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Reino Unido sai da União Europeia: e agora?

Por Maurcio Rands *

Convocado pelo primeiro ministro conservador, David Cameron, o referendo do dia 23 de junho um marco histrico para o futuro da Europa. O comparecimento, voluntrio, foi recorde: 71,8%. Pelo %u2018sair%u2019 votaram 17,4 milhes (52%). Pelo %u2018ficar%u2019, 16,1 milhes (48%). O Reino Unido ficou dividido. Londres (59,9%), Esccia (62%) e Irlanda do Norte (55,8%) queriam permanecer na Unio Europeia – UE. No resto da Inglaterra, 57% votaram pelo %u2018sair%u2019.

Os preos do petrleo caram 4,71%. A libra desvalorizou-se 4,5% frente ao euro e 6,5% frente ao dlar, depois de chegar a cair 12,5%. As bolsas, idem. Na manh da sexta- feira, o FTSE 100, de Londres, recuava 4,17%. O DAX, de Frankfurt, 7,11% e o CAC 40, de Paris, 8,51%. Nas praas de Milo e Madri, perdas de 10,88% e 12,40%. Na sia, a bolsa de Tquio recuava 8%. Hong Kong, 5%. Sydney, 3,5%. A BMF- Bovespa, 3%.

De plano, a vida dos imigrantes ficar ainda mais dura, com controles mais rigorosos e aumento da intolerncia. O PIB ser menor. A inflao, maior. Os combustveis, mais caros. Com a desvalorizao da libra, ganharo os exportadores. Os preos dos imveis cairo cerca de 15% e o volume de transaes, 20%, segundo estimativas iniciais de experts. Surgem oportunidades de compra de imveis na Inglaterra, sobretudo para estrangeiros. H quem preveja uma %u2018Brexit bubble%u2019 em Londres.

A prpria unidade do Reino Unido volta a balanar. Nicola Sturgeon, a primeira-ministra escocesa, j defende um novo referendo de independncia da Esccia para voltar UE. O mesmo j comea a ser defendido por nacionalistas na Irlanda do Norte. Para implementar o resultado do referendo de 23 de junho, j se discute a opo por um acordo de retirada anlogo ao modelo da Noruega, com acesso pleno ao mercado europeu e com garantia de livre circulao das pessoas.

Mas cresce a possibilidade de um Reino Unido mais fechado, isolado e menos dinmico. Pode ficar mais remoto o sonho europeu de um continente sem fronteiras, democrtico, aberto ao comrcio. Deflagra-se um processo de desintegrao da Unio Europeia, com mais volatilidade e turbulncias. Lderes xenfobos do populismo de direita, como a francesa Marie Le Pen, o ingls Nigel Farage, do vitorioso Partido da Independncia (UKIP) ou o holands Geert Wilders, do Partido da Liberdade, j se articulam para lanar campanhas por referendos em outros pases da Europa.

O nacionalismo e a intolerncia contra os imigrantes devem aumentar a presso por controles de fronteiras. Mas, como alertou o Le Monde, o pior seria manter a UE como ela hoje funciona, apenas jogando a culpa na demagogia xenfoba dos que fizeram a campanha do %u2018sair%u2019. O novo ambiente de globalizao e inovaes tecnolgicas produz vencedores e perdedores. No por acaso, o voto pela sada prevaleceu em regies economicamente estagnadas da Inglaterra. O aumento da concentrao de renda associado a uma elite dirigente burocrtica, que, insulada em Bruxelas, tende a perder os liames com as pessoas comuns. Por isso, a Unio Europeia vai precisar reinventar seus mecanismos decisrios. Menos burocracia, mais respeito s identidades de cada povo, e mais democracia.

Sobre a grave questo dos 60 milhes de refugiados, a UE deveria rever sua posio. Poderia assumir posturas mais proativas que viabilizem a paz, o comrcio, e os investimentos nos pases emissores de refugiados. Sem isso, o cordo dos eurocticos vai crescer. direita, com o discurso ultranacionalista anti-imigrantes. esquerda tradicional, com o anseio da volta de um velho estatismo que hoje se revela fiscalmente insustentvel e incapaz de se adaptar s mudanas ditadas pelas inovaes tecnolgicas. Trata-se de fazer uma profunda autocrtica e rever os fundamentos mesmos do sonho europeu.

* PhD pela Universidade de Oxford, advogado e professor de Direito da UFPE


Fonte: Diário de Pernambuco

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