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Análise: como Tite deve escalar e armar a Seleção Brasileira?

A necessária transformação completa na estrutura do futebol tupiniquim não vai ocorrer, mas o treinador tem totais condições de mudar o escrete canarinho

Depois de dois anos perdidos, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) fez o óbvio: demitiu Dunga e contratou Tite, que devia ter substituído Felipão após a Copa do Mundo de 2014 e é a escolha mais do que certa, a única, para o cargo de técnico da Seleção Brasileira. Os cartolas da entidade, que são incapazes de fazer o certo – só o fazem quando não existe outra opção ou após muitos erros – precisaram dar o braço a torcer após a constatação do lógico: Dunga nunca foi treinador.


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Tite assume o cargo dois anos depois do que deveria. Ele como técnico da Seleção e uma completa transformação na estrutura do futebol brasileiro eram as respostas que todos queriam após o humilhante 7 a 1, mas ao invés disso, vimos o retorno de Dunga, Marco Polo Del Nero na presidência e a manutenção da corja da CBF no poder. Dois anos foram jogados pela janela, perdidos no meio da continuidade dos problemas, nenhuma resolução, dois novos vexames, com o Brasil eliminado pelo Paraguai no ano passado e de fora dos oito melhores da Copa América pela primeira vez na história após a vergonha deste domingo, e escândalos e mais escândalos de corrupção envolvendo os cartolas.

(Foto: Getty Images)

Infelizmente, os problemas na estrutura do futebol brasileiro vão continuar enquanto a corja estiver no poder na CBF. E isso, por mais triste que seja, vai continuar ocorrendo enquanto o funcionamento do futebol tupiniquim não mudar. O presidente do Corinthians, Roberto de Andrade, que agora esbraveja contra a entidade sediada no Rio de Janeiro, por exemplo, é um dos responsáveis pela manutenção dessa podridão – não que a condução da CBF para contratar Tite tenha sido correta, pelo contrário. Afinal, ele é um dos que colocou Marco Polo Del Nero no poder, em um dos incontáveis exemplos do que está errado por aqui. O mandatário votou no cartola, que não sai mais do Brasil nem acompanha a Seleção em seus compromissos fora do país com medo de ser preso, acompanhando o voto da Federação Paulista de Futebol (FPF), da qual Del Nero era presidente.

As federações estaduais, como todos sabemos, foram transformadas em cabides de empregos, e são sustentadas por verbas da CBF, comandada por Marco Polo Del Nero e sua trupe, que compram os votos dos presidentes das federações das mais variadas formas para seguir no poder e passar o bastão para seu sucessor apenas quando não mais existir a possibilidade de seguir no comando. Não é necessário explicar o quão errado e lamentável é tudo isso.

(Foto: Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians)

Existem vários outros problemas: o calendário vergonhoso, que prejudica tanto os times grandes quanto os pequenos, e deixa milhares de jogadores desempregados e em situações precárias todos os anos; os públicos ridículos, inclusive na Série A do Campeonato Brasileiro, e a média mais triste ainda; o horrível nível técnico e tático do futebol praticado no país; os treinadores, em sua maioria, ultrapassados; a mentalidade e a cultura de resultados e o imediatismo as categorias de base largadas, entregues aos empresários e priorizando a força e tamanho dos garotos para obter vantagens e conquistar títulos (futebol de resultado até mesmo na base), ao invés da técnica e revelação e formação de novos talentos; a corrupção, a politicagem e outros incontáveis problemas.

Além disso, existe a falta de humildade. Para a corja da CBF, nossas cinco estrelas no peito falam mais alto que qualquer outra coisa e ainda somos donos do melhor futebol do mundo. Nossos campeões mundiais e a história do futebol brasileiro sentem vergonha do momento atual. Já fomos os melhores, atualmente não somos. Estamos aquém dos melhores times do mundo e ficamos para trás. O futebol brasileiro está ultrapassado. E não só o escrete canarinho, mas o que vimos no dia a dia dentro do país. A Seleção nada mais é que um reflexo do futebol tupiniquim.

​(Foto: Getty Images)

A necessidade de uma transformação completa no futebol brasileiro, começando pela base, e não pelo topo da pirâmide, é evidente. A Seleção deve mudar consideravelmente com Tite, mas apenas a troca do treinador do escrete canarinho não vai mudar a realidade do nosso futebol, que seguirá triste e agonizando da mesma forma. Os problemas vão continuar existindo.

Mas… E a Seleção?

Analisando o escrete canarinho, como mencionado anteriormente, Tite é não somente a certa, mas a única escolha para o cargo de treinador da Seleção Brasileira atualmente, diante da falta de nomes nacionais com a mesma força e a mentalidade atrasada dos cartolas para contratar um estrangeiro – o que seria difícil, com os principais comandantes (Guardiola, Mourinho e Sampaoli, por exemplo), começando em novos empregos. Ele é muito competente, vencedor, sabe como manter um bom ambiente no grupo de atletas, fez grandes trabalhos recentemente, buscou se atualizar e aprender, adquirindo novos conhecimentos, tem grande conhecimento tático e técnico do esporte, e ainda conta com o respaldo dos jogadores, da imprensa e do povo brasileiro.

(Foto: Getty Images)

De qualquer forma, Tite assume o cargo dois anos depois do que deveria, e precisará acelerar o ritmo de trabalho, ao qual não está acostumado – ele sempre trabalhou em clubes, no dia a dia, e viverá sua primeira experiência em uma seleção -, sem ter seus comandados todos os dias para trabalhar. Existe também a pressão por uma melhora rápida, já que a situação nas Eliminatórias Sul-americanas para a Copa do Mundo de 2018 está longe de ser confortável. No entanto, é uma marca do treinador não só a competência, mas a busca pelo conhecimento para tomar as decisões certas nos momentos de maior necessidade. Ele tem qualidade suficiente para fazer um grande trabalho.

Como Tite vai armar a Seleção?

No último ano, Tite transformou o Corinthians em uma máquina jogando no 4-1-4-1. Nesta temporada, ele manteve o esquema, mas em várias partidas utilizou o 4-2-3-1. Acredito que os dois esquemas táticos, que ele conhece tão bem, são os ideais para a Seleção Brasileira.

Dunga “armou” o escrete canarinho nos dois esquemas, mas sempre com incontáveis problemas pelo fato do mesmo não poder ser considerado um técnico de verdade. Buracos entre as linhas, espaços gigantes, falta de movimentação e aproximação, defesa desprotegida em muitos momentos e um atacante inoperante são algumas das falhas do “time” que era “comandado” pelo ex-“treinador” da Seleção. Como escrevi várias vezes, o Brasil até tinha a bola e trocava passes com Dunga. É o segundo colocado nas estatísticas de posse de bola e troca de passes nas Eliminatórias, atrás apenas do Chile. Por outro lado, finalizou e criou menos chances de gol que a Bolívia.

(Foto: Lucas Figueiredo/MoWa Press)

A tendência é que Tite corrija essas falhas. As equipes do treinador, afinal, são conhecidas justamente pela compactação, consistência defensiva, poucos espaços entre as linhas de marcação e muita movimentação ofensiva. O técnico tem condições de fazer tudo isso na Seleção, já que terá um bom material à disposição, e poderá fazer a equipe jogar um futebol ofensivo, bonito e de posse de bola, que crie muitas chances de gol e finalize, mas também consistente na marcação e que saiba variar entre a marcação pressão na saída de bola do adversário, e a marcação no campo de defesa, para tentar roubar a pelota e sair em rápidos contra-ataques. É preciso, porém, ter calma. O comandante é capaz de fazer tudo isso, mas precisará de tempo. Ninguém consegue fazer tantas e necessárias transformações em uma semana de treinos e no primeiro jogo.

Quanto ao time, acredito que veremos mudanças. Não tenho bola de cristal para saber quais serão, mas posso imaginar, diante da forma como Tite trabalha e pensa o futebol e também pelas transformações que são necessárias no time brasileiro.

No gol, Diego Alves pode (e deveria) tomar a posição de Alisson e ser o titular. Nas laterais, Daniel Alves deve continuar na direita, mas acredito que Marcelo volte a ser o dono da esquerda. Nada contra Filipe Luís, que é bom jogador e fez excelente temporada no Atlético de Madrid, principalmente na Uefa Champions League, mas o jogador do Real Madrid, além de também ter sido ótimo em 2015/16 e inclusive conquistado a Champions, é superior e um dos melhores do mundo no setor.

(Foto: Getty Images)

Na zaga, Tite terá escolhas difíceis, mas acredito que Thiago Silva, acertadamente, voltará à Seleção. O choro na Copa de 2014 e a falha contra o Paraguai na Copa América de 2015 o deixaram marcado, mas ele é um dos melhores zagueiros do mundo e tem uma bela história de superação. Ele tem todas as condições de dar a volta por cima e o novo treinador do Brasil pode usar isso como motivação. Inclusive, com um técnico competente e que sabe armar defesas coesas, protegidas e compactas, o defensor do PSG pode render no seu melhor nível.

O companheiro de Thiago Silva deve ser Miranda, que não tem porque sair da equipe tupiniquim. Ele é ótimo zagueiro. No entanto, existem duas dúvidas. Marquinhos merece oportunidades, é mais jovem, excelente jogador e futuro dono da posição – curiosamente, ele deixou o Corinthians por não ter chances justamente com Tite. E a outra questão é a faixa de capitão: Neymar será o dono da braçadeira em seu retorno ou ela ficará com Miranda ou outro jogador? Não posso imaginar o que Tite fará nesse caso. Pessoalmente, penso que o craque do Barcelona não tem a mínima condição de ser capitão e está sobrecarregado com ela. Eu daria a faixa para Miranda, o manteria no time e teria Marquinhos como minha primeira opção para a zaga no banco. O comandante, porém, pode pensar de outra forma. Acho fundamental, no entanto, que ele tire a braçadeira de Neymar, fará bem para o próprio camisa 10 e para a Seleção. Deixar a faixa com ele pode ser um péssimo indício do treinador para não criar um atrito, que eu creio ser necessário.


(Foto: Lucas Figueiredo/MoWa Press)

No meio-campo, caso o time jogue no 4-1-4-1, Tite tem algumas opções. Creio que Casemiro será o titular absoluto como primeiro volante de forma indiscutível. Ele foi fenomenal na temporada do Real Madrid, sendo vital para a conquista da Champions League e dando equilíbrio aos Blancos, e tem tudo para fazer o mesmo em uma Seleção Brasileira bem armada, sendo importante na marcação e proteção à zaga, mas também na saída de bola com seus ótimos passes e lançamentos. Na frente do “Kaiser”, eu gostaria de ver um teste louco e ofensivo com Douglas Costa, Willian, Philippe Coutinho e Neymar.

Calma, eu sei que muita gente deve ter pensado: “quem vai marcar nesse time?”. Pois bem, os quatro, na última temporada, se destacaram em seus clubes também pela ajuda na marcação. Todos, inclusive, estiveram entre os líderes de desarmes, interceptações e roubadas de bola de suas equipes. Afinal, Douglas Costa foi comandado por ninguém mais ninguém menos que Pep Guardiola no Bayern de Munique, e amadureceu muito, enquanto Willian e Philippe Coutinho estão acostumados com a dinâmica intensa da Premier League e Neymar sempre precisou voltar para marcar no Barcelona.

Creio que é possível um time com os quatro em campo. Com um treinador capaz de organizar uma equipe compacta, com ótima movimentação e bem armada taticamente, juntar quatro jogadores de enorme talento, qualidade técnica, imprevisíveis, criativos e muito habilidosos daria muito certo e faria o Brasil ter um futebol ofensivo, vistoso, criativo e mais alegre, com muitas opções de jogadas e, no pior dos dias, quando o jogo coletivo não resolver, com muita qualidade individual para desequilibrar e decidir as partidas. Poucas equipes no mundo podem ter um quarteto desse calibre. Creio que daria certo, é claro, com a necessidade de um certo tempo para treinamentos e jogos, pegando o entrosamento necessário.

Para os mais cautelosos, porém, é possível armar um time com Douglas Costa, Luiz Gustavo, Fernandinho e Neymar na frente de Casemiro, ou com Douglas Costa, Willian (Coutinho), Fernandinho (Luiz Gustavo) e Neymar. Acredito que os jogadores de Bayern e Barça serão titulares absolutos na Seleção, e Fernandinho e Luiz Gustavo, que sobem muito bem ao ataque em seus clubes, além de serem ótimos marcadores, provavelmente vão render bem e melhor no Brasil com Tite no comando e uma equipe mais compacta, organizada e bem armada.

No caso de um 4-2-3-1, o time que imagino teria Casemiro, Fernandinho, Douglas Costa, Philippe Coutinho e Neymar. Fernandinho como titular porque ele já atuou algumas vezes como segundo volante no Manchester City e sempre se saiu bem. Creio que na Seleção, com Casemiro como primeiro volante, eles formariam uma ótima dupla. E Coutinho ao invés de Willian pelo entrosamento desde as seleções de base com Neymar, a criatividade e também agressividade de sempre armar jogadas buscando o gol e também finalizando de média e longa distância. Prefiro o jogador do Liverpool, apesar de também ser fã do meia do Chelsea. É claro, porém, que é gosto, e a equipe também seria fortíssima com Willian.

Para fechar a equipe, como puderam perceber antes, coloquei Gabriel, o Gabigol, no ataque. Isso porque acredito que Tite pensará no futuro e também porque o atacante do Santos merece ser titular do escrete canarinho. Ele foi bem nas vezes em que foi testado e já é decisivo há algum tempo no Peixe. Além disso, é a melhor opção para ser centroavante atualmente. Ele é ótimo finalizador, tem boa técnica, habilidade, se movimenta muito bem e está acostumado a jogar nessa função. Ricardo Oliveira é veterano e não deverá estar em seu melhor nível na Copa de 2018. Jonas foi fantástico na temporada pelo Benfica, mas atuou como segundo atacante, formando dupla com Mitroglou, que é o centroavante dos Encarnados. Entre os jovens da posição, o garoto também é a melhor escolha.

Com essas modificações e o competente Tite no comando, acho que o Brasil vai melhorar drasticamente, podendo render no alto nível esperado e brigar de igual pra igual com qualquer time do mundo. É cedo para fazer qualquer aposta, mas acredito em uma enorme evolução e modificação e em uma equipe que dê gosto de ver. É claro, porém, que é necessário ter calma para ver grandes mudanças. Tite e seus comandados têm muito trabalho pela frente, e precisarão de tempo, treinamentos e jogos para evoluir e adquirir entrosamento. O começo não deve ser fácil, mas as expectativas são ótimas.


Fonte: Goal.com

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