O sofrimento humaniza

Gostaria de ter escrito esta coluna na segunda-feira, mas, como não tenho blog, faço hoje, com atraso, com grande chance de ser repetitivo.

Além de o Brasil ter sido eliminado na primeira fase da Copa América, o árbitro brasileiro Héber Roberto Lopes, que adora sorrir para as câmeras, atrapalhou a final entre Argentina e Chile, com as expulsões equivocadas de um jogador de cada lado. Com isso, os treinadores reforçaram a defesa e enfraqueceram os ataques, que ficaram em desvantagem numérica, um dos motivos do empate sem gols. O Chile se organizou melhor no confronto entre dez jogadores.

Quando Messi driblava um e ia para o gol, outro o desarmava ou o derrubava. Ele foi ao chão várias vezes seguidas, o que não ocorre nos jogos do Barcelona, na Europa. O futebol sul-americano é mais pegado e mais faltoso.

As quatro finais perdidas pela Argentina com Messi, uma para o Brasil, duas nos pênaltis para o Chile e a quarta para a Alemanha, na decisão do Mundial, foram para times do mesmo nível ou superiores. Não houve fracasso. Parece até que a Argentina foi eliminada pela Islândia ou pelo Peru.

Muitas pessoas que não acompanham diariamente o futebol, além de muitos torcedores e jornalistas esportivos, possuem uma opinião simplista de que um craque como Messi assume a responsabilidade e define, quando bem entender, brilhar e fazer seu time ganhar. Quando perde, é porque foi indeciso, frouxo, fraco, como se o futebol fosse uma disputa individual e não houvesse dezenas de fatores envolvidos no resultado e na atuação dos jogadores e das equipes.

Após a cobrança dos pênaltis, Messi, amargurado, com a cara mais triste que vi de um jogador após uma derrota, como se tivesse perdido um filho, sentiu-se culpado por não ter feito a Argentina vencer, como era cobrado, e disse que a seleção não era para ele, como se pedisse perdão pelo fracasso. Nunca tinha visto um ídolo tão frágil, abalado e destruído.

O sofrimento demonstrado por Messi parece ter despertado nos argentinos, pelas reações, a compreensão de seu esforço em fazer o melhor e, principalmente, a percepção de que ele não é o craque frio e distante da seleção e do país, como muitos achavam. O sofrimento humaniza o ser humano.

Todos os grandes atletas, de todos os esportes, têm grandes derrotas, como a de Pelé no Mundial de 1966, na eliminação do Brasil, na primeira fase, para Portugal. Existe uma conhecida imagem de Pelé, abatido, saindo do gramado sem a camisa da seleção, com um sobretudo colocado por um inglês, funcionário do estádio. Todos os grandes atletas, após grandes derrotas, sentiram-se fracassados, com vontade de não jogar mais, por causa da pressão de serem sempre os melhores, os atletas perfeitos.

A solidariedade e o carinho que os argentinos têm mostrado com Messi, muito maior que o que ele esperava, podem mudar sua decisão de não jogar mais pela seleção. Tomara! Espero vê-lo no Mineirão, em novembro, contra o Brasil, pelas Eliminatórias da Copa.

Os sonhadores já imaginam um final feliz, com a Argentina campeã do mundo e com Messi fazendo um maravilhoso gol na final. Isso não combina com o tango, um pensamento triste, que nunca poderia dar certo.


Fonte: Folha.com.br

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