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Quem quer legalizar o jogo

BRIGAM AS IDEIAS, não os homens, é o que diz o manual do politicamente correto. Seria o ideal, mas nem sempre é possível.

Como na volta da discussão sobre a legalização do jogo no país.

De cara é preciso dizer que o esporte deve ficar bem longe da polêmica.

Ao se legalizar o bingo, em 1993, num contrabando enfiado na Lei Zico durante o governo Itamar Franco, uma das justificativas era exatamente a de financiar o esporte.

As entidades esportivas que seriam beneficiadas por se associar a casas de bingo até hoje ou têm de pagar as dívidas da aventura ou estão às voltas com a lenta Justiça brasileira.

O São Paulo foi uma das vítimas e o bingo proibido em 2004. Até CPI dos Bingos foi instalada, chamada de a “CPI do Fim do Mundo”, porque dedicou-se a investigar tudo e não investigou nada.

Era o primeiro escândalo do governo Lula e aconteceu porque Waldomiro Diniz, ex-presidente da Loterj e defensor da legalização dos jogos de azar, assessor parlamentar do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, foi flagrado em conversas nada republicanas com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Acabou condenado a 12 anos de prisão.

A justificativa à época era a mesma de agora: melhor legalizar e recolher impostos do que combater o jogo ilegal, esforço, de fato, semelhante ao de enxugar gelo.

Antes, em outro escândalo envolvendo bingos e caça-níqueis, caíra, no governo FHC, o ministro do Esporte e do Turismo, Rafael Greca.

Eis que o novo projeto é apresentado pelo senador piauiense, e presidente do notório PP, Ciro Nogueira, figura carimbada da bancada da bola, envolvido em escândalos que vão desde sua relação com Carlinhos Cachoeira até a Operação Lava Jato, passando pelo “caso Delta”, de seu íntimo parceiro, o tristemente célebre empresário Fernando Cavendish.

Como não brigar com o proponente?

Os argumentos são os mesmos de sempre.

Escreveu nesta Folha, no último fim de semana, o senador Nogueira: “O crime se alimenta de dinheiro frio, gerado nas sombras. Nada melhor para combatê-lo do que trazer todas as atividades, inclusive os jogos, para o controle da lei”.

Inegável o seu conhecimento sobre a frieza da moeda, mas de fazer corar sua defesa da lei.

Todos os levantamentos sérios sobre o custo/benefício dos jogos de azar nos países que os legalizaram mostram que os gastos em assistência social superam a arrecadação de impostos gerada pela jogatina, até mesmo nos Estados Unidos de Las Vegas.

Mas nem é esta a preocupação da ponderação neste espaço, que apenas quer reiterar a necessidade de se manter o esporte, uma das atividades econômicas mais propícias à lavagem de dinheiro, longe disso.

O esporte já está suficientemente contaminado para que ainda se acrescentem os jogos de azar, invariavelmente envolvidos com a prostituição e o alcoolismo.

Além do mais, no dia em que Ciro Nogueira tiver uma boa ideia para o Brasil e não para ele, o Flamengo de Teresina será maior que o do Rio.

Em resumo: a ideia é ruim e o proponente é péssimo, protótipo de político que desmoraliza o Congresso Nacional.


Fonte: Folha.com.br

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