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Eduardo Neves: Elogio da arte

Por Eduardo Neves 

Filósofo e professor

epcneves@gmail.com

A inteligência humana não se limita à razão que calcula e sintetiza, avalia e compartimenta, em pastas analíticas, as coisas existentes. Além das inteligências instintiva e intuitiva, a razão teórica nos leva a refletir melhor sobre o mundo, a razão prática nos conduz a agir melhor no mundo, e a razão poética nos faz criar melhor o mundo.

O homem terráqueo encontra-se, há muito, na busca pela conquista de níveis cada vez mais aprimorados de conhecimento e moralidade. É de se considerar, contudo, que, na escola planetária, devemos promover atividades culturais visando, igualmente, o desenvolvimento de nossas potências artísticas. Tanto quanto homens de verdade e homens de bem, precisamos nos tornar homens de gênio. 

O homem genial é aquele cuja inteligência artística alcançou níveis perfeitos da técnica criadora. Ele cria sua arte como a mais profunda exteriorização das suas ideias sobre o belo. Através dela, o artista participa das belezas eternas, expressando impressões que abrem caminhos para o “além físico”, e que têm o potencial de arrebatar, para a união com o infinito das significações, aqueles que as contemplam. É a kátharsis aristotélica, que purifica e liberta.

 

O gênio é a síntese da tensão existencial entre a unidade do Belo e a multiplicidade das belezas, em quem eternidade e temporalidade se casam para dar à luz aos mais profundos floreios espontâneos. Não são neuróticos ou anormais, mas criaturas sui generis, muitas vezes incompreendidas pelas pessoas do seu tempo. Em virtude da posição psíquica privilegiada, que participa mais da eternidade do que da temporalidade, o artista, não se submetendo ao convencionalismo social, acaba por tornar-se um estranho ao seu próprio meio.

 

Nada possuindo de insano, nos corações dos puros artistas palpita a chama da Beleza, da Bondade e da Verdade eternas, cujas expressões enriquecem a cultura social. Espíritos de escol sempre ocuparam o espaço artístico no mundo, tanto na literatura quanto no teatro, igualmente na música e na dança, bem assim como na pintura e na plástica. As visões espirituais de Dante, as peças naturalistas de Sófocles, as melodias imortais de Chopin, o balé eterno de Tchaikovsky, os céus infinitos de Michelangelo, e tantos outros.

Tais exemplos de vida poética revelam que a arte não consiste em fantasias da imaginação de ociosos, mas constitui expressão do mundo impressivo, das recordações íntimas do mundo inteligível, das inspirações profundas do mundo imperecível, e das visões sublimes do mundo sensível. A arte da sociedade é, pois, de se fomentar, porquanto traduz elevada expressão de ideias que recompõe, entre lágrimas e risos, as tragédias e comédias da existência espiritual. 


Fonte: Diário de Pernambuco

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