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Tribuna SBTpedia: O poder catártico de Silvio Santos, por Rafael Fialho

O poder catártico de Silvio Santos

Por Rafael Fialho* (rafaelbfialho@gmail.com)

É domingo, estou enrolado nas cobertas e absorto em problemas do tipo falta de grana, de tempo, cansado da semana que se passou e daquela que está por vir. De todos os planos que elaborei para o fim de semana, executei poucos, e para sair dessa bad, ligo a televisão – o melhor remédio para certas coisas que não têm cura. O Programa Silvio Santos já começou e, droga, perdi mais uma vez a abertura triunfal com os pompons coloridos do auditório (a propósito, adoro quando ele chama aquilo de espanador). Lá está o rei, o maior, o astro, o ídolo da televisão do meu país fazendo o que mais sabe fazer: o trivial. Enquanto os outros programas se digladiam pela pauta mais catastrófica, pela atração mais mirabolante e cara, o homem sustenta quatro horas de programa com conteúdo simples, besta, barato… Aos 85 anos.
 Silvio rindo de si. Por que não fazermos o mesmo?

Desde 2010 venho, humildemente, fazendo análises e trabalhos para tentar entender esse cara. Já virei noites e viajei a vários lugares por causa dele e de sua criação mais famosa, o SBT. Mas tem coisa que não tem muita explicação. É bom, e só. Ao constatar isso, dispo-me de qualquer olhar crítico e passo a assistir ao programa como um telespectador em busca de diversão, e é justamente o que encontro. Em determinado momento, me pergunto como ele consegue nos manter presos a quadros tão simples por horas a fio. Hipnose, só pode ser. 

O fato é que o programa cabe perfeitamente no domingo, ofertando leveza, bobeira, e o mais alto grau de distração. Silvio conversou com uma senhora toda tatuada, recebeu uma jovem de 2 metros de altura, elogiou o vestido de uma colega de trabalho e fez tantas outras amenidades que me levaram a outro universo. Como pode gerar tanto engajamento uma brincadeira boba como descobrir a palavra por trás de letras embaralhadas? Ele premia a participante pelo acerto com 150 reais e sinto uma inveja branca, afinal, eu também consegui adivinhar. Quando parece ter ficado monótono, o apresentador volta com suas tiradas às quais reajo com gargalhadas. “Esse moço é lindo? Mesmo com essa barbicha de bode?” – é uma delas. 

Mais ao final do programa, são apresentadas pegadinhas mais antigas que eu. Tenho que maneirar o volume da gargalhada, pois todos em casa já estão dormindo. Mas como se segurar ao ver o Ivo Holanda de sempre vender uma paleta mexicana feita de pimenta, e apanhar das “vítimas”? Uma delas até se estabacou no chão, levando junto meu senso de politicamente correto e aflorando a risada mais perversa da noite.

Assim, começo a pensar que talvez Silvio não seja exatamente genial como dizem. Ele é apenas normal. Gente como a gente, que ri dos outros, das situações e leva – ou tenta levar – as coisas de boa. Se a gente ganha a vida de inúmeras maneiras, ele ganha a dele de um modo peculiar: fazendo a gente se esquecer da nossa. Seu poder catártico ameniza qualquer preguiça ou desânimo típicos de domingos. 

É meia noite. Ele se despede e deseja uma boa semana. Só aí é que me lembro: amanhã é segunda-feira.

*Jornalista, Rafael Fialho é doutorando em Comunicação Social pela UFMG e fez do SBT seu objeto de estudo: pesquisa o canal há tempo, tendo se dedicado a pesquisas sobre os SBTistas, Silvio Santos e sobre a interação da emissora com seu público a partir das vinhetas. Atualmente pesquisa a tematização da violência contra a mulher no programa Casos de Família. Escreve artigos de opinião às quartas-feiras no SBTpedia. Para conhecer seus trabalhos sobre o SBT, mandar críticas, sugestões ou trocar ideias, escreva para rafaelbfialho@gmail.com    

Fonte: SBTpedia (www.sbtpedia.com.br)

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1 comentário

  1. a unica explicação sensata para Silvio Santos… É simplesmente… 

     

    ELE É O SILVIO SANTOS.. PRONTO.

     

    GENIO DA TV BRASILEIRA, QUISSÁ… MUNDIAL…

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