Editorial: Um crime, a ditadura e o padre Henrique

O prefeito Geraldo Julio inaugurou ontem busto do padre Antonio Henrique Pereira da Silva Neto, uma das vítimas da violência da ditadura militar.  Nesses dias em que vemos no país inteiro vozes que procuram minimizar os danos causados por aquele regime, a ponto até de proclamar que danos não houve, o ato do prefeito assume importância que vai muito além de uma homenagem rotineira. 

Mais do que isso, trata-se de uma tomada de posição. Um gesto que marca território e faz jus à história libertária de Pernambuco. A postura ultrapassa os limites dos partidos – é uma luta de toda a sociedade. Tanto que o ato de ontem foi realizado em conjunto com a Comissão Estadual da Memória e Verdade, e com a participação da Arquidiocese de Olinda e Recife. O prefeito Geraldo Julio é do PSB, mas fosse ele de qualquer outro partido estaríamos aqui fazendo o registro com idêntico destaque, porque merecido.

Padre Henrique – como era conhecido – foi torturado e morto por algozes que pretendiam com o crime abominável atingir também o então arcebispo de Olinda e Recife, nosso inesquecível Helder Camara.  Tinha 29 anos. O busto inaugurado fica na Praça de Parnamirim.  A escolha do local não foi aleatória – este foi o último logradouro em que padre Henrique foi visto com vida, em 26 de maio de 1969. No dia seguinte seu corpo foi encontrado em um terreno baldio da Cidade Universitária, com marcas de tortura e três tiros na cabeça.

A Comissão da Verdade esclareceu o crime e apontou os nomes dos envolvidos: dois investigadores da Polícia Civil de Pernambuco; um promotor público, que na época era diretor de Investigação da Secretaria de Segurança Pública do Estado; um parente do promotor e um universitário. Todos participaram do sequestro, da tortura e do assassinato do padre. O relatório da Comissão da Verdade desmentiu o relatório elaborado na época por uma comissão formada pela ditadura, que disse ter sido o assassinato um crime comum, cometido por toxicômanos.

Há quem considere que o passado é algo que pertence apenas aos livros de história. O busto inaugurado ontem, em um local público, é uma das melhores maneiras de dizer que não. O passado vive entre nós, e pertence à nossa vida tanto quanto a luta do presente e a esperança do futuro.


Fonte: Diário de Pernambuco

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