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Um duelo dos sonhos

A vida de Muhammad Ali teve muito de tudo. Valeu-se do fenomenal sucesso no boxe para alavancar lutas sociais, especialmente contra o racismo nos EUA. Também repercutiu intensamente a recusa de servir ao seu país na lamentável e infame Guerra do Vietnã, posição que defendeu nos tribunais.

A arte de boxear, por sua vez, ele a definiu com uma frase espetacular: “Flutuar como uma borboleta, picar como uma abelha”. Era zombeteiro, polêmico, ágil e batia forte. Teve performance incontestável nos ringues.

As atuações contra pugilistas da categoria de Joe Frazier, George Foreman, Larry Holmes, Leon Spinks e Ken Norton, monstros dos pesos pesados, o consagraram. Difícil era encontrar algum esportista que contestasse a grandeza de Ali nos ringues, mesmo nas derrotas.

Só restou uma dúvida, cruel e sem resposta: o que seria de Ali num combate contra o cubano Teófilo Stevenson, mito do boxe olímpico? Ou o que seria de Stevenson diante de Ali?

A hipótese desse confronto alimentou especulações, mas ele não aconteceu. Ali, campeão olímpico dos meio-pesados (categoria imediatamente inferior à dos pesados) em Roma-1960 e tri mundial dos pesados como profissional, embolsava milhões de dólares com suas lutas. Stevenson, três vezes campeão olímpico (Munique-72, Montrèal-76 e Moscou-80), foi também detentor de outros três Mundiais sempre como amador, sem remuneração.

Duas memoráveis carreiras esportivas em pleno cenário da Guerra Fria, o polarizado embate entre os EUA, capitalistas, e seus parceiros, contra a então URSS, e o bloco de países socialistas.

Dessa forma, além do mote esportivo, o combate Ali-Stevenson teria uma forte pincelada daquela disputa, que ameaçou o mundo em 1962 com uma guerra nuclear, no episódio da base de mísseis instalada pelos soviéticos em Cuba, felizmente solucionada por meios diplomáticos.

Stevenson morreu em junho de 2012, aos 60 anos. Naquela ocasião, escrevi a coluna “Eu vi”, sobre a carreira do indomável pugilista amador, com destaque para o posicionamento de Stevenson, que recusou inúmeras propostas para se profissionalizar.

Sua opção era defender o comandante Fidel Castro e o regime cubano, que, na época, proibia profissionalismo no esporte por causa do seu viés capitalista.

O cartel de Stevenson (encerrado com 321 lutas, 301 vitórias) lhe conferia considerável experiência para enfrentar o gabaritado profissional Muhammad Ali. Mesmo se ocorresse numa oportunidade excepcional, a partir do momento que disputasse uma peleja remunerada, o cubano perderia sua condição de amador, exigência olímpica.

Ironicamente, na semana passada, a da morte de Ali, a regra foi banida. Os pugilistas profissionais estão liberados para competir na Olimpíada. Aliás, uma decisão temerosa da Aiba (Associação Internacional de Boxe), responsável pelo pugilismo olímpico, bem como do COI, que tem todos os direitos dos Jogos.

Risco desnecessário à saúde a um novato, inexperiente, colocá-lo diante de um profissional. Ali-Stevenson seria um duelo excepcional. Ambos eram reconhecidamente gabaritados. Mas não passou de um sonho a alimentar a imaginação dos fãs: Quem venceria?


Fonte: Folha.com.br

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