma revisão da minha trajetória. O disco tem desde gravações antigas de 1993, com o Arnaldo Antunes, até outras mais atuais. Busquei um trabalho que tivesse uma atmosfera intensa e que refletisse minha trajetória. 

Pretende lançar um segundo volume do projeto?

Não. Na verdade, a ideia era pegar músicas que não estavam em trabalhos meus anteriores. Quis fazer uma curadoria pessoal. A ideia era empregar um olhar meu no disco. Não teria sentido, hoje em dia, fazer uma compilação de canções conhecidas. Todo mundo pode fazer sua própria coleção de músicas no meio digital.

Entre as parcerias resgatadas no projeto, estão nomes como Julieta Venegas e Carminho. Qual a importância desses intercâmbios culturais para sua carreira?

A música sempre promove intercâmbio. Todas as pessoas com quem trabalho promovem um reflexo da música brasileira. 

Você acredita que hoje há mais espaço para a mulher na música?

Acho que tem espaço para a mulher em todo canto, mas a música ainda é muito masculina. Na minha equipe e banda, mesmo, há vários homens. Ao mesmo tempo, eu vejo uma evolução ao longo dos anos. Até os anos 1980, era muito raro uma mulher compositora. Hoje, é muito comum uma cantora compor as próprias músicas. [embedded content]

Apesar de contar com participações distintas, até na produção das músicas, Coleção é um trabalho homogêneo. Esse resultado foi conquistado naturalmente?

Neste álbum, eu tentei buscar um equilíbrio. Acho que a minha figura causou uma unidade. Minha voz serviu de norte para o trabalho geral, uniu as linguagens de cada um.

Você já realizou trabalhos com músicos da Nação Zumbi, como a turnê Verdade uma ilusão. Como você chegou até eles?

Como fã. Conheci o trabalho deles na época do Chico Science. Sou fã do trabalho da Nação. Eles tiravam a música jovem do eixo Rio de Janeiro e São Paulo, sempre admirei isso. São músicos virtuosos. Com o tempo, nos aproximamos e cheguei a gravar com o Pupillo. A partir daí, fizeram essa turnê comigo. Recentemente, gravei para o novo disco deles. 

Pretente voltar a fazer shows com eles?

Não tem nada programado, mas podemos fazer muitas coisas juntos ainda. 

Uma figura presente em Coleção é Arnaldo Antunes. Como nasceu a parceria de vocês?

Como fã também (risos). Era fã dele, quando ele ainda era da banda dos Titãs. Quando comecei minha carreira, ele me ajudou muito a encontrar minha linguagem. Fazemos muitas coisas juntos, nem posso mais imaginar minha trajetória sem ele. 

Coleção de memórias

Nu com a Minha Música

Composição de Caetano Veloso, a música foi gravada por Marisa Monte em 2010, em Los Angeles, com acompanhamento dos músicos Rodrigo Amarante e Devendra Banhart.

Cama

A música, composta em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, foi apresentada ao cineasta Breno Silveira em 2006. Dois anos depois, a música entrou para a trilha original do filme Era uma vez. 

É Doce Morrer no Mar

A música, um dos clássicos de Jorge Amado e Dorival Caymmi, foi gravada por Marisa Monte e a cantora caboverdiana Cesaria Evora no Rio de Janeiro. Juntas, elas registraram a canção de primeira, sem necessidade de repetições. 

Carinhoso

Marisa Monte foi convidada por um dos ídolos, Paulinho da Viola, para cantar Carinhoso. A gravação fez parte do filme Meu tempo é hoje.

Alta Noite

Gravada em 1992, a música foi uma das primeiras parcerias entre a carioca e Arnaldo Antunes. “Ao comentar com Arnaldo recentemente o meu desejo de incluí-la nessa coleção, ele me sugeriu uma remixagem, que fizemos eu e Daniel Carvalho a partir do resgate das fitas de duas polegadas originais”, lembra.

A Primeira Pedra

A faixa é resultado de um encontro entre Marisa Monte e o multi-instrumentista Gustavo Santaolalla, em Los Angeles.

Dizem que o Amor

Dizem que o amor representa a parceria entre Marisa Monte e o sambista Argemiro. Em 2001, ela produziu o único disco solo do compositor. 

Ilusão

Antes de dividir, pela primeira vez, palco com Julieta Venegas, na Cidade do México, Marisa Monte já havia conversado com a cantora no Rio de Janeiro. Durante o encontro, a mexicana fez o convite do qual nasceu Ilusão (Ilusión).

Esqueça

Regravação de um dos sucessos de Roberto Carlos, a canção fez parte da trilha do filme A taça do mundo é nossa, de 2003.

Chuva no Mar

A música nasceu da amizade entre Marisa Monte e a portuguesa Carminho. As duas se conheceram em 2013, no Rio de Janeiro, e, mais tarde, gravaram Chuva no mar.

Fumando Espero

Mais uma parceria com Gustavo Santaolalla. “Fumando Espero foi composta em 1922 e essa gravação estava guardada no fundo do baú. Mereceu sair de lá não por associar o ato de fumar ao prazer e ao glamour, mas pela liberdade de mostrar uma crônica de costumes e o retrato de um tempo”, comenta Marisa Monte.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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