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O legado de segregação da cidade natal de Muhammad Ali

Muhammad Ali cresceu em um bairro pobre em Louisville, no Estado do Kentucky, nos anos 1950, quando a cidade ainda vivia sob segregação racial.

Sessenta anos após o fim, por lei, da separação entre negros e pobres nos EUA, a cidade ainda não deixou a segregação completamente para trás.

No mesmo dia em que o icônico lutador morreu em um hospital no Arizona, um pequeno mercado foi inaugurado no bairro em que ele cresceu.

O dono do negócio, Tony Martin, cresceu no bairro Parkland e voltou recentemente para abrir a loja. Ela fica perto do número 3302 da Grand Avenue, a casa onde Ali foi criado.

Nesta semana, centenas de fãs em luto fizeram uma peregrinação à casa rosa reformada recentemente e reaberta como museu apenas uma semana antes da morte do lutador.

Martin diz ter voltado para tentar trazer empregos para a comunidade, com o mercado e o restaurante que fica logo ao lado, o Prime Time Fish and Barbecue. A área precisa de um impulso na economia.

“Está muito ruim”, diz Martin sobre o bairro. “Tem muito assassinato, muito assassinato ocorrendo bem aqui em volta. É triste… tivemos provavelmente entre 20 e 25 homicídios num raio de três ou quatro quarteirões.”

As ruas estão cheias de casas abandonadas. Há poucos negócios. A casa no 3302 da Grand Avenue ficou vazia por muitos anos, o telhado caindo, antes de ser comprada por dois advogados de fora da cidade. Mesmo após o início da reforma, ladrões roubaram o novo ar-condicionado do local.

“A taxa de uso de heroína cresceu, tem muito crime por aqui”, diz Martin. “Se eu aumentar a loja, consigo melhorar o bairro ao meu redor.”

Tony Martin do lado de fora de sua loja, que fica na esquina da casa de infância de Muhammad Ali

Tony Martin do lado de fora de sua loja, que fica perto da casa de infância de Muhammad Ali

Na sexta-feira, o corpo de Ali será enterrado, mas não antes de passar uma última vez por sua cidade natal – e especificamente pelo chamado “West End” de Louisville, descrito pelo repórter local Phillip M Bailey, do Courier-Journal, como “deprimido economicamente e hiper-segregado”,

“No final (da vida), seu desejo foi: ‘Quero passar pelo oeste de Louisville. Quero passar pelo bairro Russell, o Shawnee'”, diz Bailey. “Acho que isso é como um ponto de exclamação da frase dele “Louisville é a melhor”. Ele amava o lugar de onde veio.”

Muhammad Ali de fato, uma vez, chamou sua cidade de “a melhor”, mas também a mencionou quando se recusou a lutar na Guerra do Vietnã.

“Por que eles me pediriam para colocar um uniforme e viajar 10 mil milhas de casa atirar bombas e balas em morenos no Vietnã, quando os chamados ‘crioulos’ de Louisville são tratados como cachorros e simplesmente tem seus direitos humanos negados?”, disse ele em 1967.

Diz a lenda que Ali jogou sua medalha de ouro olímpica no Rio Ohio depois que um restaurante se negou a servi-lo porque ele era negro.

Violet Montgomery, que costumava contratar os irmãos Ali para cuidar das crianças e ainda mora em frente à antiga casa dele, lembra bem daqueles dias – como da vez em que ela e seu marido tentaram ir a um cinema drive-in com os filhos nos anos 1950 e ouviram que “eles não serviam pessoas de cor”.

“Foi meu único incidente com isso porque não deixei que acontecesse de novo. Não com minhas crianças”, diz ela. “Eu as mantive longe disso.”

A segregação está intrinsecamente ligada à história de Ali e de Louisville, e enquanto a cidade se prepara para enterrar seu filho mais famoso, é difícil não perceber os efeitos que o racismo ainda tem ali.

“Esta é uma cidade muito educada e nem sempre falamos de assuntos difíceis como raça”, diz Sadiqa Reynolds, presidente da Louisville Urban League. “Louisville cresceu muito, mas temos muito a avançar para que a cidade seja realmente a melhor.”

Apartamentos pintados em Parkland;

Apartamentos pintados em Parkland; expectativa de vida no bairro é 10 anos menor que no resto da cidade

Retondo Halsell – que mora em uma grande casa de dois andares do outro lado da casa de Ali – ainda se lembra de quando foi transferido da escola onde Ali estudou, onde, tradicionalmente, só estudavam negros. Nos últimos dois anos de ensino médio, Halsell foi estudar em um dos subúrbios mais ricos do leste de Louisville.

Era 1975, início do fim da política de segregação em Louisville e em muitas outras cidades. Antes disso, brancos e negros eram separados por lei em diversos locais nos EUA.

“Eu nunca tinha visto pessoas brancas antes”, lembra Halsell. “Eu estava completamente confuso.”

No início Halsell e seus amigos começaram a vandalizar a escola nova na tentativa de que os mandassem de volta para a antiga, mas depois de vários meses aceitaram a transferência e se estabeleceram.

Ele lembra que, como adolescente que cresceu em um conjunto habitacional pobre, ficava escandalizado com a casa dos novos amigos.

“Disse para mim mesmo: Ah, vou pegar uma casa e consertá-la, fazer o lugar que eu moro ficar igual a este aqui’. Foi isso que me inspirou a fazer isso tudo”, diz ele, mostrando sua casa, a maior do bairro.

Hoje, Louisville é uma das duas únicas cidades americanas que ainda tem um programação de fim de segregação em escolas, mesmo após o fim da fiscalização federal. A cidade optou por continuar levando algumas crianças de ônibus para escolas mais distantes para assegurar que haja integração.

Pelo resto do país, porém, há sinais de que está havendo uma nova segregação – um reportagem recente do The Washington Post mostra aumento no número de escolas em áreas pobres em que a maioria dos alunos são de minorias étnicas.

“Acho que o interessante sobre Louisville é que as pessoas realmente abraçaram o sistema”, diz Sarah Garland, autora do livro Divided We Fail, sobre o processo de fim da segregação na cidade e diretora-executiva do The Hechinger Report. “Parecia que seria eleita uma nova diretoria de escolas que desmantelaria o sistema, mas eles não fizeram isso.”

De acordo com Myron Orfield, diretor do Institute on Metropolitan Opportunity na escola de Direito da Universidade de Minnesota, na década de 1970 tanto Louisville quanto Detroit, em Michigan, tinham perfil populacional semelhante na proporção de moradores negros e algum nível de escolas segregadas. Mas Louisville foi forçada a acabar com a segregação, enquanto Detroit não foi.

Hoje em dia, Detroit está falida, com grandes partes da cidade engolidas por pobreza extrema, enquanto Louisville está prosperando em comparação.

Orfield defende que o processo de dessegregação teve impacto ao desconectar o local onde a família comprava uma casa daquele em que seus filhos estudariam, o que retardou a disseminação de guetos urbanos. Nos EUA, as crianças normalmente estudam em escolas públicas nos bairros onde moram.

“[Detroit] deixou para trás uma grande cidade vazia com os mais pobres dos pobres, que basicamente não consegue ser funcional. Cleveland está perto disso. São todas cidades que nunca tentaram integrar nada”, diz ele. “O legado da segregação é prejudicial e danifica tudo.”

Já Louisville e seus subúrbios criaram um gigantesco distrito escolar que tornou impossível para famílias brancas evitar ônibus escolares que levassem as crianças para escolas em outros bairros.

Segundo Garland, isso significa que não apenas os alunos brancos conseguiam aproveitar as estruturas das escolas mais novas e modernas, mas famílias brancas cujos filhos eram enviados para escolas antes só para negros conseguiram fazer pressão para que os colégios obtivessem mais recursos.

Mas a dessegregação não consertou tudo, e até exacerbou alguns problemas. Ficou difícil para os pais de baixa renda, por exemplo, ir até a escola dos filhos, porque eles não tinham dinheiro para a passagem. Após 40 anos da política de dessegregação, a composição racial da cidade ainda é dividida por rígidas linhas geográficas.

“O desenvolvimento econômico foi segregado na cidade e isso é uma espécie de quebra-cabeça geográfico e físico – como desfazer décadas de discriminação em políticas habitacionais?”, diz Garland.

Two houses on Louisville's West End

Dois terços das vítimas de homicídios de Louisville no ano passado eram negras – mas eles são só 22% da população

Em Louisville, as partes leste e oeste da cidade são divididas pelo que se conhece como “divisa da Rua Nove”.

“Chamaram a Rua Nove de Muro de Berlim por muito tempo”, diz Thomas Williams, um advogado do local.

A parte oeste da cidade é predominantemente negra, enquanto a parte leste é predominantemente branca. A expectativa de vida para uma pessoa de Parkland é de cerca de 10 anos menos que do resto da cidade.

O número de homicídios chegou a 84 em 2015, e 75% deles ocorreram no oeste da cidade. Dois terços das vítimas eram negras, apesar de os negros serem apenas 22% da população.

A renda média e o nível de educação são menores, enquanto taxas de doenças cardíacas e diabetes são mais altas no oeste.

“Louisville é uma cidade extremamente segregada”, diz Cathy Hink, diretora-executivo da Metropolitan Housing Coalition, uma agência que defende políticas habitacionais mais justas. “Este tipo de discriminação, intencional ou não, ainda ocorre.”

De acordo com Hinko, após políticas habitacionais racistas e práticas discriminatórias serem tornadas ilegais, coisas mais banais – como leis de zoneamento – mantiveram a segregação da cidade e deixaram casas com preços mais baixos longe dos bairros mais ricos.

Bailey diz que a reputação de cidade “bem-educada” significa que temas raciais fiquem dormentes até que surja uma grande polêmica.

Ele destacou o fato de que, enquanto falava com a BBC por telefone, estava indo para uma reunião que iria decidir se a Universidade de Louisville deveria retirar o monumento aos Confederados adjacente ao campus.

“Em 2016 estamos tendo um debate sério e agressivo sobre os Confederados – debatendo se isso é uma discussão sobre raça”, diz. “Estamos fazendo este debate em Louisville mesmo enquanto estamos virando uma cidade mais diversa.”

Quando incidentes graves ocorrem, porém, costuma-se usar o legado de Muhammad Ali para unir as pessoas.

Em setembro de 2015, as paredes brancas do centro islâmico em que Ali costumava ir quando estava na cidade foi vandalizada.

“Nazistas falam árabe”, dizia a pixação em cores vermelhas. “Muçulmanos – deixem os judeus em paz.”

Muhammad Babar mencionou o incidente em uma cerimônia ecumênica para Ali na mesquita feita dois dias após a morte do lutador.

“Seguindo o ensinamento do campeão – a mensagem de compaixão, amor e paz – a cidade inteira veio limpar o centro”, disse ele na sala lotada.

O fato de a cidade ser oficialmente declarada “Cidade de compaixão” em 2011 sempre é mencionado quando o tema da segregação é levantado. A cidade e seu prefeito, Greg Fischer, tem investido na parte oeste como uma vitrine central de sua gestão com foco na compaixão.

Isso é feito de diversas formas, como o programa de justiça restauradora de Louisville, que coloca condenados jovens junto com suas vítimas para discutir uma punição adequada, na tentativa de evitar reincidência.

Até depois da morte, o legado de Ali continuar ligado ao lado oeste de Louisville. Em um nível micro, donos de lojas como Tony Martin esperam que o interesse renovado por Ali possa trazer mais visitantes ao museu.

No nível macro, Bailey diz que, com milhares de pessoas indo até Louisville para o funeral e a cidade recebendo atenção internacional, ele espera que haja uma chance de mudança duradoura.

“O foco não está em Kentucky ou Louisville, mas em uma parte de Louisville predominantemente negra que, até localmente, é esquecida”, diz ele.

“Agora que o filho mais famoso que Louisville já teve – e provavelmente terá – morreu, estamos em um local de reflexão para pensar o que a cidade quer ser.”


Fonte: Folha.com.br

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