Nação Zumbi celebra 20 anos de Afrociberdelia em show no Clube Português

Banda se prepara para entrar em estúdio ainda este ano para gravar novo álbum. Crédito: Tom Cabral
Banda se prepara para entrar em estúdio ainda este ano para gravar novo álbum. Crédito: Tom Cabral

Se a estreia da Nação Zumbi em Da lama ao caos (1994) introduziu para o público o manguebeat, Afrociberdelia (1996), o segundo álbum da banda, foi um dos responsáveis pela consolidação do movimento e do próprio grupo, à época capitaneado por Chico Science (1966-1997). Mais do que isso, ganhou status de clássico, entrando em listas de melhores discos da música brasileira e sendo celebrado na nova turnê da Nação Zumbi, que se apresenta hoje no Clube Português, a partir das 22h, em noite que terá ainda discotecagem do DJ Da Mata e show de abertura de Siba, apresentando o mais recente trabalho, De baile solto (2015).

O local do show é simbólico, já que o Clube Português foi o palco da última apresentação de Chico Science & Nação Zumbi no Recife, em setembro de 1996, justamente na turnê de divulgação de Afrociberdelia. O vocalista morreu poucos meses depois, no dia 2 de fevereiro de 1997, após colidir o carro contra um poste, no Complexo de Salgadinho. O baixista da banda, Alexandre Dengue, lembra que, naquele dia, passou junto ao acidente, mas nem fazia ideia que o amigo estava lá.

Apesar da inevitável saudade deixada pelo músico, Dengue diz que o momento é de celebração. O show comemora também outra marca: os 50 anos de nascimento de Science, completados no dia 13 de março. Inicialmente, a ideia do grupo era fazer uma apresentação durante o aniversário do Recife (12 de março): “A gente queria casar esse show com o aniversário de Chico, mas acabamos não sincronizando com a prefeitura”, diz. “Acabamos conseguindo um espaço em Salvador, foi o primeiro, a gente deu uma experimentada, o show foi liso, perfeito”, afirma. Após passar também pelo Rio de Janeiro e por Porto Alegre, a banda se diz bem preparada. A apresentação no Recife, garantem, será “certeira”.

Marcado por hits como Macô, Manguetown e Maracatu atômico – música de Jorge Mautner e Nelson Jacobina que ganhou três remixes criticadíssimos pela banda – , o álbum tem algumas faixas menos conhecidas, algumas delas pouco ou nunca apresentadas ao vivo, como Sangue de bairro e O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no céu. “Mas descobrimos que não existe isso de lado B, são músicas de 20 anos que todo mundo conhece e canta junto”, afirma . Além de tocar todas as faixas na ordem original do disco, em cerca de uma hora e meia de apresentação, o grupo promete algumas de outros períodos da trajetória da banda, criada em 1991. “Se o público pedir bis, certamente vamos dar uma pincelada em outras fases da nossa carreira”, avisa Dengue.

ENTREVISTA – Dengue

Como foi retornar, 20 anos depois, ao Afrociberdelia e apresentar músicas que não haviam sido tocadas ao vivo antes?

Deu receio, porque fazia muito tempo que a gente não tocava a maioria das músicas e outras que só tinham versões de estúdio, como O encontro de Isaac Asimov… e Criança de domingo, que talvez tenha sido tocada uma vez antes. Existe uma certa adrenalina, uma sensação gostosa, de expectativa. É um disco excessivamente bom e atual, mas difícil de pegar e cheio de arranjos. A gente era bom e não sabia (risos).

A recepção do público nas primeiras apresentações dessa turnê foi boa?
Foi bem simbólico, vimos que era algo que a gente tinha mesmo que fazer, era impossível outra data dar tão certo. A gente não tinha essa noção, mas no show deu pra ter uma ideia da amplitude do Afrociberdelia, da penetração que o disco teve na vida das pessoas. Foi pura celebração, as pessoas se emocionaram.

Da lama ao caos não trouxe os resultados esperados, ao menos nas vendas que a gravadora esperava. Vocês sentiram alguma pressão na hora de gravar o Afrociberdelia ou buscaram soar diferentes nesse álbum?
Não. Na verdade, até hoje a gente nunca entendeu bem o que leva uma música a ser um hit, nem nunca nos preocupamos muito com isso. Para nós, a questão era fazer música boa. Mas os caras (da gravadora) cobravam isso de ter hit. Tanto que, por pressão, tivemos que voltar para o estúdio para gravar Maracatu atômico (de Jorge Mautner e Nelson Jacobina). Gravamos numa única tarde e foi incrível que a música tenha acabado virando a mais famosa. Tem gente que nem sabe que não é nossa.

E quando a Nação volta aos estúdios? O que podemos esperar do próximo trabalho?
Vamos tentar, em maio, gravar uma demo e, pelos nossos planos, devemos entrar em estúdio em junho ou julho, para lançar no próximo ano. Certamente vem diferente, queremos correr para outro lado, mas não compomos, estamos conversando e direcionando. Provavelmente, vai ser mais calcado em ritmos e cadências rítmicas, não tão harmônico e melódico quanto os últimos, mas com coisas mais econômicas. E vai ser pesadão.

SIBA
Cria do manguebeat, Siba também foi um dos expoentes do movimento na década de 1990, na banda Mestre Ambrósio, que apostava sobretudo na mistura do regional com o rock e outros ritmos. A paixão pelos elementos rurais levou Siba a criar, em 2002, o grupo Fuloresta, formado por músicos tradicionais de Nazaré da Mata, na Zona da Mata Norte pernambucana. O flerte com a musicalidade do interior de Pernambuco dá também a tônica de De baile solto, o segundo de sua carreira solo, lançado em 2015. Enquanto o elogiado Avante (2012) trazia um tom mais introspectivo e pessoal nas letras, o novo trabalho vem com um viés mais social e político, além de retornar às misturas com o maracatu de baque solto e da ciranda, combinados com a guitarra. O álbum está disponível gratuitamente na íntegra para download no site do músico.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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