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Nos EUA, polícia muda abordagem a doentes mentais

O telefonema ao serviço de emergência mencionava um homem com uma espada de samurai, atacando pessoas na beira da água.

Era noite e, quando a polícia chegou, eles viram o homem caminhando na margem e o chamaram. A pessoa respondeu jogando uma pedra na direção onde estavam os policiais.

Eles gritaram para ele do barco do xerife; ele jogou outra pedra. Mandaram que largasse a espada; ele respondeu que os mataria. O homem começou a ir embora da praia e, após alertá-lo, atiraram em sua perna com uma arma não letal. O aspirante a samurai se voltou, ainda segurando a espada de 1,2 m.

Em outra cidade –ou na própria Portland há pouco tempo atrás– a próxima medida muito provavelmente seria um confronto direto e, caso o homem não tivesse baixado a arma, o emprego de força letal.

A polícia de Portland, no entanto, estimulada em parte pelas descobertas de uma investigação do Departamento de Justiça, de 2012, passou anos adotando um programa de treinamento intensivo e protocolos para os policiais saberem como lidar com doentes mentais.

Em um momento em que o comportamento policial sofre intenso exame –uma série de tiros fatais dados por policiais chamaram a atenção de todos os EUA para questões de raça e doença mental–, a abordagem de Portland serviu como modelo para outras autoridades policiais do país.

E naquele domingo do ano passado, a polícia daqui preferiu outro caminho.

Às 2h30, depois de passar horas tentando atrair o homem, os policiais decidiram ir embora, deixando o sujeito na praia. A busca durante o dia não encontrou sinais dele.

Os doentes mentais estão representados em excesso entre os civis envolvidos em tiroteios com policiais: 25% das pessoas mortas pela polícia tinham algum distúrbio mental, segundo várias análises.

Por exemplo, em Chicago, a polícia matou um homem de 19 anos doente mental, Quintonio LeGrier, em dezembro, depois que, segundo o relato dos policiais envolvidos, ele foi para cima deles com um taco de beisebol. Em Denver, Paul Castaway, 35, com histórico de doença mental, foi baleado e morto pela polícia no ano passado depois que chegou “perigosamente perto” dos policiais, segurando uma faca contra o próprio pescoço. Situações semelhantes aconteceram em Albuquerque, Novo México, Dallas e Indianópolis, entre outras cidades.

Em resposta ao clamor público, muitos departamentos de polícia, como o do Portland, recorreram a mais treinamento para seus policiais, em muitos casos adotando alguma versão de um modelo estreado em Memphis, Tennessee, quase três décadas atrás e conhecido como treinamento de equipe de intervenção em crise (TEIC).

Estudos constataram que o treinamento pode modificar a maneira pela qual os policiais encaram os doentes mentais. E a abordagem, que ensina aos policiais como acalmar encontros potencialmente violentos antes que o uso da força se torne necessário, é útil para policiais diante de qualquer situação volátil, mesmo que uma crise com um doente mental não esteja envolvida, avaliam especialistas em manutenção da ordem pública.

Amanda Lucier/The New York Times

Ainda não se definiu, entretanto, se o treinamento leva a um menor uso da força por parte da polícia. O resultado dos estudos é ambíguo, embora uma investigação, a ser publicada até o final do ano, sugere que o programa de Portland, que é baseado no TEIC, tem algum efeito. E, segundo especialistas, só o treinamento não basta. Para a abordagem ser eficaz, ela precisa contar com o apoio total da chefia policial, análises contínuas de sua eficácia e colaboração com a comunidade de doentes mentais.

“O treinamento é ótimo, mas não é mágico. O que transforma a maneira pela qual o sistema funciona é quando todos se unem”, disse Laura Usher, coordenadora de treinamento de equipe de intervenção em crise da Aliança Nacional para Doença Mental.

Debate sinaliza mudança cultural

A decisão da polícia de Portland de deixar o espadachim na praia foi controversa dentro da força policial. Policiais defenderam que algo mais deveria ter sido feito. E se o homem tivesse ferido ou matado alguém?

Outros responderam que era tarde e que a área isolada estava deserta. O homem não cometera um crime. E um confronto poderia facilmente ter terminado com ele ou os policiais feridos.

A discussão em si, no entender de alguns policiais, era um sinal de mudança.

“Há dez anos, nós teríamos sido mais proativos para lidar com ele no começo. É uma nova maneira de encarar os fatos”, disse o policial Brad Yakots, especialista em questões de saúde mental que foi chamado ao local.

Como em outras cidades, a mudança em Portland começou com um encontro fatal. Em 17 de setembro de 2006, James Chasse Jr., 42 anos, cantor de uma banda local que tinha esquizofrenia, morreu após confronto com a polícia.

A morte de Chasse indignou o público. Em resposta, a polícia revisou as diretrizes e exigiu que todos os policiais fizessem um curso de 40 horas para intervir em crises.

Todavia, após mais episódios problemáticos envolvendo doentes mentais, uma investigação do Departamento de Justiça, de 2012, concluiu que a polícia demonstrara “um padrão ou prática de força desnecessária ou excessiva durante intervenções com pessoas que têm uma doença mental ou que assim são vistas”.

Amanda Lucier/The New York Times

Desta vez, a chefia da polícia reagiu com maior agressividade. Além do treinamento obrigatório para a força inteira, um grupo de quase cem patrulheiros se matriculou em mais 40 horas extras de instrução para lidar com casos mais complexos envolvendo doença mental ou vício em drogas ou álcool.

Equipes de policiais formaram duplas com clínicos especializados em doença mental para acompanhar os casos. Novos protocolos foram adotados. E a polícia fechou acordos com organizações habitacionais e de saúde mental para ter mais ajuda.

“É realmente uma mudança cultural”, disse a tenente Tashia Hager, chefe da unidade que coordena a equipe de saúde mental da polícia.

Ela observou que em casos como o homem da espada “existe um resultado negativo potencial independentemente da decisão que nós tomemos”.

De acordo com Hager, no passado os policiais aprendiam que, “se você fizer algo, eu farei algo”. Agora, eles são incentivados a questionar se é realmente necessário fazer esse “algo”.

“Um sistema de saúde mental fraturado”

Os policiais precisam receber treinamento sobre doenças mentais, avaliam muitos especialistas em Justiça criminal, porque os cortes no financiamento dos serviços de saúde mental os colocaram na linha de frente com muitas pessoas com distúrbios psiquiátricos.

Cadeias do país inteiro estão cheias de detentos com doenças mentais que, incapazes de obter tratamento na comunidade, são presos repetidas vezes por contravenções como causar desordem ou pequenos roubos. Os policiais têm sido forçados a desempenhar um papel duplo na manutenção da lei e como assistentes sociais psiquiátricos.

“Nós estamos trabalhando no pano de fundo de um sistema de saúde mental fraturado que a cada dia fica pior”, disse o delegado de polícia de Portland, Lawrence O’Dea III.

Porém muitos policiais entendem pouco sobre distúrbios mentais e o que sabem muitas vezes é matizado pelo estigma. Comportamento bizarro costuma ser interpretado como prelúdio à violência. E ações policiais de rotina destinadas ao controle como, por exemplo, colocar a mão no ombro da pessoa, pode ter resultado negativo no caso de alguém com doença mental severa.

“Em vez acalmar, isso pode levá-los a se afastar ou a resistir”, disse Matthew Epperson, professor assistente de Serviço Social da Universidade de Chicago. Os policiais, por sua vez, podem interpretar equivocadamente tais reações como resistência ou tentativa de fuga, ele acrescentou.

No treinamento de crise, os policiais aprendem sobre remédios psiquiátricos, ensaiam vários cenários e têm a chance de interagir com doentes mentais fora da crise.

Entre outras coisas, os policiais aprendem a usar a distância e o tempo para tentar acalmar encontros potencialmente violentos.

Perto de 2.700 agências policiais dos Estados Unidos utilizam alguma forma da abordagem, disse Laura Usher, da Aliança Nacional para Doença Mental, e esse número está crescendo enquanto mais departamentos são pressionados a mudar o comportamento policial.

Em janeiro, como resposta a uma série de tiroteios que chamaram a atenção do país, um grupo de chefes de polícia pediu que os departamentos adotassem padrões mais elevados para o uso da força do que os estabelecidos pela Suprema Corte, além de adotar métodos para tranquilizar situações voláteis e evitar a violência.

Alguns departamentos de polícia exigem treinamento para crise de todos os seus policiais, mas o major Sam Cochran, que coordenou o primeiro programa de intervenção em crise em Memphis e agora é consultor de outras cidades, disse acreditar que a formação funcionava melhor quando são treinados grupos menores de voluntários que, então, assumem a liderança no atendimento a chamados envolvendo questões de saúde mental.

“Existem diversos tipos de especialização na manutenção da lei. Temos especialistas em bombas, narcóticos, roubos. Eu quero que todos os policiais presentes em uma cena compreendam que o líder é aquele que fez o treinamento de crise. Isso representa clareza, e a responsabilidade implica em um nível de controle”, disse Cochran.

Policiais se adaptam à nova realidade

Em informe preliminar lançado neste mês, monitores externos concluíram que a polícia de Portland ainda tem muito para fazer, incluindo manter um registro melhor de quantos contatos policiais envolveram questões de saúde mental.

Segundo os monitores, a polícia conquistou um “progresso substancial” na melhoria da forma com que lida com os doentes mentais.

E o estudo da polícia de Portland que será publicado até o final do ano constatou que o emprego da força por policiais caiu 65,4% entre 2008 e 2014, segundo os relatórios trimestrais. Os pesquisadores atribuíram a queda em grande medida ao aumento do treinamento e da supervisão nos últimos anos, embora o estudo não examinasse especificamente as interações com doentes mentais.

De acordo com os pesquisadores, os disparos de armas de fogo da polícia também caíram, em média para três por ano entre 2007 e 2014, contra oito por ano entre 2002 e 2005.

Já as denúncias de força excessiva diminuíram 74,2% entre 2004 e 2014, uma redução que Tim Prenzler, professor auxiliar de Criminologia da Universidade Griffith, na Austrália, e principal autor do estudo, qualificou de “conquista notável”. A pesquisa será publicada em “Journal of Criminological Research, Policy and Practice”.

Yakots, que integra a polícia há nove anos, disse acreditar que a tentativa de mudança de curso por parte da força foi em grande medida bem-sucedida, mas acrescentou: “Ainda existem problemas? Sim, não é perfeito. Muitas vezes nós temos recursos limitados”.

Era uma segunda-feira à noite de fevereiro quando ele e seu parceiro, o policial Michael Hastings, rondavam acampamentos de sem-teto e esquinas do centro, ouvindo chamadas do rádio que poderiam exigir sua presença.

Uma adolescente estava em um viaduto, ameaçando pular. Um universitário ligara para a mãe em outra cidade e contara que iria se matar. Uma mulher de 38 anos estava parada diante de um centro de tratamento de saúde mental exigindo ser levada a um hospital porque alegava ser “suicida e homicida”.

Hastings disse que antes de seu departamento mudar a abordagem, a atitude era “aplicar a lei e prender”.

Contudo, levar as pessoas ao pronto-socorro ou prendê-los não adiantava. “Essas pessoas costumam ser soltas em questão de horas.”

Segundo Hastings, pelo menos em Portland, a maioria dos policiais aceitou que parte de seu trabalho agora inclui lidar com doentes mentais e ajudar a encontrar soluções a longo prazo.

“Nós vimos que a questão é essa, que somos nós que vamos cuidar desses casos”, ele explicou.

Fonte: Bol.com.br

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