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Em última cerimônia pública para 15 mil pessoas, Ali recebe homenagens

Muhammad Ali tinha um plano em vida, “que as pessoas se amem tanto quanto elas me amam”, e outro para sua morte. Chamava de “O Livro”.

“Estamos aqui para fazer o trabalho do jeito que quero”, disse em reunião para discutir seu funeral , segundo seu porta-voz, Bob Gunnell.

Nos últimos anos de vida, o boxeador pôs no papel instruções para sua despedida, quando não passava os dias em sua velha cadeira de couro marrom, assistindo ao noticiário e a antigas lutas suas.

Queria o memorial numa arena em sua Louisville natal, em Kentucky. Líderes de várias religiões deveriam discursar, mas sem desonrar a fé que optou para si, a muçulmana, aos 22 anos. A cerimônia precisava ser aberta aos fãs, não só a convidados VIP.

Dos 15 mil ingressos distribuídos gratuitamente para seu funeral no Centro KFC Yum!, nesta sexta (9), sete dias após morrer, é verdade que algumas centenas foram para “lugares reservados”.

Com telões espalhados em outros cantos da cidade, o serviço teve presenças ilustres.

O ex-presidente Bill Clinton, amigo de Ali desde seus tempos de Casa Branca, enalteceu o “homem que decidiu escrever sua própria história” ao “se recusar a se tornar uma vítima”.

Clinton lembrou dos tempos de menino, quando “não conseguia se decidir se este cara é um boxeador ou uma bailarina”, tão ligeiro era.

Já presidente, presenciou Ali carregar a tocha olímpica em 1996, superando a tremedeira do mal de Parkinson já agravado. Essa metade da vida, disse, “foi ainda mais importante”.

Billy Crystal virou amigo em 1974, após estrear na TV com uma paródia de Ali, que gargalhava da plateia. “Ele era perfeito, lindo… E essas eram palavras dele”, afirmou.

O ator repetiu a imitação na arena, relembrando o funeral do jornalista esportivo Howard Cosell (1918-1995), atendido por ambos.

Ali lhe sussurrou ao ver o caixão fechado: “Você acha que ele está usando peruca?”.

“Acho que não”, Crystal respondeu. O amigo insistiu: “Então como Deus vai reconhecê-lo?”.

Will Smith, que o interpretou na cinebiografia “Ali”, foi um dos oito homens que carregaram o caixão.

Rabinos, reverendos, imãs, chefes indígenas, líderes budistas e um senador mórmom também falaram, além de membros da família do homenageado, o jornalista esportivo Bryant Gumbel e Valerie Jarrett, principal assessora da Casa Branca.

Ela leu uma carta do presidente Barack Obama. “O homem que celebramos hoje não é apenas boxeador, agitador, muçulmano, negro, um garoto de Louisville. Sequer era simplesmente o maior de todos os tempos. Ele era Muhammed Ali. O todo é maior do que a soma das partes.”

Como se não bastasse, “Ali também era bonitão”. Palavras do presidente.

Presentes, o mandatário da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o rei Abdullah II, da Jordânia, a princípio falariam ao público, mas foram substituídos, disse o porta-voz da família, sem dar mais detalhes.

A viúva Lonnie Ali, 59, com quem Ali foi casado por 30 anos, após três outras mulheres, foi aplaudida de pé.

Com chapéu preto que lhe cobria os olhos, ela agradeceu a Joe Martin (1916-1996), o treinador amador que acolheu seu marido.

Haviam roubado a bicicleta vermelha que o magrelo Classius Clay, 12, ganhara de Natal do pai, e Joe o convenceu a aprender a brigar em vez de tentar acertar as contas com o ladrão.

Lonnie recordou que as brigas do marido não se limitavam ao ringue. Em 1990, viajou ao Iraque para defender a soltura de 15 americanos, feitos reféns na guerra do Golfo.

À época, já debilitado pelo mal de Parkinson, foi ironizado pelo jornal “The New York Times” pela “turnê da boa vontade”.

“Quando Muhammad não gostava das regras, ele as reescrevia”, da mudança de religião à do nome, disse a viúva. “Ele indicou que queria que usássemos sua vida e sua morte como um ensinamento.”

“Você sacudiu o mundo em vida, e agora faz o mesmo na morte. Ninguém se compara a você, papai”, disse a filha Rasheda.

Num palco decorado com flores e duas bandeiras (uma americana, a outra olímpica), os oradores revezaram palavras engajadas, memórias e elegias a Ali.

O rabino Michael Lerner conheceu o lutador nos anos 1960, quando os dois eram porta-vozes contra a guerra do Vietnã.

A voz política ainda é firme. Lerner criticou Wall Street, a ocupação israelense do Estado palestino, a prisão de negros por posse de maconha, quando “brancos se safam disso o tempo todo”.

“Não vamos tolerar políticos ou qualquer um rebaixando muçulmanos”, disse, na condição de “representante do povo judeu”. Era uma crítica elíptica ao virtual presidenciável republicano, Donald Trump, que já propôs banir adeptos da fé de Ali nos EUA. “Sabemos como é ser diminuído.”

Por fim, referiu-se ao próximo presidente dos EUA como “ela”, numa declaração de apoio à democrata Hillary Clinton, que compete pelo cargo já ocupado pelo marido nos anos 1990. Da plateia, Bill sorriu.

“Não dê a um adolescente um telefone, e a um pastor um microfone”, brincou o imã Zaid Shakir, apresentador do evento, após a fala do reverendo Kevin Cosby, de Louisville.

Cosby lembrou que por séculos instituições americanas tentaram infundir no negro “um senso de inferioridade”. Nem o hino americano escapa, ao exaltar “os homens livres” quando a escravidão ainda era a lei.

E, quando chegou o momento de dizer “sou negro e com orgulho”, na escalada dos direitos civis, Ali foi além: “Sou negro e sou lindo”. “E isso não é um oxímoro”, afirmou Cosby.

O senador republicano Orrin Hatch (Utah), ex-bispo mórmon para quem Ali já fez campanha, representou sua igreja. Para ele, as diferenças religiosas “fortaleciam a amizade, e não a definia”.

O Venerável Utsumi e a Irmã Denise, com a típica veste budista laranja, cantaram em sânscrito.

Qubilah Shabazz –que em 1965 testemunhou o assassinato de seu pai, Malcolm X– disse “obrigado” em várias línguas, do português ao árabe, reverenciou os nove filhos do lutador e a “irmã” Lonnie, a viúva, na primeira fila.

“Meu pai o amava como um irmãozinho”, disse Shabazz.

Ela lembrou da amizade entre Muhammad Ali e Malcolm X, que se conheceram após uma luta do boxeador, na época ainda chamado Classius Clay —chegou a dizer que se rebatizaria “Classius X”.

Segundo Shabazz, um dos maiores arrependimentos de Ali era não ter feito as pazes com Malcolm antes de sua morte, um ano após brigarem por desavenças políticas.


Fonte: Folha.com.br

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