Opinião: A necessidade de uma revista da cultura de Olinda

Olinda tem muitas razões para publicar uma revista de cultura. Olinda é cidade histórica e desde 1982, Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade. Foi dos primeiros núcleos de povoamento do Brasil e sua cultura é das mais ricas e mais própria de cidade brasileira. Marim dos Caetés, como é também denominada, apresenta riquíssimo patrimônio histórico e cultural com igrejas, mosteiros, museus, passos, casario, irmandades, artistas, clérigos insignes, devoções, procissões e instituições de ensino que marcaram a formação e a História do Brasil. Além desse acervo, a cidade tem uma cultura popular, não erudita que é das mais ricas do país. Saliente-se ainda, que Olinda nos meados do século XX representou um movimento das artes plásticas de expressão nacional, sendo também polo de arte popular. Seu carnaval, com seus bonecos gigantes, clubes, blocos e carnaval de rua, é inconfundível, constituindo-se num dos complexos culturais mais característicos dessa cidade.

Hoje, um dos focos principais do carnaval brasileiro, o de Olinda, se antecipa ao sábado de Zé Pereira, por semanas, com manifestações, sobretudo do carnaval de rua. Desfila também “O Bacalhau do Batata” na quarta-feira de cinzas e agrega grande número de foliões. Foi inventado para aqueles que trabalharam durante o período momesco, especialmente os garçons. “O Bacalhau do Batata” foi fundado em 1965 pelo garçom Isaias Ferreira da Silva, apelidado Batata. O clube “O Homem da Meia Noite”, desde 1932, abre oficialmente o carnaval, à zero hora do sábado de Zé Pereira e tem grande força ritualística e encanto sobre seus habitantes tradicionais. No domingo antes do carnaval, sai às ruas o bloco anárquico “As Virgens do Bairro Novo”, quando homens fantasiados de virgens, desfilam. O carnaval, um dos principais complexos de sua cultura, conta com carnavalescos famosos e tradicionais e muitos já falecidos, ficaram na boca do povo. São os casos de: Clovis Vieira, Benedito Bernardino, Helena a foliã, Alex e Jubal Caldas, e outros carnavalescos e estudiosos dessa grande festa olindense. Muitos pesquisadores reúnem duas condições: carnavalesco e pesquisador. É o caso do carnavalesco José Ataíde, da Ilha do Maruim, autor de: Olinda, carnaval e povo, à risca, o melhor livro sobre essa festança.

Outros itens e traços dessa cultura não erudita são muito vigentes e merecem saliência. As praias de Olinda entre as quais, Milagres, Carmo, Bairro Novo, Casa Caiada ou Rio Doce, não atraem o turista. Quem as frequentam são os olindenses mesmo e gente das periferias. Muitos deles foram expulsos do litoral e de suas atividades e habitações tradicionais, pela especulação imobiliária. Essas populações apresentam no dia-a-dia, a sua cultura com seus modos de vida, comportamentos próprios, formação de grupos e lazeres.

Esses traços culturais estão no trabalho, na culinária, no calendário, nos hábitos, no mobiliário e nas práticas religiosas. Qualquer olhar para suas praias, percebe-se a atividade da pesca artesanal com suas próprias técnicas, suas embarcações, redes, iscas etc. A pesca artesanal como subsistência e meio de vida, é amplamente praticada por muitos pescadores dessa cidade. A pesca, por ser atividade essencialmente grupal requer o envolvimento de todos com tarefas como preparo de iscas, redes, anzóis, conservação das embarcações, lendas, tradições e padrões comportamentais.

Convém mencionar, partilhado por todos, comportamentos como bairrismo, lazeres tipo: ciranda, coco, samba, cordel, dominó, técnicas e numerosos artefatos de pesca. Tudo que foi mencionado, são representações e características dessa cultura, muito própria de uma cidade brasileira. Cabe uma revista que seja intérprete de seus portadores. Juntando-se essa cultura não erudita, com a artística, mais a histórica e patrimonial da humanidade, estão reunidas todas as razões para o lançamento de uma revista.

Ela deverá contar com o apoio e o patrocínio do empresariado, de secretarias e de intelectuais e será um meio de divulgação e de promoção da cidade. Aspectos técnicos tipo orçamentos, conselho editorial, gráficos e outros, serão apresentados em projeto. Finalizo com trechos do Hino do Elefante, uma das agremiações carnavalescas das mais tradicionais, e de autoria de dois autores autóctones e populares do município: Clídio Nigro e Clóvis Vieira: “Olinda! Quero cantar a ti, esta canção, seus coqueiros, o teu sol, o teu mar, faz vibrar meu coração De amor a sonhar Minha Olinda sem igual Salve o teu carnaval.”*

*João Hélio Mendonça, professor universitário e antropólogo


Fonte: Diário de Pernambuco

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