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Nos 50 anos de Tyson, boxeadores brasileiros comparam o ex-atleta a Ali

Completando 50 anos nesta quinta-feira (30), Mike Tyson assombrou o universo do boxe da segunda metade da década de 1980 até o final dos anos 1990, período no qual alcançou marcas inéditas no esporte. Abrindo caminho com socos de potência rara, o boxeador nascido no violento bairro de Brownsville, no Brooklyn, em Nova York, também foi vítima de sua agressividade ao longo da carreira. Passou quatro anos na cadeia por acusações graves, como estupro, uso de drogas e agressão física.

O temperamento explosivo de Tyson casou perfeitamente com os interesses da indústria do entretenimento na época, que ao mesmo tempo que projetava o fascínio diante do talento do atleta também explorava todos os seus desvios de comportamento. “Ele é tão destrutivo que deveria estar preso”, disse uma vez Sugar Ray Leonard ao comentar uma de suas lutas anos antes que ele fosse acusado de infrações mais graves.

Nos anos do auge de Tyson, formava-se promissora geração do boxe brasileiro, com Acelino “Popó” Freitas, 40; Adriana Araújo, 34; e Robson Conceição, 27, que surgiu com inspiração no estilo do boxeador americano e o colocam no topo da história do pugilismo.

“Para mim, ele foi o maior de todos os pesos-pesados. Maior até que [Muhammad] Ali. Teve muita força, determinação, os socos dele encaixavam muito bem”, diz Popó, tetracampeão mundial (dois títulos como super-pena e dois como peso-leve). “Ele acertava muitos ‘uppers’, um golpe muito difícil, porque você fica frontal e o golpe vem de trás para frente.”

Medalhista de bronze em Londres-2012 e representante brasileira na Rio-2016, Araújo diz que Tyson foi seu “grande mentor.”

“Tive muita inspiração nele. Graças a ele, meus caminhos levaram ao boxe. Ele tinha muita sede, uma agressividade fora do normal. Só esteve atrás de Ali, o mestre dos mestres”, diz, apontando as lutas contra Evander Holyfield, em 1996 e 1997, como as maiores que já acompanhou.

“Ele tinha acabado de sair da cadeia [Tyson cumpriu pena de três anos por acusação de estupro] e mostrou muita força de vontade e superação para lutar.”

Os mesmos confrontos são lembrados por Conceição, que também estará na Olimpíada do Rio.

“Foram muito épicos, difíceis para ambas as partes. Mas o Tyson ficou nervoso, mordeu a orelha do Holyfield e saiu prejudicado”, lembra. “Já perdi muitas noites por causa dele, porque ficava acordado até tarde para acompanhar e era tudo muito rápido, nocaute certo”. Para Conceição, Tyson também só esteve atrás de Ali.

Para quem estava adquirindo gosto pelo boxe e treinando para se consagrar no esporte no período em que Tyson alcançou o pico, nenhum outro lutador teve feitos tão significativos. Aos 20 anos, em 1986, ele se tornou o mais jovem campeão mundial dos pesos pesados. No ano seguinte, se tornaria o primeiro peso-pesado a acumular os três cinturões da categoria. Ao longo da carreira, ele acumulou 44 nocautes em 50 lutas. Suas maiores lutas, como as contra Holyfield e Lennox Lewis, bateram recordes de venda de pacotes de pay-per-view e de valores de bolsas (ele recebeu R$ 30 milhões pela revanche em que mordeu a orelha de Holyfield) nos Estados Unidos.

No ranking dos melhores golpeadores, a revista “The Ring” o colocou como 16º, enquanto o site “ESPN.com” deu-lhe o primeiro posto na lista dos que batiam mais forte.

Todos esses números e marcas não convencem o medalhista de bronze na Olimpíada do México, em 1966, Servílio de Oliveira. Para ele, aquele que ficou conhecido como “o homem mais mau do planeta” não entraria nem em seu top-10 da história.

“Ele era um fenômeno pela maneira que lutava. Entrava e liquidava. Mas eu não era muito fã dele, não. Gosto do lutador inteligente, e ele só sabia lutar para frente. Tinha muita velocidade, mas não sabia defender recuando ou lateralmente. Estaria entre meus 100 melhores, creio, mas certamente não entre os dez”, analisa.

“O Holyfield, por exemplo, era de outro nível. Muito técnico. Ele estudou o Tyson antes daqueles combates e antecipou tudo o que ele iria fazer. Por isso que ele perdeu a cabeça.”

Nesse ponto, convergem as opiniões da velha guarda e das gerações mais novas: o boxeador se afundou em uma espécie de auto-sabotagem.

“Maior que Tyson foi apenas Tyson. A cabeça dele foi o grande inimigo que ele teve”, diz Popó.

Aos 13 anos, ele já havia sido detido 38 vezes pela polícia por conta de pequenos delitos, como brigas de rua com outros rapazes que tiravam sarro de sua voz fina e sua língua presa.

Em 1991, no momento mais baixo de sua trajetória, ele foi preso após ter sido acusado de ter estuprado Desiree Washington, então com 18 anos e miss Rhode Island. Considerado culpado, ele passou menos de três anos na cadeia, ou seja, menos de metade da pena de seis anos que recebeu no julgamento. Ao longo dos anos, ele também cumpriu pena por brigas e porte de drogas.

“A mesma agressividade que ele tinha nos ringues, e que era admirada, também aparecia fora deles, de maneira ruim”, pondera Adriana Araújo.

Aos 50 anos, Tyson agora tem repertório modesto de polêmicas. Entre campanhas de divulgação de filmes nos quais faz pontas, como “Se Beber, Não Case” (2009), o ex-pugilista revelou que tem sofrido com problemas de alcoolismo. Em 2013, ele disse que esteve próximo de morrer devido à doença, e então tornou-se vegetariano. No mesmo ano, meses depois, disse que estava sóbrio, mas já havia voltado a comer carne.

Mais recentemente, em 2015, ele declarou apoio à candidatura presidencial do republicano Donald Trump, de quem é amigo desde o final da década de 1980 e o início da década de 1990. Na época, Tyson lutou diversas vezes nos hotéis do empresário, que o defendeu publicamente da acusação de estupro.


Fonte: Folha.com.br

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