Editorial: Julio Verne, Goiana e o futuro

Em 1902, o escritor Julio Verne estava velho e cego, mas não havia perdido o seu dom especial, o de profeta da ciência. O autor de obras como Cinco semanas em um balão e Vinte mil léguas submarinas tinha uma queda por meios de transporte e já havia previsto o domínio do automóvel em sua história A casa a vapor, publicada originalmente em 1880.

No início do século 20, Verne ditou suas previsões que foram impressas para o jornal World, de Nova York (EUA), e mais uma vez o carro aparecia como uma maravilha do mundo moderno. No dia 29 de junho de 1902, o Diario de Pernambuco compartilhou com seus leitores as ideias do francês visionário.

Julio Verne previa que as cidades seriam menos congestionadas, barulhentas e sujas sem os cavalos nas ruas. Desta vez ele se enganou. No mesmo ano, em 10 de outubro, o Diario registrou que Goiana – a cidade que hoje abriga a montadora da Fiat Chrysler – já possuía um automóvel de 12 lugares, alternativa para o trem e a carruagem em direção ao Recife. Só não havia estradas.

Um dos primeiros ônibus do Brasil e um dos primeiros veículos a circular no país, o carro de Goiana imprimia a impressionante velocidade de 30 quilômetros por hora. Era um modelo Panhard-Levasseur, importado de Paris que desembarcou no Porto de Santos e, em seguida, foi levado ao Porto do Recife.

Ao longo do século 20, o  automóvel dominou Pernambuco. No estado, a frota hoje é de 2,8 milhões de veículos, sendo 1,3 milhão na Região Metropolitana e 680 mil no Recife. Depois de um freio no consumo por causa da atual crise econômica, o Detran voltou a registrar crescimento no número de emplacamentos. Contribui para isso campanhas de financiamento como a promovida recentemente pela Caixa Econômica Federal.

O setor automotivo é um dos maiores empregadores do país. Somente a montadora de Goiana, que produz veículos Jeep, tem nove mil trabalhadores e uma capacidade de produção total de 250 mil veículos/ano.
Neste século 21, a experiência de veículos compartilhados – como o Carro Leve, os elétricos do Porto Digital e o próprio Uber – sinaliza para uma mudança definitiva. Haverá menos poluição, barulho e congestionamentos. Pensando bem, Julio Verne tinha razão.


Fonte: Diário de Pernambuco

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