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Sérgio Vianna: Esquerda?

A crise que vive o país é muito grave em diversas dimensões. Há uma crise fiscal de curto e médio prazo, uma trajetória de insolvência para a dívida pública, uma inserção pouquíssimo competitiva na economia global e uma desigualdade gigante.

Como pano de fundo, a Lava-Jato e revelações que chocam até cidadãos politizados e experientes. Nesse clima a polarização se deu, como seria de esperar, em torno do jogo do poder. De um lado o impedimento da presidente Dilma, de outro, os que são “contra o golpe”.

A narrativa do “contra o golpe”, que me perdoem os tantos amigos que ficaram com essa posição, não apenas não se sustenta no confronto com as evidências como contém em si um núcleo profundamente autoritário e antidemocrático.

Vejamos: de um lado os que acham que não há crime de responsabilidade comprovado e, portanto, o impedimento da presidente implicaria em uma ruptura com a institucionalidade democrática. Consideremos essa  uma opinião respeitável, legítima e que é a posição de eminentes juristas.

De outro, aqueles que, como eu, consideramos as ofensas à Lei de Responsabilidade Fiscal  crime de responsabilidade muito grave e, portanto, o impedimento é constitucional. Essa também é uma opinião respeitável, legítima e é a posição de eminentes juristas.

Fosse apenas uma questão de opinião, cada um ficava com a sua e vida que segue. Como se trata do encaminhamento da vida política, é preciso um critério de decisão e uma instância final para o contraditório.

Numa democracia esse critério só pode ser a Constituição e a instância final sobre a constitucionalidade, o STF. Como isto está sendo integralmente observado, é incoerente e absurda a afirmação de que está ocorrendo um golpe.

A não ser que alguns acreditem que o contraditório deva ser resolvido de outra forma que não através da Corte Suprema. Pela força nas ruas, talvez? Intervenção militar? Milícias? Quem é “contra o golpe”, consciente ou inconscientemente, tem na mente alguma forma de resolver o contraditório que passa por impor sua posição pela força, assim definida qualquer outra forma que não o recurso ao STF.

Essa discussão já não é mais uma questão prática para o enfrentamento da crise, mas é reveladora de uma realidade trágica da vida nacional. O Brasil, que tem na desigualdade a cicatriz mais profunda de sua sociedade, precisa, e muito, de uma esquerda do século 21, democrática e antenada com os imensos desafios do mundo contemporâneo.

Entretanto, as forças políticas da vida nacional que se pretendem de esquerda são prisioneiras de um ideário anacrônico, completamente  alienado dos verdadeiros desafios do mundo atual e, o que é pior, como revelado agora na narrativa do “contra o golpe”, com um núcleo de pensamento autoritário que deveria ter ficado no século passado.

Não é a esquerda à qual sinto, desejo e quero pertencer. Não é a esquerda que o Brasil necessita. Não é nem esquerda.


Fonte: Diário de Pernambuco

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