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Pazini: convocação de Ganso é certa por linhas tortas, mas ainda existem muitos erros

O calendário horroroso e a falta de organização do futebol brasileiro fazem mais uma vítima; será que Dunga vai aproveitar o talento e a boa fase do camisa 10?

Depois de muita discussão por conta da convocação de Kaká para a Seleção Brasileira que disputará a Copa América Centenário, o certo acabou acontecendo por linhas tortas. Nesta quarta-feira, o meia do Orlando City foi cortado por lesão muscular, e Paulo Henrique Ganso foi chamado para ser um dos 23 jogadores que defenderão o Brasil no torneio que será disputado nos Estados Unidos.


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A convocação do camisa 10 do São Paulo é justa e merecida. É o certo. Ganso tem um talento inquestionável e uma enorme qualidade técnica. Visão de jogo, qualidade no passe, habilidade e classe. O clássico armador que joga de cabeça erguida. O problema nos últimos anos vinha sendo a falta de regularidade, vontade e efetividade. Em 2016, porém, isso não está faltando.

Ganso acabou com a desconfiança da torcida tricolor e, além de grandes exibições, com belas jogadas, passes, assistências e dribles, tem sido decisivo e efetivo. Já são sete gols e cinco assistências na temporada. Seu ano mais artilheiro foi 2010, no auge no Santos, quando ele balançou a rede 13 vezes. Ele já passou da metade da marca, e no quesito garçom, seu recorde foram os 14 passes para tentos em 2015. Neste ano ele tem sido mais articulador do que nunca no São Paulo, organizando o time e criando as melhores jogadas ofensivas da equipe. Ele acertou 80% dos passes que tentou na temporada. Além disso, ele também está definindo os lances, o que não acontecia em anos anteriores.

(Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)

O talento de Ganso é inquestionável e sua fase é ótima, a melhor dos últimos anos, e ele pode ajudar a Seleção, muito mais do que Kaká, que não deveria ter sido convocado e encerrado seu ciclo na Seleção. Ele foi um monstro no auge, não à toa, ganhou tudo o que ganhou e uma Bola de Ouro, mas seu tempo no escrete canarinho acabou.

Com a criatividade que tem e ótima fase que vive, Ganso pode ser fundamental para o Brasil. Nas Eliminatórias Sul-americanas para a Copa de 2018, a Seleção tem um setor ofensivo tão produtivo quanto a Bolívia. Sim, é sério. O escrete verde-amarelo marcou mais gols (11 contra 7), mas criou menos chances (54 x 60) e finalizou menos (77 x 79) que os bolivianos ao longo das Eliminatórias. Diz muito sobre o péssimo trabalho de Dunga.

(Foto: VANDERLEI ALMEIDA/Getty Images)

O camisa 10 do São Paulo pode ajudar muito nisso. No entanto, fica a dúvida de se Dunga vai aproveitar Ganso como pode aproveitar ou se ele será mais um talentoso jogador prejudicado pelo péssimo treinador da Seleção Brasileira. É verdade que a safra atual não é tão espetacular quanto algumas anteriores, mas o Brasil ainda tem jogadores de qualidade, que se destacam e são titulares nos melhores campeonatos e times da Europa, além de bons nomes que atuam no próprio País. O futebol da Seleção, com os nomes disponíveis, poderia ser muito melhor que o (baixo nível) apresentado caso um técnico competente estivesse no comando.

Basta ver a diferença no nível do futebol apresentado por Philippe Coutinho, Fernandinho, Luiz Gustavo e tantos outros em seus clubes e na Seleção. É lógico que ninguém vai apresentar em um selecionado, o mesmo futebol que apresenta em seu clube. Os companheiros são diferentes, não existe o entrosamento dos treinamentos diários e os adversários e estilo também são distintos. O treinador atual do escrete canarinho, porém, arma mal sua “equipe”, que é, na verdade, um amontoado de bons jogadores.

(Foto: Lucas Figueiredo/MoWA Press)

As escalações são equivocadas, as substituições, no geral, ainda piores (quando acerta, Dunga geralmente está consertando um erro anterior), e o (a falta de) esquema tático e o estilo de jogo atrapalham a atuação dos jogadores. Os atletas não precisam atuar exatamente como em seus clubes, mas é possível montar a Seleção com suas peças atuando em funções semelhantes e rendendo no melhor nível.

No meio-campo, por exemplo, existe um buraco (nenhuma novidade, é algo notável desde os tempos de Felipão). Dunga consegue tirar o que Luiz Gustavo e Fernandinho tem de melhor e, quando Elias joga, ele é prejudicado pelo mesmo motivo. O time também não funciona porque a Seleção não tem um armador.

A bola não chega com qualidade, e pelo enorme buraco na meia-cancha e a pouca aproximação das linhas táticas e dos setores, o camisa 10 precisa recuar para pegar a bola e sair jogando em quase todos os momentos. O excelente Philippe Coutinho deveria ser titular da equipe, mas Dunga não consegue enxergar isso. Falta inspiração, criatividade e movimentação.

(Foto: Lucas Figueiredo/MoWA Press)

O time não se aproxima e existem buracos entre os setores. Falta aproximação entre os jogadores. Não à toa, a defesa vive desprotegida e dando espaços para os adversários, e o ataque fica distante demais do meio-campo em vários momentos, com Douglas Costa, Willian e Neymar (nos últimos jogos, Ricardo Oliveira ou Jonas) enfrentando toda uma retaguarda rival sozinhos muitas e muitas vezes. A ligação do meio-campo inexiste.

Apesar de ter uma média de posse de bola interessante nas Eliminatórias (59%, a segunda maior, atrás apenas dos 62% do Chile) e ser o segundo time que mais troca passes (4240, novamente o segundo melhor no índice, atrás apenas da Roja, com 4280), o Brasil pratica um futebol chato, previsível, nada criativo e pobre, que justifica os números ruins nas estatísticas de chances criadas e finalizações. A Seleção tem a bola, mas não sabe o que fazer com ela e troca passes inúteis que não levam a nada.

Isso tudo, porém, pode mudar na Copa América Centenário. Assim como Philippe Coutinho, Ganso tem condições de melhorar o meio-campo brasileiro, tornar o time mais criativo, armar jogadas e ligar a defesa e o meio-campo ao ataque. É verdade que a bruxa está solta, e o Brasil já sofreu cortes importantes, o último deles nesta quinta-feira, com a saída de Luiz Gustavo – por problemas particulares – e a convocação de Walace, do Grêmio.

(Foto: Getty Images)

No entanto, Dunga tem um ótimo elenco em mãos. Os zagueiros são bons e as laterais são ótimas: Daniel Alves e Filipe Luís estão entre os melhores do mundo em suas posições, e Douglas Santos e Fabinho são jovens e excelentes. Os três goleiros convocados são excelentes e seguros, e no meio-campo sobram opções. Dunga pode armar um setor de alto nível com Lucas Lima, Coutinho, Willian, Ganso, Casemiro e outras opções. Eles são destaques de seus times e ligas na Europa e no Brasil, e Elias e Renato Augusto, por mais que não vivam seus melhores momentos, possuem qualidade inquestionável. No ataque, Jonas fez temporada fenomenal pelo Benfica, Gabriel tem enorme talento e Hulk, apesar de ainda conviver com algumas críticas, é bom jogador e pode ser muito útil se usado da forma certa.

Se não para ser campeão da Copa América Centenário, já que Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai possuem times com mais opções, talento e força, além de maior entrosamento, o Brasil, mesmo com muitos atletas que ainda não atuaram juntos e sem ter uma equipe definida, tem condições de fazer um bom torneio e mostrar um futebol mais vistoso e ofensivo nos Estados Unidos. Talento e jogadores para isso existem. O problema que me mantém desconfiado é o treinador.

(Foto: Leo Correa/Mowa Press)

Dunga não é capaz de mudar o panorama atual. É limitado, fraco e fechado com suas ultrapassadas convicções. O Brasil não existe coletivamente e apresenta diversos problemas. O time não evolui e nem mesmo os resultados que salvaram o treinador em sua primeira passagem pelo escrete canarinho aparecem desta vez. O discurso também é inaceitável. Ele parece conformado com a Seleção cheia de problemas e mostrando limitações até mesmo contra adversários fracos e inferiores tecnicamente. O cenário atual é vergonhoso, principalmente levando em consideração toda a história do futebol brasileiro.

Já questionei isso algumas vezes em textos anteriores e volto a questionar: até quando o Brasil vai aguentar Dunga? Até ser tarde demais? Depois de um novo fiasco na Copa América ou complicar ainda mais a situação nas Eliminatórias? O treinador pode não ser o culpado de todos os problemas, mas é responsável por boa parte deles. A Seleção dispõe de bons jogadores e pode render muito mais com um comandante competente. Como mencionado antes, vários atletas se destacam com ótimas atuações e excelente futebol em alguns dos melhores times e campeonatos da Europa, e outros estão muito bem no futebol brasileiro. O amontoado de bons nomes pode se tornar um ótimo time, capaz de brigar de igual pra igual com qualquer um, mas para isso é necessário começar a mudar, e a mudança começa pela troca no comando e correção dos problemas apontados.

Calendário

Outro ponto a se lamentar é o calendário horroroso e a falta de organização do futebol brasileiro. Antes, ter um jogador convocado para a Seleção Brasileira era motivo de comemoração e até brincar com os amigos que torcem para o rival. Atualmente, se tornou motivo para críticas e reclamações. A Seleção ajuda por um lado, na valorização do atleta, mas por outro, atrapalha os clubes.

(Foto: Divulgação/Santos)

O São Paulo será mais um prejudicado, perdendo seu principal meio-campista, armador e referência técnica, peça fundamental na equipe, durante todo o mês de junho do Campeonato Brasileiro. Entre outros clubes, podemos citar casos impressionantes como Santos, Grêmio e Atlético-MG. O Peixe perdeu Lucas Lima, Ricardo Oliveira (que se não estivesse contundido, estaria nos Estados Unidos) e Gabriel. “Apenas” isso. O Triclor Gaúcho, além de Grohe e Wallace para o Brasil, perdeu Bolaños para o Equador. O Galo, por sua vez, está sem Douglas Santos, com a Seleção Brasileira, e os equatorianos Erazo e Juan Cazares. Um alvinegro perdeu praticamente todo o sistema ofensivos e os três nomes diferenciados do elenco. O outro perdeu metade da defesa e seu principal articulador de jogadas.

Para piorar, além de ficar sem os atletas durante todo o mês de junho, os quatro clubes citados e tantos outros do futebol brasileiro, podem perder jogadores importantes em várias outras rodadas, por conta das Olimpíadas e das Eliminatórias. Douglas Santos e Gabigol, por exemplo, que devem disputar a competição que pode dar o inédito ouro olímpico ao Brasil, podem desfalcar suas equipes durante 19 rodadas do Brasileirão, ou seja, um torneio inteiro!

É lamentável e repugnante. Assim caminha o futebol brasileiro. De fato, todo dia, sofremos um 7 a 1.


Fonte: Goal.com

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