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'Ninguém me ama, não amo ninguém'; leia entrevista histórica de Tyson

Era uma tarde de sexta-feira, 11 de novembro de 2005, quando o repórter Eduardo Ohata, blogueiro do UOL , chegou eufórico à Redação. Havia entrevistado Mike Tyson, que estava passando uns dias bem loucos em São Paulo.

Figura das mais carismáticas da Redação, Ohata divertia-se contando histórias da entrevista, rodeado por uma pequena multidão, quando eu, então responsável pela edição do caderno Esporte, fui chamado e informado de que faríamos parte da chamada “pré-rodagem”. Traduzindo o jargão: nosso fechamento seria mais cedo do que o habitual.

Não foi fácil cumprir o prazo industrial. Era preciso fazer Ohata se concentrar em ouvir a gravação e começar a escrever a entrevista, para desespero de todos nós que queríamos continuar ouvindo todos os detalhes da noite anterior. Mesmo tirar o áudio foi um processo intermitente; Ohata se empolgava a cada trecho. Não era sem motivo: ele havia feito uma entrevista que provavelmente está entre as mais interessantes já publicadas pela Folha. O resultado está abaixo.

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Ninguém me ama, e eu não amo ninguém, diz Tyson, que chora
EDUARDO OHATA
DO PAINEL FC

‘Ninguém me ama, não amo ninguém’; leia entrevista de Tyson à Folha

“Ninguém me ama. Eu não amo ninguém.” Foi assim que o norte-americano Mike Tyson, sintetizou em entrevista à Folha seu comportamento beligerante, despertado na visita a São Paulo.

Folhapress
Entrevista exclusiva de Mike Tyson à Folha em 2005
Entrevista exclusiva de Mike Tyson à Folha em 2005

Durante o curso da entrevista, concedida na suíte presidencial do hotel em que o americano está hospedado, Tyson justificou seu comportamento ao afirmar ser um cara legal, que nunca estuprou ou matou. Vestido com camisa branca e calça jeans, acrescentou que às vezes quer ficar só.

O histórico de suas confusões é extenso. Vai desde um roubo que resultou em sua prisão aos 12 anos, passa por um período na prisão após ser condenado pelo estupro de Desiree Washington (que ele nega), até chegar a agressões a fotógrafos, em Cuba, e a um cinegrafista que o filmava em uma boate no meio de semana.

Após prestar depoimento ontem à tarde no Fórum Criminal da Barra Funda, o ex-lutador foi intimado a comparecer a nova audiência em março de 2006.
Nos 35 minutos em que durou a entrevista, o campeão mais jovem da história dos pesados, que em dado momento ficou com os olhos marejados, pediu por três vezes que fosse chamado de Mike.

Em meio à bagunça de malas abertas no chão de sua suíte, um pacote de camisinhas sobre uma cadeira e uma mesa coalhada de papéis, “Iron” Mike, que tem seis filhos, afirmou que não gostaria que eles fossem como ele. Disse não desejar que eles brutalizassem ninguém, como aconteceu com ele próprio quando criança.

Simpático, aproveitou a ausência de jornalistas para carregar crianças no colo, assinar autógrafos e, pacientemente, posar para fotos com visitantes e hóspedes do hotel no qual está hospedado, no bairro de Cerqueira César.
Tyson estava tão atencioso, que recebeu com bom humor duas provocações. Na primeira, ao ver a reportagem da Folha, perguntou: “O que está fazendo aqui?”

Riu ao ouvir a resposta: “Estou aqui para incomodar você mais um pouquinho”. No dia anterior, chegara até a ameaçar agressão.
Depois de concluída a entrevista, já no lobby do hotel, recebeu com perplexidade “uma última questão”: “Como é a potência de um soco de Mike Tyson?”. Sorrindo, começou a fazer movimentos de sombra (simulação de luta), quando a reportagem apontou o punho na direção de seu rosto.
Com cartel profissional de 50 vitórias, 44 delas por nocaute, e seis derrotas, Tyson reafirmou que está aposentado. “Não consigo fazer as mesmas coisas de antes e não tenho mais “coração”, fome, para participar de combates”, disse.

“Não culpo ninguém, nem Don King, pelo que aconteceu comigo [em termos financeiros]. Nós lutadores deixamos toda a responsabilidade para os outros”, disse.

“Nós, campeões dos pesos-pesados, somos uns idiotas. Morremos na miséria, sem amor, sem respeito. Veja o que aconteceu com John L. Sullivan, com Sonny Liston”, completou, ao demonstrar conhecer a história do boxe.

Tyson diz não se arrepender por tumulto com cinegrafista e se mostra feliz por incidente não ter ocorrido anos atrás

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“Antes, quebraria a câmera em sua cabeça”
DO PAINEL FC

Mike Tyson diz não se arrepender de ter se envolvido no episódio no qual é acusado por um cinegrafista de agressão. Ressalta estar “”feliz por isso não ter acontecido há três, quatro anos atrás, pois teria quebrado a câmera em sua cabeça”.

Folha – Você acha que, como figura pública, deve mesmo ser tão agressivo [com os jornalistas]?
Mike Tyson – Isso é besteira.

Folha – É difícil entender o fato de você afirmar que não é feliz. Você é um ex-campeão mundial, não deveria se orgulhar? Muita gente gostaria de ser como vocês.
Tyson – Ser como nós? Nós pesos-pesados somos idiotas. Nosso fim? Acabamos falidos, esquecidos, sem o respeito de ninguém, sem amor. Veja o caso de grandes lutadores, como John L. Sullivan, Sonny Liston e outros que ao morrerem pobres, não tinham o respeito de ninguém… Pessoas como você [com estudo] é que tiram vantagem de nós. Não amo mais ninguém, tiraram meus filhos. Você se aproxima de mulheres que dizem que o amam, mas só pensam em si mesmas.

Folhapress
Entrevista exclusiva de Mike Tyson à Folha em 2005
Entrevista exclusiva de Mike Tyson à Folha em 2005

Folha – E seus filhos?
Tyson – Eles são maravilhosos. Não quero que meus filhos sejam como eu. Não quero que brutalizem ninguém, que foi o que aconteceu comigo. Quando era pequeno os maiores costumavam encher meu saco. Usei óculos durante um período. Eles faziam assim [tira os óculos do repórter] e jogavam em um cano. Foi aí que meu interesse pelo boxe nasceu. Via aqueles caras na TV, como Ali, e dizia para mim mesmo que queria ser como eles.

Folha – O que você acha de sua ex-mulher, Robin Givens?
Tyson – Não a amo mais. Mas, mesmo com 40 anos, ela ainda é linda. Foi interessante fazer sexo com ela, ela era diferente.

Folha – Você não se sente feliz por ter unificado o título dos pesados? É um feito para poucos.
Tyson – Não me importa. As pessoas não me amam, não tenho lugar para ir, [nós ex-campeões] acabamos virando um pedaço de merda. Pessoas às vezes gostam de você por qualidades que você próprio odeia. [Aponta para o abdômen, por sobre a camisa, no local onde está a tatuagem de Che Guevara]. Ele tinha problemas de saúde, asma. Em certo ponto quase não podia caminhar, mas perseverava, tinha força de vontade e não podia ser detido. E esse homem foi o pai do terrorismo. Você é descendente de quê?

Folha – Japoneses.
Tyson – [Segura a mão do repórter] o imperador do Japão na época da Segunda Guerra Mundial tinha muita personalidade e determinação. Porém ele era diabólico, ambicioso. Vê? Para mim, um grande homem é aquele que busca a paz, não toma vantagem de ninguém, tem responsabilidade e cria sua família e que faz aos outros o que deseja para si próprio. Você é gay ou hetero?

Folha – Hetero.
Tyson – Solteiro, casado, filhos?

Folha – Não, mas quero ter.
Tyson – Então terá a chance de mostrar que é um bom homem, criando bem seus filhos.

Folha – Posso insistir em uma questão?
Tyson – A entrevista é sua.

Folha – Você tinha os cinturões, as mulheres que queria, dinheiro. Não tem orgulho disso?
Tyson – Você disse bem. Tinha tudo isso. Vocês vivem no passado. Não faça isso, mova para o futuro, ou o futuro vai destruí-lo.

Folha – E quando você começou a viver no futuro?
Tyson – Há pouco tempo, há alguns dias. Ou melhor, há alguns meses, no máximo.

Folha – Na quarta, você ameaçou me atacar se eu me aproximasse…
Tyson – Se você tivesse dado mais um passo, teria socado você. Seja sincero, se eu fosse um cara gentil, que atendesse vocês a todo momento, vocês respeitariam meus momentos de privacidade? Diga… Respeito vem do medo e da dor, não do amor. Essa fórmula foi bem sucedida para mim. E é o que usaram comigo…

Folha – Tyson, está arrependido do episódio com o cinegrafista na madrugada de anteontem?
Tyson – Não me arrependo. Estou é feliz por isso não ter acontecido quatro anos antes, quando era quatro anos mais idiota. Há quatro, três anos, teria arrebentado a câmera na cabeça dele.

Folha – Disseram que você leu muito na prisão, mas você seguiu com [o promotor] Don King, a quem acusa de tê-lo roubado.
Tyson – Na prisão havia duas coisas para fazer, masturbação e leitura. Era jovem, como poderia saber o que era certo ou errado? Na minha infância, quando pedia algo para alguém, gritavam, “”vai se f…”. Com Don King, ele fazia assim [entrega um pedaço de papel em branco para a reportagem e pede para assinar, o que é feito]. Aí me dava tudo o que queria na hora. Como poderia não gostar disso? Não responsabilizo King pelo que ocorreu comigo. Foi tudo culpa minha. Os lutadores dependem de outras pessoas. Depositamos nossa confiança em pessoas que não confiam na gente.

Folha – O que vê em seu futuro?
Tyson – Morrer. É o que acontece com todos. Mudando de assunto, qual seu signo?

Folha – Virgem. Você acredita em horóscopo?
Tyson – Sou de câncer.

Folha – A sua derrota para o peso-pesado branco [que têm histórico muito inferior ao dos negros] Kevin McBride virou motivo de piada…
Tyson – Isso me pareceu um pouco racista. Você é? Eu, que sou negro, é que deveria atacar os brancos, mas não tenho um pingo de racismo em meus ossos. A habilidade não depende de cor. Se bem que não sou mais um menino. Não consigo fazer coisas que fazia antes. Não tenho mais o coração, o estômago para isso [lutar]. A luta só me prejudicou, trouxe vícios.

Folha – Muita gente diz que, como campeão, você tem de se lembrar do que simboliza, da influência que tem na vida das pessoas. Afirmam que, sem saber, você inspirou algumas pessoas a melhorar de vida.
Tyson – Sou um cara legal. Nunca estuprei ninguém [nunca admitiu ter estuprado Desiree Washington]. Nunca matei. É só que às vezes quero ficar sozinho, por isso perco a paciência. [Visivelmente emocionado] você tem de ir agora. Vá. E se você disser algo disso [ficou com os olhos vermelhos] para alguém, mato você da próxima vez que o encontrar.

Folhapress
Entrevista exclusiva de Mike Tyson à Folha em 2005
Entrevista exclusiva de Mike Tyson à Folha em 2005

Fonte: Folha.com.br

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