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"Nunca me vi como uma mulher em estúdio", diz baixista dos clássicos do pop

Pense na introdução icônicos de “La Bamba”, de Ritchie Valens, e nos acordes solares de “Then He Kissed Me”, das Crystals. Agora vá à irresistível harmonia do baixo de “Wouldn’t It Be Nice”, dos Beach Boys, e passe pela levada sacolejante de “Feelin’ Alright”, imortalizada na voz de Joe Cocker. Todos esses clássicos, com mais ou menos envolvimento em suas criações, têm em comum a mão forte de uma mulher, a da americana Carol Kaye.

À sombra de alguns dos hits mais populares do mundo nos anos 1950 e 1960, a baixista que começou na guitarra estima ter participado de cerca de 10 mil gravações. Entre elas, as do lendário produtor Phil Spector, além de sessões com Simon and Garfunkel, Tina Turner, Sam CookeNeil Young e até Frank Zappa.

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Carol Kaye em estúdio nos anos 1970

“Rainha do baixo”, Carol fazia parte de uma claque de raro traquejo musical, mas que jamais era vista em shows ou capas de discos: os músicos de estúdio de Los Angeles. O grupo era conhecido como “The Wrecking Crew” (“A Equipe de Demolição”, em tradução livre) e “carregava o piano” para inúmeros artistas e gravadoras da época, incluindo a Motown. Foi tema de um documentário dirigido em 2008 por Denny Tedesco, filho do lendário guitarrista Tommy Tedesco.

Com o distanciamento que só o passar de décadas costuma permitir, Carol parece não se ressentir de nada. Explica que, naquele tempo, a imensa maioria dos músicos de estúdio tinha alta formação e era egressa da então decadente cena do jazz. Tocar músicas radiofônicas era a forma mais prática de pagar as contas e fazer um pé de meia. E se hoje esse é um ambiente fechado e basicamente masculino, há 50 anos era ainda mais.

“Eu nunca me vi como uma mulher em um mundo de homens. Eu sempre fui uma boa profissional e sempre fui solicitada como instrumentista, nunca como uma ‘instrumentista mulher'”, Carol Kaye em entrevista ao UOL, via e-mail. Famosa também pela fama de durona, diz nunca ter sofrido qualquer ato de preconceito no trabalho.

“Eu tocava baixo, um instrumento crítico para banda. Eles não conseguiam se importar sobre quem eu era. Consegui tocar e ganhar um bom dinheiro. Todos sabiam que eu tinha o respeito e admiração geral”, releva a instrumentista, que hoje, aos 81 anos, vive de palestras e de aulas que ministra por Skype. O preço? De US$ 55 a US$ 65.

Reprodução/Snapshots Foundation

A baixista e guitarrista Carol Kaye, que tocou em alguns dos maiores clássicos do pop

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

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Carol Kaye toca na banda do trompetista Henry Busse em 1955

UOL – Como era ser mulher no ambiente masculino dos estúdios dos anos 1950 e 1960?

Carol Kaye – Eu nunca me vi como uma mulher em um mundo de homens. Sempre fui uma boa profissional na guitarra desde 1949. Era solicitada como instrumentista, nunca como uma “instrumentista mulher”. Isso porque eu tocava tão bem, se não melhor, do que os homens. Por que deveria ser diferente no trabalho de estúdio? Eu já era uma instrumentista popular tocando jazz na guitarra, trabalhando com os melhores do gênero. Para criar e reproduzir rock e música pop, tive que “emburrecer”, fazendo um trabalho mais fácil, que podia fazer “dormindo”. Mas nunca era algo como uma “mulher em estúdio”. Éramos todos músicos de estúdio. E havia muitas vocalistas mulheres também.

Em todos esses anos, você nunca sofreu nenhum tipo de preconceito?

Nunca. Tocando um baixo Fender, que era provavelmente o instrumento mais importante da banda, além da bateria e a guitarra, eu era uma figura crítica para a banda. Então, eles não se importavam sobre quem eu era. Consegui tocar e ganhar um bom dinheiro. Todos sabiam que eu tinha o respeito e a admiração gerais.

Aquela era certamente uma época mais conservadora. O que seus amigos e família pensavam da sua profissão?

Os anos 1950 e 1960 não eram como os últimos 30, 40 anos. Mas eu não tinha vida de família. Nos anos 1960, só conseguia ver meus filhos na hora do jantar, e daí já voltava para o estúdio. Era dia e noite gravando. Eu sabia que isso um dia terminaria. Mas você tem que trabalhar quando te chamam. Criei meus três filhos com governantas cuidando deles enquanto eu trabalhava. Meus amigos? Eram todos músicos.

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Carol Kaye (ao fundo) observa a dupla Simon & Garfunkel em estúdio

O que acha de quem diz que “mulher não sabe tocar instrumento”?

Quem diz isso com certeza não tem ideia da história das mulheres no jazz e nunca leu livros sobre o “showbiz”. Como diz o Quincy Jones, existem mulheres capazes de deixar homens comendo poeira com sua musicalidade. Mulheres trabalham lado a lado com os homens na música desde a década de 1910. Elas eram muito prolíficas nos anos 1940 e 1950.

Na verdade, a proporção de mulheres no jazz foi interrompida com o rock nos anos 1960. E isso durou até recentemente, graças aos filmes que voltaram a trazer standarts de jazz e a cantoras como a Diana Krall. Acho que existem momentos mais sérios, como foi o 11 de setembro, que pedem por músicas com mais significado.

Uma vez, em uma entrevista, me perguntaram sobre isso, e eu disse que, se você acha que mulheres não têm bolas, deveria escutar “Missão Impossível” [Carol tocou o tema clássico da série]. Ali há mais bolas do que em que qualquer outro lugar. Música não tem gênero. Não faz diferença se você é homem ou mulher.

Recentemente, você apareceu na internet em um vídeo, retirado de um documentário, ensinando o baixista do Kiss, Gene Simmons, a tocar uma música. Não se intimidou com a figura?

De forma nenhuma. Ele era foi excelente em seu papel de artista, e eu sou excelente no meu papel de professora. E ele sabia disso e expressou grande respeito por mim, por não ser uma ‘entertainer’ como ele. O encontro foi muito respeitoso. Ele queria aprender a tocar algumas notas e se mostrou muito interessado em jazz. Mas não fomos tão longe assim. Ele é uma pessoa muito legal. Sabia que eu não toco rock (exceto material de estúdio) e não esperava que eu soubesse quem ele era. Mas eu pedi a ele: “Não coloque seu batom ainda”. Nós dois demos risada.

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Fonte: Bol.com.br

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