Funeral muçulmano de Ali tem ingressos ilegais de até R$ 350

Quando Classius Clay se converteu ao Islã, em 1964, e virou Muhammad Ali, um jornalista esportivo o acusou de transformar o boxe “num instrumento de ódio em massa”.

Não é como Nasir Cornish, 9, o vê. “Ele é muito engraçado e o boxeador mais legal do mundo”, escreveu ao lado do desenho do ídolo. A colega Taniya Payne, 10, o agradeceu “por me encorajar um montão”.

A mensagem de tolerância dos alunos da quarta série em Baltimore, palco de violentos protestos após a morte de um jovem negro pela polícia em 2015, foi levado por Helena Maria, 52, ao jenazah (serviço funerário muçulmano) de Ali.

Maria conta que ficou amiga do ex-lutador nos anos 1990 e o viu pela última vez em fevereiro. “Ele queria muito ir ao Superbowl.”

Não foi e, com saúde debilitada, morreu meses depois, na sexta (3), aos 74, por infecção generalizada, após longa batalha contra o mal de Parkinson.

Centenas de pessoas passaram pelo Freedom Hall nesta quinta (9), em Louisville, cidade natal de Ali, para uma cerimônia com cânticos em árabe, homens de túnica e mulheres com véu no cabelo.

Muitos tentam tirar selfies com o caixão ao fundo. Cravejada de cristais (“falsos”), a capa do iPhone de Lauryn Shahi, 31, combinava com sua burca prateada.

Ela brinca que o marido era o contrário do que Ali certa vez disse ser: “Jovem, lindo, rápido e impossível de derrotar”.

Um letreiro eletrônico exibe o mote que o guiou nos ringues, “flutuar como uma borboleta, picar como uma abelha”, enquanto um cavalo trota com um roupão branco sobre o lombo, “Ali” bordado em vermelho.

No mesmo ginásio, ele derrotou pesos-pesados como o veterano Alonzo Johnson (já campeão olímpico, Ali foi vaiado apesar da vitória, após performance pouco inspirada) e LaMar Clark, um ex-criador de galinhas invicto há 44 lutas e que se aposentou aos 27, depois de perder e ter o nariz quebrado pelo oponente.

A reunião precede outra ainda maior, marcada para esta sexta (10).

Will Smith, que o interpretou na cinebiografia “Ali”, ajudará a carregar o caixão no dia, que terá discursos do ex-presidente Bill Clinton e de Billy Crystal.

O ator estreou na TV com uma imitação do boxeador, 42 anos atrás, e os dois eram amigos desde então. Em 2010, contou que Ali gostou tanto que passou a chamá-lo de “irmãozinho”.

O porta-voz Bob Gunnell afirmou que o campeão começou a planejar seu funeral há uma década. A ideia era arquitetar um “programa inclusivo para todos”.

“O grande Ali disse: quando morrer, não comprem tíquetes por mim”, diz o taxista Ahmed Shafi, 34, que emigrou da Somália há dez anos.

O mercado dos cambistas, contudo, está agitado. Distribuídos gratuitamente, ingressos para os dois eventos fúnebres superavam os US$ 100 (cerca de R$ 350) em sites como Craiglist.

A organização do evento afirmou repudiar a transação, que é ilegal.

O reverendo Jesse Jackson, parceiro de Martin Luther King (1929-1968) na luta dos direitos civis, afirma à Folha que Ali “preferiu dignidade a dólares”.

Diz que, “em vez de faturar milhões”, tomou decisões que chocaram um Estados Unidos conservador, às voltas com a segregação racial.

Uma delas foi a recusa em servir ao Exército americano, em plena guerra do Vietnã.

Ali respondeu à convocação das Forças Armadas em 1967, mas recusou o sanduíche de presunto oferecido aos recrutas e não reagiu quando um oficial chamou por “Classius Marcellus Clay”, seu nome de batismo.

Ele, que dizia não ter “nenhum problema com os vietcongues”, pediu dispensa por ser um “ministro da fé islâmica”. Ganhou pena de cinco anos de prisão (que não chegou a cumprir) e perdeu o título mundial.

Ainda Cassius Clay, cresceu numa Louisville que nem sempre foi afável ao “preto olímpico” –como às vezes era chamado, após ganhar uma medalha de ouro na Olimpíada de Roma, em 1960.

No Centro Muhammad Ali, que fundou há 11 anos, uma ala destaca frases preconceituosas –e comuns mesmo após a assinatura da Lei dos Direitos Civis, que proibiu espaços públicos “exclusivos para brancos” em 1964.

“Vejo o preto pisando em meus direitos. Ele está pedindo mais do que é justificável”, disse um diretor financeiro em 1969, na Califórnia.

O carpinteiro Muhammad Abid, 29, acredita que Ali levou à lona vários preconceitos de sua época, mas “a gente ainda recebe uns sopapos”.

“Sou negro e muçulmano. E não sou do Estado Islâmico! Juro! Não vou explodir suas criancinhas! Talvez eu roube seu sorvete de baunilha se estiver muito quente, mas vou me arrepender e te pagar dois sorvetes em seguida”, brinca.

O casal afro-americano Vernell, 68, e Rhonda Strawn, 68, está há oito horas sob o sol forte do Kentucky. Vestidos de segurança, são os “guardiões” de um quadro de Ali “mais famoso do que a Monalisa”, segundo ela.

“E mais moreno também”, diz o carpinteiro Abid. “E isso é lindo, espero que o mundo saiba. Ali lutou para isso.”


Fonte: Folha.com.br

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