Veja na íntegra a carta de especialistas que pede adiamento dos Jogos

Assinada por um grupo de 150 cientistas internacionais, a carta aberta enviada OMS (Organizao Mundial da Sade) solicitando o adiamento dos Jogos Olmpicos e Paralmpicos devido ao vrus da zika aponta exemplos de outros eventos esportivos como justificativa. Confira a carta abaixo, na ntegra.

“Fazemos esse apelo a despeito do fatalismo generalizado de que os jogos do Rio em 2016 so inevitveis, ou ‘grandes demais para fracassar'”, afirma a mensagem, tambm direcionada ao COI (Comit Olmpico Internacional).

Segundo o pedido, “muitos atletas, delegaes e jornalistas esto enfrentando a difcil deciso de participar ou no” dos jogos, devido ao risco da zika. O texto cita, ainda, a recomendao dos Centros de Controle de Doenas dos Estados Unidos de que trabalhadores devem considerar adiar viagens para reas de endemia.

“Um risco desnecessrio ser criado pela presena de 500 mil turistas estrangeiros de todos os pases que comparecero aos jogos e podem ser contagiados com essa variante, e voltar para casa em lugares onde ela poderia se tornar endmica.” Esse um risco “antitico”, segundo a carta.

Daniel Marenco/Fohapress
 RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 26-02-2015, 16h00: Vista do Cristo Redentor, Ba
Segundo a carta, o fato de o Rio de Janeiro ser “fortemente afetado pelo zika” justifica o adiamento da Olimpada

O grupo ainda afirma que a OMS no se posiciona contra a realizao da Olimpada por um “conflito de interesse”. “Especificamente, a OMS formou uma parceria oficial com o Comit Olmpico Internacional (COI), em um memorando de entendimento cujo contedo continua secreto.”

No Brasil, o Ministrio da Sade e a Prefeitura do Rio afirmam que a incidncia de zika na cidade sede dos jogos no motivo para adiar o evento.

LEIA A CARTA NA NTEGRA

Carta aberta Dra. Margaret Chan, diretora geral da Organizao Mundial de Sade (OMS)

(Com cpia ao Comit Olmpico Internacional)

Estamos escrevendo para expressar nossa preocupao quanto aos Jogos Olmpicos e Paralmpicos que comearo em breve no Rio de Janeiro. A declarao da OMS de que o zika “uma emergncia de sade pblica de preocupao internacional”, somada a novas constataes cientficas que sublinham a importncia do problema, pede que os jogos do Rio em 2016 sejam adiados ou transferidos para outro local – mas no cancelados -, em nome da sade pblica.

Fazemos esse apelo a despeito do fatalismo generalizado de que os jogos do Rio em 2016 so inevitveis, ou “grandes demais para fracassar”. A Histria nos ensina que isso no verdade: os jogos de 1916, 1940 e 1944 foram no postergados mas cancelados, e outros eventos esportivos foram transferidos por motivo de doena, como nos casos da Major League Baseball, por conta do zika, e da Copa das Naes Africanas, por conta do ebola.

No momento, muitos atletas, delegaes e jornalistas esto enfrentando a difcil deciso de participar ou no da Olimpada do Rio em 2016. Concordamos com os Centros de Controle de Doenas dos Estados Unidos, que recomendam que os trabalhadores devem “considerar adiar suas viagens a reas em que a transmisso do zika ativa”. Se essa orientao fosse seguida uniformemente, nenhum atleta se veria forado a escolher entre arriscar uma doena ou participar de uma competio para a qual muitos deles treinaram a vida inteira.

Nossa maior preocupao quanto sade mundial. A variante brasileira do vrus do zika prejudica a sade de maneiras que a cincia at agora no havia observado. Um risco desnecessrio ser criado pela presena de 500 mil turistas estrangeiros de todos os pases que comparecero aos jogos e podem ser contagiados com essa variante, e voltar para casa em lugares onde ela poderia se tornar endmica. Caso isso acontea em lugares pobres e at agora ainda no atingidos (por exemplo o sul da sia e a frica), o sofrimento poderia ser grande. antitico correr esse risco, por jogos que poderiam seguir adiante de outra maneira, caso postergados ou transferidos.

Em nossa opinio, diversas novas constataes cientficas requerem que a OMS reconsidere seu posicionamento sobre os jogos olmpicos e paralmpicos de 2016. Por exemplo:

– Que a variante viral brasileira causa microcefalia e provavelmente sndrome de Guillain-Barr. Alm disso, porque estudos humanos, animais e in vitro demonstraram que o vrus neutrfico e causa morte de clulas, biologicamente plausvel que existam ainda outras leses neurolgicas no descobertas at agora, como existem no caso de vrus semelhantes (por exemplo o da dengue)7.

– Que embora o risco do zika para cada dado indivduo seja baixo, o risco para uma populao inegavelmente alto. No momento, o governo brasileiro reporta 120 mil casos de zika e 1,3 mil casos confirmados de microcefalia (com outros 3,3 mil sob investigao), o que fica acima do nvel histrico de incidncia da microcefalia.

– Que o Rio de Janeiro fortemente afetado pelo zika. O governo brasileiro reporta que o Estado do Rio de Janeiro tem o segundo maior nmero de casos provveis de zika no pas (32 mil), e a quarta maior incidncia (195 em cada 100 mil moradores), o que demonstra transmisso ativa.8

– Que a despeito do novo programa de extermnio de mosquitos do Rio de Janeiro, a transmisso da doena portada por mosquitos subiu em lugar de cair. Embora o zika seja uma epidemia nova e no haja dados histricos sobre ele, usando a dengue como fator de comparao, os casos no Rio de Janeiro entre janeiro e abril mostraram alta de 320%, e de 1.150% ante o perodo em 2015 e 2014. No bairro especfico do Parque Olmpico (Barra da Tijuca), houve mais casos de dengue s no primeiro trimestre de 2016 do que em todo o ano de2015.

– Que o sistema de sade do Rio de Janeiro est to severamente enfraquecido que uma campanha de ltimo minuto contra o zika impossvel. O governo estadual do Rio recentemente declarou uma emergncia de sade e a prefeitura da cidade reduziu em 20% as verbas de combate a enfermidades transmitidas por mosquitos. Embora o vrus seja o agente infeccioso do zika, a verdadeira causa da doena so as condies sociais e sanitrias precrias do Rio – fatores para os quais no h soluo rpida, e o desvio dos escassos recursos de sade disponveis para os jogos no ajuda.

– Que impossvel erradicar o mosquito Aedes aegypti, que transmite o zika, do Rio. O mosquito na verdade havia sido totalmente erradicado no Brasil nos anos 50, mas voltou porque os esforos de controle foram abandonados. Assim realizar os jogos, na presena de mosquitos portadores do zika, uma escolha, e no necessrio.

– Que no se pode contar com a natureza como defesa. Embora a atividade reduzida dos mosquitos nos meses de inverno do Rio reduza o risco de infeco de viajantes individuais, esse fator parcialmente compensado quando viajantes infectados voltam para casa nos meses de vero do hemisfrio norte, que veem um pico de atividade de mosquitos, o que eleva o risco de sade pblica de que mosquitos locais adquiram e espalhem o vrus -o que significa que as duas estaes so relevantes para o curso da epidemia. Alm disso, a infeco pode se espalhar por meio de doaes e transfuses de sangue, especialmente em pases pobres onde no haja exames especficos para detectar o zika.

Em resumo, as provas mostram que: (i) a variante brasileira do zika tem consequncias mdicas mais srias do que se sabia anteriormente; (ii) o Rio de Janeiro uma das partes do Brasil mais afetadas; e (iii) que os esforos de extermnio de mosquitos do Rio no esto cumprindo as expectativas, e que as doenas portadas por mosquitos esto em alta este ano. portanto imperativo que a OMS conduza uma nova avaliao, com base em provas, do zika e dos jogos, e de suas recomendaes aos viajantes.

Porque o zika uma nova emergncia, suas muitas incertezas – quanto a fluxos de viagem durante os jogos, epidemiologia e entomologia – no momento tornam impossvel que modelos matemticos prevejam com preciso o curso da epidemia. Portanto, por enquanto qualquer deciso sobre o zika e os jogos precisa ser mais qualitativa que quantitativa. Se as opes abaixo forem consideradas:

(a) Realizar os jogos no Rio na data prevista;
(b) Realizar os jogos no Rio posteriormente, depois que o zika for controlado;
(c) Realizar os jogos em locais no afetados pelo zika e que dispunham de instalaes de padro olmpico.

indisputvel que a opo (a), a de realizar os jogos como planejado, oferece maior risco de acelerar a difuso da variante viral brasileira, diante das alternativas. Adiar e/ou transferir os jogos tambm mitigaria outros riscos causados pela histrica turbulncia que a economia, a sociedade em geral e a governana brasileiras enfrentam, e que no so problemas isolados, criando um contexto que torna praticamente impossvel resolver o problema do zika, dada a rpida aproximao da data dos jogos.

Estamos preocupados com a possibilidade de que a OMS esteja rejeitando essas alternativas por um conflito de interesse. Especificamente, a OMS formou uma parceria oficial com o Comit Olmpico Internacional (COI), em um memorando de entendimento cujo contedo continua secreto. No existe um bom motivo para que a OMS no revele esse memorando de entendimento, como prtica padro em casos de conflito de interesse. No faz-lo lana dvidas sobre a neutralidade da OMS, por razes descritas de maneira mais aprofundada no apndice.

A OMS precisa retomar a questo do zika e adiar e/ou transferir os jogos. Recomendamos que a OMS forme um grupo independente para assessor-la, e ao COI, em um processo transparente e baseado em provas, no qual a cincia, a sade pblica e o esprito do esporte venham primeiro. Dadas as consequncias ticas e de sade pblica, no faz-lo seria irresponsvel.


Fonte: Folha.com.br

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