Dá para entender porque time não foi seduzido por nova era Dunga

O maior problema de Dunga como técnico é sua incapacidade de gerenciar pessoas. Ele luta contra isso, mas às vezes é mais forte do que ele próprio. Faz parte do cardápio de sua segunda passagem pela seleção a coleção de suas desistências de tentar seduzir jogadores fundamentais.

No fiasco da Copa América de 2015, Dunga confiou a seleção a sete remanescentes do 7 x 1 contra a Alemanha. Estavam lá Jéfferson, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz, Neymar, Willian e Fernandinho. Na Copa América dos Estados Unidos, escalou o primeiro time inteiro sem nenhum titular dos 7 x 1. Só havia dez da campanha do Chile, um ano atrás.

Era um símbolo da renovação. Também um sinal de que Dunga perdeu um ano inteiro, montando e depois desmontando a seleção do vexame de 2015.

“Já deu!” foi a definição de Gilmar Rinaldi para explicar por que alguns jogadores deixaram o elenco. Gilmar disse isso também em resposta à percepção de que parte do grupo convocado até as partidas de março das eliminatórias não gostavam do trabalho tático de Dunga.

Em sua primeira entrevista coletiva nos Estados Unidos, Renato Augusto usou um exemplo antes utilizado por um dos cortados dos empates contra Uruguai e Paraguai pelas eliminatórias:

“Daniel Alves vem de uma cultura de ataque, Filipe Luís chega com o reflexo de defender. Para os dois saberem exatamente o que fazer, é preciso ter tempo e trabalho.”

Sempre foi assim para montar a seleção. Piorou o fato de que os jogadores não foram seduzidos pela filosofia desta era Dunga.

Era diferente em 2010. Kaká, Robinho, Júlio César, Felipe Melo… a geração da derrota para a Holanda na África do Sul gostava de Dunga. Morria por ele.

Naquela época, o auxiliar técnico era Jorginho, hoje técnico do Vasco. O novo assistente, Andrei Lopes, o Cebola, introduziu treinos modernos, ajudou a transformar o jogo veloz em troca de passes e posse de bola, mas isso não fortaleceu o ataque. Dunga sai de seu jogo mais recente com média de apenas 1,96 — em 2010 saiu com 2,13.

Outra diferença é que a geração atual cresceu ouvindo que o Brasil não tem mais bons técnicos. Eles trabalham com os mais famosos e bem pagos do mundo. Daniel Alves foi dirigido por Guardiola, Miranda por Diego Simeone, que também orientou Filipe Luís, já dirigido por José Mourinho, assim como Willian.

Treinar sempre a mesma coisa sem ver o trabalho sair do lugar mina o ambiente. Também assistir à troca do grupo pela impaciência com falhas técnicas (Jéfferson), disciplinares (Thiago Silva), ou pela percepção de que alguns não têm mais prazer em estar nesta seleção. David Luiz é um destes casos.

Nas três últimas convocações das eliminatórias, David Luiz disputou o primeiro jogo e foi dispensado do segundo, por lesão ou por cartão. Os seis cortes antes da Copa América também foram um indício de que muitos não faziam questão absoluta de estar nesta seleção. Gilmar Rinaldi mostrou o exame de Kaká para evidenciar sua impossibilidade de disputar o torneio.

Mas era notório que Kaká não gostou da entrevista coletiva em que Dunga deixou nas entrelinhas que convocaria Gabriel Jesus se este tivesse o visto para os Estados Unidos. Embora não fosse verdade, ficou a impressão para o público de que Kaká foi o regra três — ou menos do que isso.

Na Copa de 2010, Kaká fazia tratamento intensivo para se recuperar de lesão. Na véspera do corte, em Los Angeles, fretou um jatinho e viajou para San Francisco para assistir à final da NBA entre Golden State e Cleveland Cavaliers.

Dar a impressão de que Kaká era a terceira opção foi mais um erro de gestão de pessoas. Assim como tirar Jonas do time titular e escalar Hulk ao substituir Gabigol. Depois, nem colocar o ex-titular em campo, tendo duas substituições para fazer. Por que não fez: “O time estava encaixado”, disse Dunga depois da primeira derrota para o Peru em 31 anos.

Mas Dunga não é o culpado de tudo. O Brasil não levou 7 x 1 com ele no banco de reservas. Nos últimos seis anos, a seleção teve três técnicos e a CBF três presidentes. A falta de sequência de trabalho é evidente. A seleção se desmancha a cada eliminação. Só sete sobreviventes de 2010 chegaram à Copa América de 2011. Só nove de 2011 foram à Copa das Confederações de 2013. Apenas nove da Copa do Mundo disputaram a Copa América em 2015. Sobreviveram dez para o fiasco nos Estados Unidos.

A cada torneio oficial, a seleção troca em média 15 jogadores.

É como se o paciente morresse a cada final de competição. Não morre. Está doente. Mas vai morrer se ninguém aplicar o remédio na dose correta.


Fonte: Folha.com.br

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