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Um homem bom

O GP de Mônaco estava aberto. Estratégias sob sigilo, momento de observação, pista secando, engenheiros fazendo contas, resultado imprevisível.

A manobra foi tão inesperada que o diretor de TV perdeu a chance de mostrá-la ao vivo. Era o início da 16ª volta, e de repente lá estava Hamilton à frente de Rosberg. Ué.

Só no replay descobrimos o que houve. Enfrentando problemas para aquecer os pneus, o alemão quase parou o carro na subida do Cassino para que o companheiro passasse.

Graças a isso, Hamilton teve caminho livre para sair à caça de Ricciardo e reduzir a vantagem do australiano. Se Rosberg tivesse endurecido por mais algumas voltas, o inglês não teria condições de assumir a liderança nem com a melhor das estratégias.

Escrevendo de forma mais direta: Rosberg poderia ter evitado a vitória do rival. Não o fez.

Não o fez e viu, ao fim do dia, sua vantagem no Mundial cair de 39 para 24 pontos. Viu Hamilton de fôlego novo, bradando otimismo.

Talvez tenha começado a ver o campeonato escorrer pelos dedos. É a impressão deste colunista. Piloto bonzinho não ganha título, e a manobra de Rosberg traz à memória dois casos emblemáticos.

O primeiro envolve exatamente os mesmos personagens e é recente: GP da Hungria de 2014, 11ª das 19 etapas daquele ano.

Rosberg liderava o campeonato, com 14 pontos de folga. Largou na pole e liderou a primeira parte da corrida até que um safety car embaralhou as coisas. Rosberg caiu para quarto, Ricciardo assumiu a liderança, Hamilton partiu para uma estratégia de duas paradas.

Na 47ª volta, Rosberg, que estava com o pneu mais macio e precisava fazer um terceiro pit, encostou no companheiro. A Mercedes pediu para o inglês abrir passagem. “Eu não vou reduzir o ritmo para o Nico. Se ele conseguir passar, que passe”, retrucou.

Ricciardo, com estratégia idêntica à de Rosberg, venceu a corrida. Hamilton terminou em terceiro, com o companheiro logo atrás. A folga no Mundial caiu para 11 pontos. Mais importante do que isso, porém, Hamilton se impôs.

Três meses depois, em Abu Dhabi, o inglês comemorava o bicampeonato mundial.

O outro caso é o de Coulthard no GP da Austrália de 98. A prova abria aquele campeonato, a McLaren começava a viver uma grande fase, Coulthard e Hakkinen eram tratados como pilotos equivalentes.

A duas voltas para o final, o escocês reduziu a velocidade e abriu passagem para o finlandês vencer. A vitória de Hakkinen, então apenas a segunda de sua carreira, praticamente selou o destino do campeonato. A McLaren passou a lhe reservar tratamento de primeiro piloto.

Coulthard justificou sua decisão dizendo que queria recompensar o companheiro por um erro que a equipe havia cometido nos boxes.

Foi bonzinho.

Correu mais dez anos na F-1. Nunca conquistou um título.


Fonte: Folha.com.br

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