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Organização, reconstrução emocional e técnica: esperanças de uma Seleção sem Dunga

Opinião: a CBF confirmou a saída do capitão do Tetra e está prestes a anunciar a chegada de Tite, mas o que o futuro reserva para o Brasil?


GOAL Por Tauan Ambrosio


O que muitos esperavam aconteceu. Na tarde desta terça-feira (14), a CBF anunciou a demissão de Dunga e toda a sua comissão técnica. É bem provável que Tite deixe o Corinthians para assumir as rédeas da Seleção Brasileira, algo que já era para ter acontecido antes mesmo de o capitão do Tetra ser chamado para a segunda passagem no comando do Escrete Canarinho.

Em sua primeira oportunidade como treinador do Brasil, entre 2006 e 2010, Dunga não tinha experiência prévia na área técnica. A sua contratação tinha como mote principal dar um ar de seriedade após a “festa” que acabou sedimentando a eliminação para a França, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2006.

Contestado por muitos, Dunga se garantiu no cargo por causa dos resultados. Não importava se o Brasil não jogava bem, ou se as suas respostas atravessadas não agradavam os jornalistas. Só que no principal teste a sua equipe caiu diante da Holanda, no Mundial de 2010. A eliminação, também nas quartas de final, custou o seu emprego. Três anos depois, o ex-jogador foi anunciado pelo Internacional, onde foi ídolo nos tempos em que vestia a chuteira.


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Apesar do elenco colorado ser apontado como um dos melhores do país, quando Dunga foi demitido, na 25ª rodada do Brasileirão de 2013, a equipe do Beira-Rio ocupava apenas a 10ª posição. Trabalho decepcionante, o último/único do ex-jogador até voltar, de maneira surpreendente, ao comando da Seleção Brasileira em 2014. O Brasil precisava de uma grande reformulação após o vexame histórico dos 7 a 1. Com Dunga, estava claro que aquilo não aconteceria.

Se na estrutura da Confederação Brasileira de Futebol quase nada mudou, mesmo após os casos de corrupção envolvendo seus presidentes, dentro de campo a Seleção Brasileira de Dunga só dava resultado em amistosos: venceu todos os 13 compromissos. O problema foi em competições oficiais, quando a coisa é pra valer. Eliminações seguidas em duas Copas Américas e uma péssima sexta posição nas Eliminatórias para a Copa de 2018.

Ao contrário do que havia acontecido em sua primeira passagem, nem mesmo os resultados ajudavam a mascarar a péssima qualidade do futebol. Quem acompanhou os treinos da Seleção antes de competições oficiais podia ver atividades sempre em ritmo leve, nenhum peso de responsabilidade nos ombros dos jogadores. Em campo, a Seleção Brasileira jogava como se apenas Neymar pudesse salvar.

Com jogadores muito mais habilidosos em relação aos “selecionados de um só herói” – como Portugal e Suécia, por exemplo-, Dunga não conseguiu mostrar um modelo de jogo convincente. As mudanças táticas não eram por causa de alternativas treinadas em campo: eram fortuitas, no velho método do erro/acerto imediato. Só que o trabalho ruim aparece quando contrastado com equipes que, apesar de menor nível técnico, mostram comprometimento tático e equilíbrio emocional.

As próprias Eliminatórias para o Mundial de 2018 e a Copa América Centenário atestam aquela velha máxima, de que “não existe bobo no futebol”. De fato. Todos os times buscam melhorar, evoluir. Não dá para deitar eternamente no berço esplêndido do “País Cinco Vezes Campeão do Mundo”. Mas se hoje o Equador (ou mesmo o Peru) não é mais aquela moleza do passado, o Brasil era para ser ainda mais poderoso. O papel de bobo no futebol fica para quem acha que a Seleção Brasileira conseguirá ter sucesso apenas pelo tal do peso da camisa.

Dunga não tinha experiência em sua primeira passagem, não fez um bom trabalho no Internacional quando se aventurou em clubes… e seguiu sem mostrar por que merecia ser o regente de uma das orquestras mais famosas do mundo.

Mas o que podemos esperar a partir de agora?

Tite deve ser anunciado como novo treinador da Seleção Brasileira. Apesar de a unanimidade em torno de seu nome ser um dos muitos indícios da crise vivida pelo nosso futebol, é impossível não esperar uma melhora. Em primeiro lugar, pelo fato de Tite ser, de fato, um treinador. O atual comandante do Corinthians teve sucesso praticamente incomparável desde 2012, busca o conhecimento que cerca o esporte e sabe lidar com o aspecto emocional. Conhece de tática, lida bem com a imprensa e já mostrou conseguir aguentar a pressão.

Além disso, virá com toda a sua equipe técnica. Um cenário parecido em relação à chegada de Felipão antes do Mundial de 2002. É de se esperar que, assim como aconteceu antes do Penta, o técnico do Brasil tenha de fato as rédeas nas mãos.

Coloque tudo isso em cima da mesa, e podemos imaginar um time minimamente organizado. A geração não é tão espetacular, no quesito técnico, como a que estávamos acostumados até 2006? Não. Entretanto tem excelente valores, atletas habilidosos que exercem papel de extrema importância em seus clubes – diga-se de passagem algumas das maiores potências da Europa, como Bayern, Barcelona, Real Madrid, Chelsea, PSG e etc.

E, enfim, parece que após a vexatória eliminação da Copa América eles, os atletas, se ligaram que a hora de bater no peito e jogar é agora. Ao contrário dos dias seguintes do 7 a 1, jogadores desembarcaram no aeroporto sentindo a carga negativa. Neymar, que escreveu uma ridícula mensagem de apoio aos companheiros, se retratou. Tite faz o estilo “paizão”, sabe levantar o moral de um bom grupo de jogadores. É acostumado, também, a reformulações. O Corinthians campeão brasileiro de 2015 que o diga!

Renegados, como Thiago Silva e Marcelo, podem (e devem!) receber novas oportunidades

Só que não espere, por enquanto, se encantar com a Seleção Brasileira. Tite é treinador, não mágico. A Seleção deverá ser estruturada, ter a sua espinha dorsal repensada. Com um pouco de organização e cabeça no lugar, alguns resultados deverão aparecer. E aí sim, e sempre com a humildade que vem faltando, podemos pensar em, depois, ver o time jogar o futebol que tem condições de apresentar.


Fonte: Goal.com

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