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Professor da FGV avalia que massacre em Orlando pode afetar Olimpíada do Rio

O professor de Negociação e Resolução de Conflitos da Fundação Getulio Vargas (FGV), Yann Duzert, disse nesta segunda-feira que o massacre na boate Pulse, em Orlando, ocorrido na madrugada do último domingo, poderá afetar os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, de 5 a 21 de agosto próximos, com a desistência de turistas norte-americanos viajarem ao Brasil. O crime foi praticado por Omar Mateen, de 29 anos um norte-americano filho de afegãos, que entrou na boate frequentada por público LGBT armado com um fuzil e uma pistola e disparou contra os frequentadores, até ser morto pela polícia.

Segundo o especialista, há possibilidade de os norte-americanos desenvolverem uma espécie de fobia, ou medo, de irem a lugares que podem despertar a atenção de terroristas: “De fato, pode ter uma aversão ao risco desses americanos e europeus de virem a um lugar que vai estar visível a esse tipo de atentado”. O massacre, que resultou em 50 pessoas mortas e 53 feridas, pode tornar os americanos mais conservadores em suas decisões de viagem, o que eleva a probabilidade de ter menos turistas se deslocando para a Olimpíada, na opinião de Duzert.

A chacina pode também provocar um reforço nas medidas de prevenção de risco para a Olimpíada. “Vai ter reforço necessário nas fronteiras, nos aeroportos, uma percepção de segurança maior para os turistas. O Brasil vai ter que comprovar e mostrar maior controle do risco de entrada de potenciais terroristas”, afirmou o professor.

Reflexão
O atentado, opinou Yann Duzert, sinaliza que se torna cada vez mais necessário fazer uma reflexão sobre o mundo muçulmano dentro do ocidente. Não se pode confundir muçulmano com radical muçulmano, alerta o professor da FGV.

O problema é que, dentro do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos,  existem capítulos que podem ser entendidos como determinantes de homofobia (atitudes negativas contra pessoas de outras tendências sexuais), misoginia (repulsa, desprezo ou ódio contra as mulheres) e matar os ateus, alertou Duzert: ”Tudo isso está escrito no texto. Da mesma forma, tem uma leitura pacífica do Alcorão, que fala que o indivíduo não tem qualquer constrangimento na religião, ou seja, é livre para exercer a religião como quiser”.

Duzert destacou que é necessário, hoje, tanto nos Estados Unidos e na França como no Brasil, fazer uma leitura do Alcorão que seja moderna, que valorize a coexistência pacífica, e não o Alcorão que odeia quem é diferente: “Esse é o desafio dos próximos anos: reconhecer [no Alcorão] um texto moderno, pacífico, compatível com os valores de Repúblicas e de democracias”.

Eleições
Nas eleições presidenciais norte-americanas deste ano, o massacre de Orlando também terá repercussões importantes, afirma o professor de Negociação Internacional. Ele afirma que o atentado afetará as pessoas, que vão precisar de mais proteção: “Uma fobia aos estrangeiros pode fazer com que a política de abertura, de criar pontes, seja desvalorizada em relação a uma política de criar paredes, de separar as pessoas”.

Nesse sentido, Duzert argumenta que a política do candidato republicano Donald Trump pode tranquilizar, “de forma talvez ilusória”, uma parte da população norte-americana que tem medo em suas comunidades desses potenciais terroristas: “Pode ter impacto sobre uma parte da população que prefere um líder autoritário e protetor à visão de Hillary Clinton, que é muito mais de circulação e abertura entre as civilizações”.

Na avaliação do professor Yann Duzert, há necessidade de negociação moderna entre uma visão de ganho e perda, ataque e defesa, e uma visão de reconhecer as diferenças, “reconhecer a humanidade de cada um”. É preciso, conclui, que nas escolas, nas universidades e na mídia, se ensine cada vez melhor a capacidade de se relacionar com a pessoa diferente.

Duzert sustenta que as armas não vão resolver esse problema: “Cada vez que  vamos bombardear um país muçulmano, isso tem impacto na comunidade mundial muçulmana, de querer retaliação. Então, temos um risco de guerra sem fim, porque não sabemos reconhecer as identidades e ler o Corão de forma compatível com as repúblicas modernas”. Para o especialista, o que importa hoje é a newgociation (negociação reinventada), que consiste em um jeito moderno de negociar e de pensar na sustentabilidade de relacionamento entre as civilizações.


Fonte: Diário de Pernambuco

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