Sob aplausos e vaias, 69º Festival de Cannes aguarda Palma de Ouro

Cannes, França, 21 Mai 2016 (AFP) – Vários filmes são considerados favoritos a ganhar a Palma de Ouro que será atribuída neste domingo, entre eles o brasileiro “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, encerrando uma edição da mostra francesa, marcada por surpresas muito aplaudidas e vaias a diretores que decepcionaram.

“Toni Erdmann”, de Maren Ade, que pertence à nova geração de cineastas alemães, conquistou antecipadamente os corações na Croisette. Falta ver se o júri de nove membros, comandado pelo diretor de “Mad Max”, o australiano George Miller, confirma o veredicto dos aplausos e das boas críticas.

A reta final da competição trouxe novos competidores e, segundo a maioria dos assistentes, após a projeção deste sábado de “Elle”, do holandês Paul Verhoeven, último dos 21 filmes em disputa, o jogo ficou indefinido.

Entre os outros favoritos, a poesia de “Paterson”, do americano Jim Jarmusch, cativou Cannes; mas também o cinema romeno encantou com dois filmes muito elogiados: “Sieranevada”, de Cristi Puiu, e “Bacalaureat”, do e Cristian Mungiu, já premiado em 2007.

O universo feminino de “Julieta”, de Pedro Almodóvar, uma Sonia Braga combativa em “Aquarius”, do brasileiro Kleber Mendonça Filho, o amor interracial de “Loving”, de Jeff Nichols, e o cinema social de Ken Loach em “Yo, Daniel Blake”, arrancaram aplausos.

O cinema brasileiro já comemorou neste sábado o Olho de Ouro de melhor documentário, concedido a “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, sobre o movimento cinematográfico surgido nos anos 1960 no Brasil e liderado pelo pai do diretor, Glauber Rocha.

Já vários diretores de primeiro plano decepcionaram com seus filmes, a começar por Sean Penn e sua ridicularizada história de amor entre voluntários na África, contada em “The Last Face”, o filme mais vaiado da competição.

A comédia familiar “It’s only the end of the world”, de Xavier Dolan, foi apedrejada pela crítica internacional, mas agradou a francesa. Também dividiram opiniões o thriller erótico e canibal do dinamarquês Nicolas Winding Refn, em “The Neon Demon”, “Personal Shopper” de Olivier Assayas, e “American Honey” de Andrea Arnold.

‘Last, but not least'”Elle”, thriller mordaz de Paul Verhoeven – que assina “Instinto Selvagem” -, e “The Salesman”, um drama social iraniano, encerraram neste sábado com chave de ouro a 69ª edição do Festival de Cannes.

No longa do cineasta holandês, Isabelle Huppert, de 63 anos, interpreta uma mulher violentada que pouco a pouco entra em um jogo perigoso e perverso com seu agressor.

À imprensa, Huppert disse não se preocupar com a reação que os espectadores podem ter ao descobrir a relação particular que ela terá com seu estuprador, a quem não denuncia ou afasta de sua vida quando descobre sua identidade.

“Não é um proclame sobre uma mulher violentada, que acaba aceitando-o. Não quer dizer que aconteça com todas as mulheres do mundo. Acontece com essa mulher em particular como indivíduo”, disse Huppert.

A atriz, que para muitos críticos atuou no papel de sua vida, é apontada como uma das favoritas ao prêmio de interpretação feminina, que já ganhou em duas edições anteriores.

O filme também obteve boas críticas da imprensa. O jornal francês L’Express aplaudiu “a ambiguidade perversa” deste thriller, que chegou a arrancar risadas dos espectadores.

Já em “The Salesman”, o iraniano Asghar Farhadi conta a história de um casal de atores de teatro que ensaiam a peça “Morte de um caixeiro viajante”, de Arthur Miller, e precisa, deixar o apartamento em que vivem em Teerã, que ameaça desabar.

O diretor se questiona, através desta história marcada pela vingança, sobre a violência, que o protagonista considera estar no direito de exercer.

“Há tempos queria fazer um filme sobre uma peça de teatro”, explicou à AFP Asghar Farhadi, de 44 anos, ganhador de um Oscar com “A Separação” (2011).

“Há um paralelismo muito forte entre a atuação na peça de teatro e o que está em jogo para os personagens do filme”, disse o diretor.

Julia Roberts descalça e outras musas de CannesDa constelação que passou pelo tapete vermelho, uma das imagens que ficará gravada será a de uma deslumbrante Julia Roberts subindo descalça e desafiadora a escadaria do Palácio dos Festivais. Também abriu caminho uma nova geração de atrizes, de Kristen Stewart a Elle Fanning, passando por Blake Lively e a cubana Ana de Armas, assim como veteranas, como Sonia Braga, sorridente e bem resolvida aos 65 anos.

Em um registro mais rebelde que o de Julia Robers, os roqueiros ‘bad boys’ Iggy Pop e Jim Jarmusch também desafiaram o protocolo do tapete vermelho, fazendo gestos obscenos com o dedo médio ao posar para as câmeras.

Crise brasileira na CroisetteAo lado de Sonia Braga, o elenco de “Aquarius” aproveitou a exposição mundial em Cannes para protestar com cartazes contra o governo do presidente interino Michel Temer. Os demais cineastas brasileiros presentes ao festival, cujo cinema foi em boa parte subvencionado pelos governos anteriores, se somaram ao protesto contra o que denominaram de “golpe de Estado” de Temer e a extinção do ministério da Cultura.

A política chilena também marcou presença na Croisette com “Neruda”, de Pablo Larraín, sobre a perseguição ao poeta em seus anos de militância comunista, nos anos 1940. Já o chileno Alejandro Jodorowsky apresentou em Cannes um aplaudida “Poesía sin fin”, a segunda parte de sua saga autobiográfica.

Almodóvar, Luis XIV e a volta por cima da EspanhaA Espanha fez um retorno retumbante nesta 69ª edição, com a quinta participação de Almodóvar na disputa pela Palma de Ouro.

Mas o destaque ibérico não se limitou ao consagrado diretor de “Julieta”, que conseguiu superar sem maiores danos a má fase por sua citação no escândalo dos “Panama Papers”. A nova geração também defendeu as cores da Espanha, especialmente na participação do galego Oliver Laxe, grande prêmio da Semana da Crítica, com sua aventura épica e espiritual em “Mimosas”.

O catalão Albert Serra cativou Cannes com “La muerte de Luis XIV”, trazendo o lendário ator francês da Nouvelle Vague Jean-Pierre Léaud na pele do Rei Sol, uma escolha elogiada pela imprensa, do New York Times à mídia francesa, que se referiu ao filme como uma obra-prima.

Fonte: Bol.com.br

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