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Vida de viajante

O protagonista da cena mais emocionante do revezamento da tocha olímpica virou celebridade por acaso. Quem aparece no vídeo, entoando a canção “Vida de Viajante”, é o tenente-coronel da Força Nacional Francisco Cantarelli.

Impossível não se emocionar. Cantarelli chefia a segurança do comboio que cruza o país com a tocha e substituiu um condutor que não apareceu. Não foi a primeira vez que a canção embalou os membros da Força Nacional a completar trechos no lugar dos desistentes.

“Havia acontecido umas quatro vezes, mas as cidades eram pequenas e o público menor. Em Caruaru, foi diferente, mas orgânico. Nunca conseguiríamos criar uma situação daquela”, diz Adriana Garcia, diretora de comunicação da Rio-2016.

Foi uma semana em que finalmente o revezamento saiu do noticiário formal e tomou conta das redes sociais, de forma espontânea.

Tivemos o emocionante episódio com a música de Luiz Gonzaga, mas também rolou polêmica. A primeira envolveu a escolha da ex-BBB Ana Paula, expulsa do programa por agredir participante, como condutora, em Fortaleza. “Entendemos que a atitude dela foi resposta a uma agressão”, justifica Adriana.

Dar na cara de alguém porque foi provocada não parece atitude de quem tem o tal espírito olímpico, procurado na difícil seleção. Para se ter uma ideia, só o Bradesco, patrocinador ao lado de Nissan e Coca, recebeu 15 mil indicações e selecionou 1.700. Ao todo, 12 mil pessoas conduzirão a chama durante 95 dias, cerca de 200 por dia.

Felizmente, a Rio-2016 foi menos condescendente e respondeu com uma atitude rápida e firme ao desconvidar o cantor Biel, quando um episódio de assédio veio à tona. Era só o que faltava, manter alguém acusado de violência na semana em que tivemos o lindo encontro de duas gerações de mulheres que estão na linha de frente da defesa feminina.

Julia Faria, idealizadora de campanhas como #meuprimeiroassedio, entregou a tocha para Maria da Penha, que batiza a lei mais importante contra violência doméstica.

Esse tipo de notícia, pena, é o que menos repercute. Portanto, dá para entender por que os organizadores incluem, além de atletas e pessoas anônimas, jornalistas e celebridades entre os condutores.

Não há nada de errado. Excelência, respeito e amizade não são apenas valores olímpicos, mas bandeiras empunhadas por todos os setores da sociedade. Obviamente é preciso que haja cuidado nas escolhas.

O que acaba eclipsado nesse momento não-estou-nem-aí-para-a-Olimpíada são histórias de desconhecidos, alguns indicados por famosos. Giovane Gávio, do vôlei, apontou Jeferson Viana, 54, seu primeiro professor de judô, em Juiz de Fora. O velejador Torben Grael escolheu o marinheiro Valmir das Neves, 75, que trabalha em um clube náutico de Niterói.

Em Salvador, Luislinda Santos, primeira juíza negra do país, passou a chama para Creuza Maria Oliveira, líder da federação das domésticas brasileiras. São pessoas que contam a história do país por meio de suas próprias. Como Cantarelli, para quem a vida é “andar por esse país” durante três meses, longe da família, seguindo o revezamento. Que um dia descanse feliz.


Fonte: Folha.com.br

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