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Pai de menino carregado durante briga no Mané Garrincha chorou por dias

A cena que no domingo (5) chocou grande parte dos que acompanham futebol brasileiro repetiu-se ainda por outros dias: Fabiano de Lima, 32, aos prantos com o filho Kaylon, 9, portador de paralisia cerebral, em seu colo.

Durante a partida entre Flamengo e Palmeiras no estádio Mané Garrincha, em Brasília, torcedores de ambos os clubes envolveram-se em uma briga e os policiais presentes dispararam gás de pimenta para dispersar a confusão. Acompanhado de sua filha Ana, 7, Fabiano retirou Kaylon rapidamente do local, em uma imagem que remeteu a Pietà de Michelangelo.

Nos dias seguintes, o montador de móveis que atualmente vive de bicos ainda choraria algumas vezes, segundo contaram pessoas próximas à família, que também é composta por Cláudia, mãe de Ana e Kaylon.

De acordo com a madrinha do garoto, que pediu à Folha para não ser identificada nominalmente por ser “envergonhada”, “eles estavam muito animados para irem ao jogo, então ficaram muito frustrados depois do ocorrido.

“O Kaylon ficou assustado, não queria comer, dormiu muito mal no domingo.”

As imagens exibidas em rede nacional pela TV Globo e a repercussão enorme que geraram contrastam com a timidez extrema de Fabiano e de seus familiares. Em rápido contato telefônico, Cláudia disse que Fabiano “não vê a hora de isso tudo acabar, e não quer falar com ninguém da imprensa. O telefone não para de tocar”. A madrinha disse que eles estão espantados com a repercussão, e não querem expor o menino.

As pessoas próximas à família são unânimes em apontar a paixão que pai e filho têm pelo Palmeiras.

“O Fabiano defende muito esse time, principalmente porque vive cercado de flamenguistas. O cunhado torce para o Flamengo, então às vezes eles até discutem”, explica a madrinha.

Por meio do site Google Maps, é possível se ter uma noção disso: na rua de trás daquela em que mora Fabiano, há um carro com todo seu capô coberto por uma bandeira do Flamengo.

“O Kaylon é palmeirense demais. Se deixar, ele vive com a blusa [do time]. Para onde quer que vá, tem que colocar a blusa. Se você mostra uma camisa normal, ele vira o rosto; se mostra a do Palmeiras, ele sorri. É até engraçado”, completa.

Edjane Ferreira, 49, é professora de Kaylon em escola especializada em crianças com deficiência em Samambaia, região do Distrito Federal que fica a 25 quilômetros de Brasília e que tem um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano do Estado – o que se percebe pelas casas modestas e terrenos baldios espalhados pelas quadras da região. Edjane foi professora de Kaylon em 2014 e agora o é novamente desde o início do ano. E confirma o fascínio do garoto pelo Palmeiras.

“Ele entende tudo, é um menino alegre, tranquilo, ótimo de se trabalhar. Se você quer que ele fique bravo, basta falar mal do Palmeiras que ele faz bico como se fosse chorar. Ele leva muito a sério, e por isso eu peço para que não o provoquem com isso”, diz a professora.

“Ele tem deficiências múltiplas, então se comunica por meio do olhar. Sempre entendemos quando ele está desconfortável, quando quer comer. Ele também adora tintas, então como ele é um aluno passivo nós colocamos as mãozinhas e ele usa os dedinhos”, conta Edjane, que se preocupa com as repercussões do incidente no estádio.

“Ele ainda não veio na escola desde então, até porque ele tem certo pavor de ambulâncias, bombeiros, essas coisas. Sempre que temos um atendimento aqui, ele se assusta muito, chora. Ele deve estar bem chateadinho, não sei que dimensão isso vai ter na cabeça dele. Ele com certeza vai chorar muito.”

A mãe de Kaylon, Cláudia, conta que não foi ao estádio naquele dia porque estava estudando. E então viu pela televisão o ocorrido.

“Eu até queria ir, mas precisava estudar. E então vi as imagens pela TV. Deu um pânico, né?”, diz, breve e timidamente, lembrando da caçula Ana.

“Ela vê todo mundo dando atenção para o que aconteceu com o Kaylon, mas ela também estava lá, coitadinha”, apressada para desligar o telefone. Após o primeiro contato, ela não atendeu mais as ligações feitas.

Cláudia e Fabiano são descritos como pais presentes e carinhosos, revezando-se para que sempre um dos dois esteja com os filhos. Ela cursa enfermagem para dar o melhor cuidado possível para o filho.

“A Cláudia não trabalha fora justamente para cuidar dele. Precisa levar nas consultas e na escola, trocar as fraldas, dar comida, dar banho. Ela faz tudo por ele”, lista a madrinha.

“Ela colabora demais, leva ele para o shopping, no parquinho, para passear. Jamais esconde o Kaylon. Ela é maravilhosa e faz questão de mostrar que ele é uma criança normal, que pode fazer tudo”, corrobora a professora.

Descrito como “na dele” e “calado”, Fabiano exibe suas maiores paixões nas redes sociais: sua família e o Palmeiras, todos recorrentemente presentes nas fotos e links que compartilha.

O próximo compromisso da família será no sábado (11), quando os professores e amigos de Kaylon o aguardam para a festa junina da escola. Diante do susto pelo qual passaram, Fabiano, Cláudia e seus filhos ainda não confirmaram presença, mas os ensaios dos coleguinhas estão deixando espaço na quadrilha para a participação do amigo que logo deve voltar ao pula-pula de que tanto gosta.


Fonte: Folha.com.br

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