Virada Cultural descentralizada mais aproxima do que distancia

Primeiro, é preciso dizer: a ideia de periferia, para quem é do centro e vai para ali como se fosse a um safári, é bastante equivocada. Nos megashows da Virada descentralizada, por exemplo, não havia quase nenhum lixo no chão, era pouco comum gente que fazia xixi nas árvores ou na porta da casa dos outros, não tinha nenhuma garrafa quebrada no meio-fio –ao contrário do centrão. Quase não há “treta”, ninguém olha com estranheza para ninguém.

Os meninos estão adorando fumar em narguilés em rodinhas de amigos. As meninas usam shortinhos de cós alto como em qualquer show no Jockey Club. Os garotos gays e as mulheres sozinhas já são mais frequentes nos shows de hip-hop. Poucos clichês sobrevivem a um exame mais apurado: nas 24 horas da Virada, a reportagem do UOL percorreu 276 km (ida e volta) em aproximadamente 4 horas para conferir shows em Cidade Tiradentes (zona leste), M’Boi Mirim e Parelheiros (zona sul).

No M’Boi Mirim (32 km de distância do Palco São João), o show de destaque era a Nação Zumbi, em tese marcado para as 22h do sábado. Muitas mães com bebês no público, muitos garotos de bicicleta pelo meio da plateia. O policiamento era ostensivo: somente entre o Atacadão do Jeans e o Águia Shoes, quadrilátero de meia quadra, contavam-se 5 viaturas.

“Prova! Se você gostar, você volta”, disse a ambulante Paula Oliveira Santos, se negando a receber o pagamento e oferecendo sorridente um copo cheio de quentão fumegante aos visitantes. Para Paula, o dinheiro importava menos do que a vaidade da aprovação de sua canjica, seu vinho quente e o quentão de R$ 2 (tudo é mais barato fora do centro).

Flávio Florido/UOL

22.mai.2016 – Nação Zumbi se apresenta no palco M’Boi Mirim, extremo sul de São Paulo

Os percalços da Nação Zumbi com a precariedade da organização (seu show atrasaria uma hora) não incomodavam o público, que não demonstrava a menor impaciência. A oferta de comida era modesta, concentrada em um ônibus transformado em food truck de ocasião, que vendia sanduíches e cervejas.

Na primeira fila, uma fã especial aguardava a banda pernambucana. A baiana Maria Aparecida de Oliveira Santos, com quatro filhas e três netos em volta, era pura euforia. As filhas usavam camisetas da banda. Ela é de M’Boi mesmo, mas trabalha como cozinheira numa casa do Alto da Lapa, a 24,5 km dali. Seu patrão é Lúcio Maia, guitarrista da Nação. “Você sabe, ele não come carne. Cozinho peixe, soja. Adora coisas simples, arroz, feijão. Se ele é melhor que Pepeu? Muuuuito melhor? Melhor que Robertinho do Recife? Rapaz, eu tenho certeza que ele é o melhor guitarrista do mundo”, derrete-se, pouco antes da apoteose da noite: Lúcio Maia chega até a grade para cumprimentar a família dela.

Em Cidade Tiradentes (58 km de distância a partir do M’Boi Mirim), o show da noite era de Mano Brown, à 1h. À primeira vista, o clima era de atropelamento e fuga, como diria o poeta. Muito escuro nas imediações, iluminação deficiente. Gente atravessando carro na rua, sem ligar para o fluxo do trânsito. Viatura da polícia, nem para remédio. O taxista adverte que ali naquela área, depois de certa hora (nas proximidades do Centro Cultural Tiradentes), o código é “QTA” (antiga gíria de radioamadores que quer dizer “anule a mensagem anterior”, ou seja: as empresas de táxi não atendem chamados daquela área).

De fato, o formato de vale do local que abriga o centro cultural e os cemitérios de automóveis no caminho, além das dezenas de forrós improvisados em bares e um motoqueiro abalroado na Avenida Ragueb Chohfi pareciam sugerir um horizonte enevoado. Muitos fãs esperavam o show empoleirados numa estrutura de concreto num morro a mais de 300 metros do palco, como se houvesse uma outra agremiação lá em cima que não pudesse receber visitas. Palpite errado: o “Elevador Lacerda” de parte da plateia era apenas um tipo de camarote alternativo. Ao final do show de Brown, todos os sorrisos negados na chegada pareciam ter reaparecido.

Duas garotas amparavam um marmanjo que bebera além da conta e esvaziava os bofes num gradil. A reportagem não presenciou (nem confirmou) nenhum ato de violência no período em que esteve na área.

Flavio Florido/UOL

22.mai.2016 – Mano Brown sobe ao palco do Centro Cultural Tiradentes, na zona leste

Mano Brown parece que sabe dessa duplicidade de expectativas: até a metade, seu show foi um fog impenetrável e uma ambiência densa. Mal se via o astro no meio da fumaça. A partir da metade, ele já içava crianças da plateia para dançar consigo e as luzes acenderam, mostrando Brown com sorrisos largos (coisa rara), abertura que culminou no rapper abraçado aos fãs na grade, posando para selfies e colando o rosto com as garotinhas.

“Foi um caminho longo da Zona Sul até a Zona Leste, não?”, pergunta Brown à moçada da frente. Pelos rostos, ele sabe que houve uma migração, e elogia o bairro que o recebe. “Essa Zona Leste me acolheu bem em todos os momentos”. O animador que o precedeu sabia dos indicadores da plateia pelas provocações: “Tem torcedor do Santos aí? do São Caetano? do São Paulo? Do Asa de Arapiraca?”. Quando diz “Corinthians”, o morro vem abaixo.

A chegada a Parelheiros (48 km do Palco Arouche) mostra a imensidão dessa cidade: vacas cruzam o caminho na Estrada Teotônio Vilela, o táxi passa debaixo do Rodoanel. No show, o clima é de quermesse, com barracas de pastéis, bijuterias, narguilés em profusão. “Eu não cobro, dão o que quiserem”, diz Fofinha, apelido da ex-professora de História Eliane Silva, que pinta rostos de crianças em fila num camarim improvisado no centro da praça. Todo mundo quer. Fofinha termina e faz uma foto da criança, se os pais autorizarem. No mesmo instante, coloca no seu Facebook. É um dos grandes sucessos das imediações do Palco Parelheiros. Fofinha conta que pinta rostos há 30 anos – largou as aulas porque tinha medo que “algum dia, um aluno meu me matasse”.

No palco, a partir das 17h, Emicida oferece aos seus fãs um cardápio que inclui Cartola, Candeia, Adoniran Barbosa. Ele sabe que, pela via do hip-hop, pode traficar a melhor MPB para um público que já faz pedidos insistentes. Um lixeiro da Prefeitura larga o trabalho e se enfia na plateia com vassoura e pá. “As Rosas, As Rosas!”, berra uma moça do gargarejo. Emicida vai em outra onda, canta Ordenes e Farei, de Cartola.

Depois, o rapper anuncia que o show acabou. Um rapaz resmunga: “Acabou não, amigo! E o rap?”. Ironicamente, no instante seguinte, Emicida pede à plateia alguém que tenha uma caixa de fósforos para ele batucar e o rapaz que resmungou é quem empresta. Emicida pergunta quantos fósforos tem na caixa para um dos músicos. A plateia berra: “Tem mais coisa aí!”. Emicida: “Deus abençoe”. Todo mundo ri, inclusive os três PMs na viatura. Na periferia, as diferenças parecem menores, talvez porque as maiores diferenças não cheguem tão longe de táxi.

Fonte: Bol.com.br

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *