Comissão da Verdade de PE consegue mudança da certidão de óbito de vítima da tortura

A juíza da 11ª Vara de Família e Registros Públicos do Recife, Patrícia Rodrigues Ramos Galvão, proferiu sentença favorável a mudança da certidão de óbito do geólogo Ezequias Bezerra da Rocha. No documento, agora a verdadeira causa da morte será choque decorrente de traumatismo cranoencefálico e do tronco e ferimento penetrante de abdômen, respectivamente, por instrumento contundente e pérfuro-cortante. A ação foi proposta por membros da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara (CEMVDHC), que representam o irmão da vítima, Ednaldo Bezerra da Rocha. 

Ezequias morreu no dia 12 de março de 1972. O caso dele é um dos 51 que compõem a lista preliminar de mortos e desaparecidos políticos pernambucanos e que são alvo de análise da CEMVDHC. Os membros da comissão apresentaram um documento com resultado do laudo tanatoscópico realizado no corpo do geólogo, morto aos 28 anos de idade. O laudo tanatoscópico e a cópia do ofício de remoção do cadáver de Ezequias Bezerra da Rocha foram encontrados no acervo do Instituto de Medicina Legal (IML-PE). Os documentos desmentem a versão oficial de suposto tiroteio entre integrantes do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) e as forças de repressão do período. O laudo comprova que Ezequias foi submetido a torturas e não resistiu.

“Sabíamos que ele tinha sido sequestrado, preso e torturado, mas o detalhe da autópsia é que é extremamente traumático”, disse o irmão, Ednaldo Bezerra. “Com este laudo desmontou-se completamente a versão de que Ezequias teria sido sequestrado pelos companheiros na noite seguinte a de sua prisão. Ou seja, menos de 24h do momento em que foi detido, o estudante morreu em decorrência da violência que sofreu conforme comprova laudo do IML”, analisou Nadja Brayner, relatora do caso. 

No dia 11 de março de 1972, por volta de 01 hora da madrugada, Ezequias voltava para sua residência, no bairro de Casa Amarela, acompanhado da esposa, Guilhermina Bezerra, quando foi abordado por homens armados de metralhadoras. Ele teria sido levado à prisão (dependências do DOI-COEDI do IV Exército) e ficado em uma cela ao lado da companheira (hoje falecida), que contou em depoimento ouvir as torturas. Em seguida, o geólogo desapareceu. Para a esposa, os carcereiros contaram que não havia nenhum Ezequias preso lá. A versão divulgada é que ele teria sido libertado do cárcere por companheiros de militância.

No dia seguinte, um corpo com marcas de agressões e tortura foi encontrado na barragem de Bambu, no Engenho Massauassu em Escada. O cadáver tinha as mãos e pés amarrados de corda, envolto em uma rede também de corda, com uma pedra de 30 quilos atada ao corpo. A família jamais fez o reconhecimento.


Fonte: Diário de Pernambuco

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