A tocha feminista

Juliana de Faria, ativista da ONG Think Olga, desfilou por 200 metros carregando a tocha olímpica. Parou ao lado de Maria da Penha, que batiza a lei que coíbe a violência doméstica, e passou o símbolo do maior evento multiesportivo do planeta adiante.

A imagem passou um recado claro: a proteção e a valorização da mulher estão entre os valores da Olimpíada. Um recado importante, especialmente após os estupros coletivos que vitimaram mulheres nas últimas semanas, no Rio e no Piauí —os dois que ganharam espaço na mídia. A maioria nem chega a ser conhecida. Uma mulher é violentada no Brasil a cada 11 minutos e só 10% delas têm coragem de denunciar.

Já MC Biel, o jovem cantor envolvido no caso de assédio a uma repórter no Rio, não repetirá o gesto. Ele foi cortado do revezamento por conta do episódio. Não representa o espírito olímpico.

Aumentar a participação das mulheres no esporte tem sido uma das bandeiras do Comitê Olímpico Internacional. Elas agora disputam todas as modalidades nos Jogos e todos os países são incentivados —e pressionados— a terem representantes do sexo feminino em suas delegações. As mulheres representaram quase metade dos atletas que competiram em Londres-2012.

Até os tribunais esportivos têm caminhado no sentido de respeitar e abraçar a diversidade feminina. A indiana Dutee Chand recorreu à Corte Arbitral do Esporte e conseguiu ganhar o direito de competir. Seu corpo produz naturalmente mais testosterona do que a média mulheres —a testosterona não fabricada pelo corpo pode ser usada como forma de doping.

Esse número está acima de um limite que havia sido estabelecido pelo atletismo como “nota de corte” para as mulheres. Quem ultrapassa, precisa passar por cirurgias nos órgãos reprodutivos e tratamento hormonal.

O resultado do julgamento deve garantir mais cuidado e respeito às mulheres em casos como esses.

A organização do revezamento da tocha no Brasil vem sofrendo críticas desde que o evento começou.

A imagem de Gabriel Medina logo no primeiro dia foi questionada. Por que um surfista, atleta de um esporte que nem está nos Jogos, e não mais um que vai disputar ou já disputou a Olimpíada?

A ausência dos antigos competidores na lista gerou uma campanha iniciada pela professora Katia Rubio, autora de um livro que perfila todos os brasileiros olímpicos. Nomes que ficaram de fora acabaram ganhando sua chance de carregar a tocha.

Depois vieram Zezé di Camargo e Luciano e outras celebridades, culminando com uma ex-BBB expulsa do programa por agredir um participante. Mais críticas.

O revezamento é um evento privado, bancado por patrocinadores. É natural que seja usado para promover suas marcas, chamar atenção, agradar clientes e funcionários. Há espaço para essas ações. Mas é também um evento que visa levar a Olimpíada a lugares que não verão os Jogos, engajar a população e disseminar os valores olímpicos, por mais abstrato que isso pareça.

Ao excluir Biel e chamar dois símbolos da luta pelo fim da violência contra a mulher, a Olimpíada escolhe um lado. O lado certo.


Fonte: Folha.com.br

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