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Supremacia da escola gaúcha de treinadores na seleção já dura 10 anos

Há dez anos, a escola gaúcha de treinadores domina o comando técnico da seleção brasileira. Desde a saída de Parreira após a Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, todos os quatro treinadores que assumiram a seleção eram do Rio Grande do Sul: Dunga, Mano Menezes, Felipão e agora Tite.

Mas quais seriam os motivos para tamanho domínio dos gaúchos no cargo mais almejado pelos treinadores brasileiros?

O novo técnico da seleção brasileira já afirmou em diversas entrevistas que há no seu Estado duas escolas de futebol diferentes: uma trazida por Ênio Andrade e outra do treinador Carlos Froner.

Froner era um treinador que privilegiava a defesa, a força física, e o estilo mais duro. Com passado militar, cobrava dedicação extrema, disciplina tática e marcação forte de seus jogadores. Sua rigidez foi consagrada no Grêmio, onde foi três vezes campeão gaúcho na década de 60.

Andrade dirigiu o Inter campeão brasileiro invicto de 1979 que tinha jogadores do calibre de Paulo Roberto Falcão, Jair e Mário Sérgio. Seu estilo priorizava o toque de bola, a aproximação entre os jogadores e a qualidade técnica.

“Seu Ênio trouxe o sentido de organização e da inteligência em campo, sempre com disciplina. Basicamente é a ideia de que é possível jogar bonito e vencer”, explica Tite, em entrevista ao livro-perfil “Tite”.

Técnicos gaúchos

Mas para outros gaúchos que trabalharam com “Seu Ênio”, como Tite lhe chama, a divisão não é tão marcada assim. Paulo Roberto Falcão, ídolo do Inter comandado por Andrade no título brasileiro invicto de 1979, afirma que, em geral, o futebol gaúcho é marcado pela alta intensidade e preparação física, mesmo quando o time em questão joga bonito.

“Dentro de uma escola tem vários alunos, embora aqui sempre se priorizou a marcação”, disse à Folha. “O Inter [de 1979] era um time de toque e posse de bola. Acima de tudo jogava, embora fechasse muito bem os espaços. O Grêmio de Felipão [que, segundo Tite, é adepto da escola de Froner] também jogava”.

Para Otacílio Gonçalves, auxiliar técnico de Andrade no Inter em 1979, e com anos de experiência no futebol gaúcho, a escola dos treinadores do Estado também é uma só.

“É o estilo de jogo forte, pegada e marcação fortíssima. Em geral, todos do Rio Grande do Sul adotam esse estilo. Primeiro marca, garante o zero para depois buscar o gol. E, se garante o zero, pela habilidade de muitos jogadores brasileiros, é quase certo que se vá chegar ao gol”, explica.

O estilo, segundo Gonçalves, teve forte influência da mudança no futebol promovida na década de 70 pela Holanda.

“A partir de 1970, a Holanda começou a ganhar os torneios da Europa, e assombraram o mundo na Copa de 74 e na de 1978. Movimentação fortíssima, correndo muito e marcando muito. Até 70, se jogava futebol. Os jogadores do meio-campo paravam, olhavam, tocavam. Hoje não. Se parar, o marcador atropela”, afirma Gonçalves.

Edu Andrade/Folhapress
Falcão durante sua apresentação como treinador do Inter, em abril de 2011
Falcão durante sua apresentação como treinador do Inter, em abril de 2011

Seria, então, o estilo de intensidade física o motivo para os gaúchos terem assumido uma hegemonia, à medida que a força física ganhou importância no futebol?

Segundo Falcão, somente isso não explica o sucesso dos treinadores daquele Estado.

“Claro que a formação influi, mas Tite e Felipão, por exemplo trabalharam mais fora daqui do que aqui [no Rio Grande do Sul]”, afirma. “Eu não traduziria simplesmente assim”.

Segundo ele, que já foi técnico até da seleção brasileira, o fato se deu mais por coincidência do que qualquer outro motivo.

“Tem várias coisas. Não dá para pautar só por isso. O Estado teve profissionais que se destacaram nesta época”, afirma.

Finalmente, o ex-jogador da equipe nacional conclui que mais importante que o técnico “é o jogador”.

E, segundo Gonçalves, a depender desse quesito, o Brasil terá dificuldade para retomar os tempos de glória, mesmo com a qualidade de Tite.

“Por que o Brasil foi campeão no México [em 1970]? Porque tinha Jairzinho, Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson… Depois foi campeão com os dois Ronaldos e Rivaldo, fortes demais. Em 1958 e 1962, Garrincha, Jair, Vavá. Hoje entendo que não temos mais um Jairzinho, um Pelé, um Tostão, então é difícil. O craque brasileiro hoje é o Neymar. Os outros não são supercraques, com antigamente”.

INFLUÊNCIA PAULISTA

Os treinadores gaúchos ganharam projeção nacional com Osvaldo Brandão, o primeiro do Estado a assumir a seleção brasileira, em 1955. Brandão fez carreira como jogador no Inter, mas foi em São Paulo que brilhou como técnico, sendo o treinador com mais jogos na história do Corinthians.

E, assim como Brandão brilhou fora de seu Estado, um paulista também teve parcela relevante para o crescimento dos times do Sul no cenário nacional. Rubens Minelli foi um dos treinadores mais vitoriosos do Brasil, conquistando um brasileiro pelo Palmeiras em 1969, o bicampeonato pelo Inter, em 1975 e 1976, e o brasileiro de 1977 pelo São Paulo. O título brasileiro de 1975 foi o primeiro dos gaúchos na história.

“Fui auxiliar do Minelli e do Ênio Andrade”, lembra Otacílio Gonçalves. “Eles foram meus mentores.”

Apesar da semelhança maior com o estilo de Froner, Felipão também tem apreço por Minelli. Antes da Copa de 2014, o então técnico da seleção convidou Minelli para palestrar aos jogadores.

Rafael Ribeiro/CBF/Divulgação
Rubens Minelli (à dir.), Felipão (ao centro), e Candinho, durante palestra aos jogadoresda seleção brasileira antes da Copa, em 2014
Rubens Minelli (à dir.), Felipão (ao centro), e Candinho, durante palestra aos jogadoresda seleção brasileira antes da Copa, em 2014

“Você sempre orienta o filho sobre a maneira certa de se fazer algo. Fala várias vezes, insiste, até que vem alguém de fora e diz exatamente a mesma coisa. Aí o filho pensa: ‘opa, o certo deve ser isso mesmo’. Foi com esse objetivo que convidei o Minelli, para passar para os jogadores toda a sua vivência”, disse o treinador na ocasião.

“Na época, o Caxias tinha um time muito forte, era o melhor do interior do Rio Grande do Sul. Mas não conseguíamos derrotar o Internacional, não havia jeito, o time que ele montou era espetacular”, lembrou Felipão.

“O Internacional jogava há 30 anos o futebol que dizem ser hoje moderno e competitivo”, disse Minelli aos jogadores. “Era forte na parte física, tinha uma técnica aprimorada e uma obediência tática impressionante. Todos sabiam exatamente o que fazer em campo e todos corriam muito, até os mais talentosos”, explicou o ex-treinador.

REPRESENTATIVIDADE NA SELEÇÃO

Desde 1917, quando o paulista Chico Netto se tornou o primeiro técnico da história da seleção brasileira, 41 técnicos passaram pela seleção brasileira. Destes, 11 são do Rio Grande do Sul, o segundo Estado em número de representantes no comando da equipe nacional.

A seleção já teve técnico do Mato Grosso do Sul, de Alagoas, Santa Catarina e Pernambuco. Até um argentino e um uruguaio, tiveram sua vez. Mas quem ainda domina o ranking é o Rio de Janeiro, com 15 técnicos na história. São Paulo, o terceiro colocado, teve apenas cinco, e Minas Gerais quatro.

Técnicos da seleção – De onde são os técnicos da seleção brasileira?

Apesar da estreia ter sido de um paulista, nos primeiros anos de seleção o comando ficava quase sempre nas mãos de cariocas.

O primeiro treinador do Rio Grande do Sul na equipe nacional foi Oswaldo Brandão, em 1955. O treinador teve quatro passagens pela seleção até 1977.

E nesse período da década de 1950 a 1970, outros cinco técnicos passaram pela seleção: Teté, Oswaldo Rolla, Carlos Froner, João Saldanha e Cláudio Coutinho.

O Rio Grande do Sul só seria representado novamente em 2001, com Felipão. Desde então, apenas o carioca Parreira, de 2003 a 2006, interrompeu a sequência da escola gaúcha no comando da equipe nacional.


Fonte: Folha.com.br

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