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Moradores de rua fazem ato no centro de SP para lembrar mortos pelo frio

Moradores de rua e militantes de movimentos sociais fizeram nesta quinta-feira um ato no centro de São Paulo para lembrar as seis pessoas em situação de rua que morreram este mês na cidade, provavelmente em decorrência do frio. Segurando cruzes e faixas, eles lamentaram as mortes e pediram moradias e direito à cidadania. O ato começou na Praça da Sé e, por volta das 19h30, os manifestantes seguiram em caminhada pelo centro da capital até a sede da prefeitura.

“A Praça da Sé é um local onde há muitas pessoas em situação de rua. Aqui aconteceu o massacre de 2004 [quando sete moradores de rua foram assassinados] e esse massacre continua”, disse o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua.

Morador de rua há 16 anos, o pedreiro Dino José, 59 anos, costuma viver embaixo do Viaduto Alcântara Machado, na região do Brás, centro de São Paulo, e disse que “está sendo difícil” enfrentar o frio nos últimos dias. “Tenho minhas estratégias [para enfrentar o frio]. Todo homem de rua tem. O que eu faço? Procuro cobertores, doações”, contou. “Estamos aqui lutando por um direito que é nosso. Sou um homem de rua, sim senhor. Mas tenho direito à moradia e isso está lá na Constituição. Luto por esse povo e amo esse povo”, disse, chorando.

Higienização
Mais cedo, o prefeito Fernando Haddad negou, em entrevista coletiva, que haja uma higienização em curso da população em situação de rua na cidade.

O padre Júlio, no entanto, reafirmou a crítica ao prefeito de que está havendo retirada de pessoas da rua de forma arbitrária. “O que falta ao prefeito é conversar diretamente e francamente com a população de rua, não com representantes. Como não rola higienismo? É só ir na Praça 14 Bis e ver todo dia o que acontece lá, na Mooca, na Vila Leopoldina. A GCM [Guarda Civil Metropolitana] está junto e dá apoio a essas ações chamadas de rapa, de zeladoria urbana, onde pilham tudo o que a população de rua tem. Levam documentos, remédios. Eu já presenciei”, disse o padre. “Tirar o cobertor de rua de uma pessoa que está na rua é indecente, antiético, é imoral, é tortura”, acrescentou.

Sobre a denúncia de que agentes da Guarda Civil Metropolitana estariam retirando colchões e outros objetos pessoais de moradores de rua, o prefeito disse que o caso está sendo investigado e que vai lançar um decreto, no sábado, com procedimentos que serão adotados pelos órgãos da prefeitura na abordagem a pessoas em situação de rua.

“O prefeito negou [que a GCM esteja retirando colchões]? Negou à toa. É exatamente isso que eles estão fazendo. Vejo isso todos os dias. Tiram colchões, cobertores, documentos. De mim não tiraram ainda não. Mas tiram de todos”, disse o morador de rua Dino José.

“O que tem que ficar claro é que não é papel da GCM fazer policiamento ostensivo em cima da população de rua. Quem deve fazer a aproximação e o estabelecimento de vínculos é a assistência social e a saúde”, disse o padre Júlio Lancellotti.

Mortes
Na entrevista de mais duas horas, Haddad também disse que a causa das mortes dos seis moradores de rua não está confirmada e que podem não estar relacionadas com o frio.

Segundo o padre Júlio, moradores de rua não morrem somente nas épocas de frio e este ano a média é de quase uma morte por dia, até agora.

“Falei agora a tarde com um diretor do IML e ele deixou bem claro que a hipotermia não é uma patologia. A pessoa tem outras doenças de base. E a hipotermia eleva, por exemplo, em 30% a incidência de infarto na população em geral. Imagine isso numa população que está no congelador. Então dizer que nessas madrugadas frias o frio não teve nada a ver? O frio foi um catalisador e foi um facilitador de que as pessoas entrassem em hipotermia”, disse o religioso.

“Seria uma coincidência muito grande que a pessoa tenha morrido de infarto, de madrugada, na rua, deitada em cima de um papelão com um cobertor que não esquenta”, acrescentou.

Para o padre, para evitar as mortes das pessoas em situação de rua, seriam necessários cuidados permanentes de saúde. “As pessoas que estão nas ruas são muito sujeitas à tuberculose, à pneumonia, problemas dermatológicos e odontológicos e muitas patologias que se agravam com a exposição na rua. É preciso que os consultórios nas ruas estejam bem atuantes, como estão”.


Fonte: Diário de Pernambuco

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