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Tite: quando a escolha óbvia mostra o buraco sem fundo em nosso futebol

Opinião: o técnico do Corinthians é unanimidade para assumir a Seleção no lugar de Dunga…e ter apenas um nome não é nada bom. Falta muita coisa para evoluirmos


GOAL Por Tauan Ambrosio 


Dificilmente Dunga vai permanecer no comando técnico da Seleção Brasileira. Seria insistir, mais uma vez, no erro. O nome desejado por todos é Tite, que já recusou o convite em outras duas oportunidades. Desta vez, o treinador do Corinthians está mais propenso a conversar. Só que estipulou duas condições: Dunga não pode mais estar no cargo, e ele, Tite, montaria a própria comissão técnica.

É inegável que o atual treinador corintiano é o nome mais indicado. O que impressiona é o fato de ser o único que chegaria com méritos inquestionáveis ao cargo. Cuca, por exemplo, é um profissional que sabe montar times que jogam muito bem, só que, hoje, não está no mesmo nível de Tite. Jorginho, que foi o cérebro por trás da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010, tem um perfil que agrada a CBF, mas também levantaria dúvidas apesar do excelente trabalho feito no Vasco da Gama. Afinal de contas, a equipe carioca está na segunda divisão e o nível dos estaduais não é parâmetro.

O cenário dos atuais treinadores brasileiros não deixa de ser um dos muitos reflexos da atual falência em nosso futebol. É como se o espelho do nosso principal esporte tivesse caído e se partido em vários pedaços, cada um refletindo um descaso: corrupção, falta de planejamento, de bom-senso e muitos outros. Os sete anos de azar ditos pela crença popular quando um espelho quebra podem ser personalizados pelos gols da Alemanha no Mineirão. Mas não se engane, pode ficar muito pior. Já é bem nítido.


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A cultura do imediatismo é um veneno que corre pelas veias do futebol brasileiro. O treinador é contratado e, antes de finalizar um ciclo, é demitido. O clube, muitas vezes, compromete a sua combalida finança pagando cláusulas de rescisão aos ‘professores’, que meses depois acabam sendo anunciados por outra equipe. E muitas vezes começam tendo que ‘apagar um incêndio’, como se diz na linguagem boleira. O trabalho pensado dá lugar ao improviso, a filosofia de jogo vira apenas um grito de incentivo. A sujeira continua ali, mas é varrida pra debaixo do tapete.

Em 2015, Doriva treinou três equipes diferentes no Campeonato Brasileiro

Com isso, são raros os novos treinadores que ganham oportunidades. O futebol brasileiro não permite que isso aconteça, e o resultado é um rodízio constante entre os mesmos nomes. Técnicos que, na maioria, entraram no modo automático desta máquina de aniquilar com projetos mais estruturados. Sabem dançar conforme a péssima música de autoria da CBF e que os clubes propagam.

Os estrangeiros que vieram trabalhar aqui nos últimos anos sentiram isso na pele, com um clima mais hostil pelo fato de não serem brasileiros. Em um passado não tão distante, quando foi ventilada a possibilidade de Pep Guardiola assumir o comando da Seleção Brasileira a maioria dos dirigentes – e dos treinadores tupiniquins – detestaram a ideia. Ou seja: além da falta de planejamento ainda existe a soberba! Nesta Copa América Centenário, dez seleções dentre as 16 participantes contam com treinadores de outros países. Equipes que buscam, de alguma forma e com suas limitações, evoluir no esporte mais visto do mundo.

Olhar para o passado não é apenas um exercício de saudosismo, ajuda a explicar muita coisa. Em mais de cem anos de história, a Seleção Brasileira só contou com um treinador estrangeiro: o argentino Filpo Nuñez, que por sua vez só teve um jogo. Filpo foi o grande mentor da primeira Academia do Palmeiras, um dos maiores times que desfilou por nossos gramados, e como o Alviverde foi chamado para representar a Seleção no amistoso contra o Uruguai, que marcava a inauguração do Mineirão, em 1965, o argentino teve a honra de representar a Seleção Brasileira.

Vale lembrar, também, que a grande revolução tática que deu base para os craques de 1958 conquistarem o mundo pela primeira vez foi em decorrência do intercâmbio com treinadores estrangeiros. Em 1957, o húngaro Béla Guttmann comandava São Paulo e conseguiu aplicar a sua metodologia. O seu principal feito por aqui foi introduzir, com sucesso, o sistema de 4-2-4 nascido em seu país natal. Vicente Feola, treinador que viria a ser campeão mundial com Pelé e Garrincha, fazia parte da comissão técnica do Tricolor Paulista: absorveu o conhecimento e colocou em prática no ano seguinte: modelo de jogo aliado a grandes jogadores.

Hoje, o estrangeiro mais indicado a assumir o comando da Seleção Brasileira seria Jorge Sampaoli. O argentino, no entanto, está próximo de acertar a sua ida para o futebol espanhol. Mas o caminho da evolução não está apenas nas escolhas da CBF. Os clubes precisam dar espaço ao planejamento, e deixar o imediatismo de lado. O torcedor também precisa entender isso. Edgardo Bauza, argentino que está no São Paulo, escapou de ser demitido injustamente por causa de um puro acaso do destino. O acerto tricolor foi por linhas tortas. Não pode ser mais assim.

Já passou da hora de evoluir, de aceitar uma opinião diferente. De querer. O futebol é cada vez mais pensado, debatido e estudado. E, no Brasil, quem está no comando de praticamente todos os níveis da pirâmide está fazendo tudo errado. É preciso fomentar o futebol, estimular e dar oportunidades para treinadores (e outros profissionais da área, claro) mostrarem o seu trabalho. Se não mudar, o esporte que todos amam por aqui tem grandes chances de morrer. 


Fonte: Goal.com

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