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Raimundo Carrero: Técnicas literárias aprofundam diferenças estéticas entre autores

Por Raimundo Carrero

Escritor e jornalista

Definidos os caminhos estéticos e opostos de Ariano Suassuna e de Hermilo Borba Filho, podemos observar, com muita clareza, as técnicas que ambos escolheram para a composição das narrativas: Ariano recorre ao adjetivo e ao metafórico na frase fechada e na montagem da obra, enquanto Hermilo prefere a mais solta, longa, às vezes circulando em torno dela mesma, sem parada, em busca do ponto final, com o recurso da confissão sexual como elemento do conflito sociopolítico;

O narrador d` A Pedra do Reino é Quaderna, portanto alter-ego do autor; aliás, o alter-ego não é o autor com outro nome, mas o seu representante, tem outra personalidade, outros caracteres; quem tem nome diferente e é a mesma pessoa é o pseudônimo; mas o narrador de Um Cavaleiro da Segunda Decadência é inominado, embora aqui e ali identificado de forma indireta – o inominado em geral é o idealizado, ou conforme Hermilo, “metamorfoseado, irreconhecível, alterado, integral” -; ambos recorrem ao monólogo, mesmo que o primeiro seja metafórico e o segundo confessional, mesmo quando toma confessional só como partida.

Verificamos, assim, que Ariano chega ao político e ao social pelo alegórico e pelo metafórico, enquanto Hermilo opta pelo real transformado, pelo linear e pelo conflito social. Para tornar mais clara a questão, vamos observar a abertura das obras citadas: “ Daqui de cima, no pavimento superior, pela janela gradeada da Cadeia onde estou preso, vejo os arredores da nossa indomável Vila sertaneja. O Sol treme na vista, reluzindo nas pedras mais próximas, Da terra ardente, espinhenta e pedregosa, batida pelo sol esbraseado, parece desprender-se m sopro ardente, que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de Cangaceiros, de rudes Beatos e Profetas, assassinados durante anos e anos, entre estas pedras selvagens, como pode ser a respiração dessa fera estranha a Terra – essa Onça-parda em cujo dorso habita A Raça piolhosa dos homens. Pode ser, também, a respiração fogosa dessa outra Fera, a Divindade Onça Malhada, que é dona da Parda, e que, há milênios, acicata a nossa Raça, puxando-a o Alto, para o Reino e para o Sol”. 

Agora começa Margem da Lembrança – obra inicial de Um Cavaleiro da Segunda Decadência -: “Eu estou na balança. Todos os meus atos estão num dos pratos da balança. De um lado, os demais: mitos deles sou eu, metamorfoseado, irreconhecível, adulterado; do outro sou eu mesmo, integral, de carne, as pernas penduradas no vazio. E me jogo numa longa viagem do útero à morte: de um negro para outro, de um vermelho para outro vermelho, de um branco para um mais que branco, diáfano, transparente, etéreo, como era antes, sempre em formação, em massa, um pastel. Este sou eu, tanto no passado – vida morta – como no presente, que se estende pelos dias e pelas noites sem nada com o futuro inexistente, apenas inventado pela imaginação e com certeza diferente do que espero.”

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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