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Futebol é coisa de viado

Assunto que rendeu no submundo do futebol, e ainda renderá, foi a exposição do caso entre um torcedor do Corinthians e outro homem. A ex-namorada teria vazado trocas de mensagens e fotos, que revoltaram a Gaviões da Fiel.

Em áudios e comentários em comunidades da torcida na internet, muitos defendiam que o torcedor “tinha de ter tomado um pau bem dado” e que o caso iria “arrastar o nome da entidade”. A maioria pedia o afastamento do rapaz da diretoria e sua expulsão da organizada, o que aconteceu.

Virou um prato cheio para as torcidas adversárias. Há uma profusão de memes homofóbicos e o comentário mais comum em posts sobre qualquer assunto é que “futebol não é coisa de viado”.

Futebol é, sim, coisa de viado. E é inacreditável que tenhamos de discutir isso em 2016. Mas vamos encarar essa verdade inconveniente. Somos uma sociedade preconceituosa e machista.

Estádios e torcidas são antros de disseminação de preconceito e intolerância, com episódios semanais que se desenrolam sob os olhares de milhões de torcedores e a conivência da imprensa, que raras vezes diz um “ai” diante dos impropérios captados por câmeras e microfones.

Nos indignamos (ufa!) quando um jogador é chamado de macaco, mas achamos graça quando a torcida grita “bambi do caralho, lugar de bicha é dentro do armário” ou “boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse Richarlyson que tem medo de boceta”. Achamos normal chamar em coro um jogador de bicha, na tentativa de tirar sua concentração.

A Fifa puniu recentemente cinco federações (Argentina, Chile, Peru, México e Uruguai) por causa de insultos e gritos homofóbicos durante jogos das eliminatórias da Copa de 2018. Depois disso, alguns jogadores da seleção mexicana gravaram um vídeo para estimular a torcida a ter outro tipo de comportamento. É pouco, mas um começo.

O foco maior de conscientização deveria ser as torcidas. Não adianta discutir a quantidade de jogadores de futebol que permanecem no armário, um direito deles, se a intolerância não for combatida em sua raiz. E a principal questão é a ideia ultrapassada e perigosa de que futebol é coisa de “homem”.

Futebol é um esporte. Tem entre seus torcedores todo tipo de gente, inclusive homens homossexuais. Infelizmente, o preconceito é disseminado mesmo entre quem se considera livre de julgamentos.

Um amigo gay conta que o fato de ele adorar o esporte e ser fã fervoroso é motivo de “surpresa”. Os amigos acham “divertido” contar que ele é “gay, mas gosta de futebol”. Outro me disse que não é chamado para ir ao estádio porque os amigos têm medo de que ele dê “pinta” e se meta em confusão.

O inverso também acontece. Os homens que não têm o menor interesse pelo esporte são olhados com desconfiança por não terem um time do coração, como se isso fizesse parte do DNA masculino.

Pouco antes da punição ao torcedor que teve sua relação com outro homem revelada, a mesma torcida havia emitido um comunicado orientando os torcedores a substituir o grito de “ôôô, bicha” por “vai, Corinthians”. Uma atitude nobre para acabar com a cultura homofóbica dentro do estádio, mas que agora mostra que o único intuito era evitar punições. E assim seguimos chafurdando na ignorância.


Fonte: Folha.com.br

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