Artigo: Poemanalisando no divã por Fernando Moura Peixoto

[Nota: escrito em 1977, aos 31 anos, o texto é dedicado ao doutor José Hamilton Gonçalves de Farias, que infernizou a vida do autor, em 1974, tentando lhe incutir noções retrógradas, reacionárias e fascistas sobre a existência humana.

O eminente psicanalista e escritor Sérgio Telles, cearense radicado em São Paulo, afirmou que “as verdades do psiquismo não caducam”. As lembranças dos sofrimentos infligidos por nossos algozes também não.]

 

“É nos pacientes que o psicanalista se vinga de suas frustrações.”

– MÁRIO DA SILVA BRITO (1916 -), ‘Diário Intemporal’.

 

Em sua poltrona majestosa,

o ilustre doutor sentado

ostenta superioridade orgulhosa.

 

Os analisandos aqui deitados,

mil problemas te contando,

estamos todos arrasados.

 

Temos dificuldade de relacionamento

e te colocas sempre lá no alto,

como um deus no firmamento.

 

Nosso trauma é renitente

mas não te diz respeito,

pois julgas ser onipotente.

 

O divã devias experimentar

trocando conosco de lugar.

Tão logo o terapeuta saberia

que diferença nenhuma faria.

 

Sem trocadilho, sê paciente,

muito caro estamos te pagando.

Ah! Dinheiro não importa?

Então porque não te sentas

ali no banco da praça

e analisas todos de graça?

 

“Na verdade, escrever não deixa de ser a pública confissão dos próprios sentimentos, prejudicando e muito os psicanalistas, que deveriam, como corporação, propor ao Congresso uma lei vetando a escrita aos escritores, clientes potenciais e desperdiçados, que usam papel, máquinas e computadores no lugar lucrativo dos sofás de seus consultórios.” – ENRICO BIANCO (1918 – 2013)

 

“Antes de Freud nascer as pessoas eram mais alegres, as neuroses ainda não tinham sido descobertas.” – JORGINHO GUINLE (1916 – 2004)

 

 

Imagem e texto: Fernando Moura Peixoto (ABI 0952-C)

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